À espera de mais respeito

por Blog do Caminhoneiro

caminhoneiro-volvo-fh-bitremNem todo menino brinca de bola e nem toda menina de boneca. Alguns meninos preferem carrinhos e miniatura de caminhões. Principalmente se o pai for caminhoneiro. Assim aconteceu com Douglas Vaz da Silva. Com 29 anos de idade, há nove anos na estrada. Atualmente dirige um VW Constellation 24.250 com o qual transporta Yakult de São Paulo para o interior do estado.

“Sou caminhoneiro porque desde pequeno tenho paixão por caminhão”, diz Silva com satisfação e orgulho. “Meu pai é caminhoneiro e eu sempre gostei de caminhão”.

A família também influenciou Marcos Gonçalves, o “Desenhado”, 38 anos, 15 de caminhoneiro. Desenhado, segundo ele, porque Deus o desenhou, de tão bonito que ele é. Isso segundo sua mãe. Morador em Várzea Grande, transporta carga seca com um Volvo FH 440, principalmente, para São Paulo e Rio de Janeiro, mas se precisar, vai para qualquer lugar. “Sou caminhoneiro por causa de família”, afirma Desenhado. “A história começou com meu avô, passou para meu pai, agora está comigo e assim vai”.

Sérgio Luis da Silva, de 38 anos e 12 de profissão, dirige um Volvo FH 420. Mora em São Paulo e transporta carga frigorificada de Rondônia para São Paulo e Rio de Janeiro. “Meu pai não é caminhoneiro, mas meus tios e primos são”, diz Sérgio Silva. “Tem uma porção de gente na família que é caminhoneiro, por isso peguei gosto”.

Um cabeça dura. É assim que se classifica Adenir Alves de Freitas. Com 54 anos de idade e 26 de profissão, ele diz que virou caminhoneiro por ser cabeça dura. “Eu fui cabeça dura, não quis estudar. Por isso, acabei virando caminhoneiro”, conta Freitas.

“Caminhoneiro é igual coceira, difícil de começar. Depois que pega gosto não tem como sair”.

Alguns nem sabem porquê são motoristas, mas agarram a oportunidade para serem bons profissionais. É o caso de Sebastião Ribeiro, com 52 anos e 15 de profissão. Mora em São Paulo e conseguiu ter seu próprio caminhão, um VW 24-250, com o qual transporta perecíveis para o Carrefour. “Não sei porque sou caminhoneiro, caí de paraquedas”, diz Ribeiro. “Mas depois que você pega o gosto pela profissão, não larga mais. Talvez também por falta de oportunidade, falta de estudo ou de qualificação profissional. Se eu tivesse oportunidade saía, porque isso aqui não tem valor. Motorista não tem valor pra ninguém”, lamenta ele.

Mudanças

Freitas lembra que há 26 anos, o maior problema da profissão eram as estradas. “Uma viagem de São Paulo ao Paraná demorava dois dias”, recorda. “Hoje o asfalto não é o que deveria ser, mas está bem mais tranquilo. Hoje, os problemas são os pedágios caros e a falta de local de parada. Em Curitiba, se você não abastecer, não tem onde parar”.

Para Douglas Silva, a maior dificuldade no início eram os horários que as empresas impunham. “Trabalhei em uma empresa que carimbava as notas fiscais e eu tinha que fazer de São Paulo a Belo Horizonte em 9 horas”, lembra Silva. “Hoje estou tranquilo, tenho o serviço mais tranquilo da minha vida. Fui dormir ontem às 9 da noite e acordei hoje às 8. Já terminei meu serviço e estou voltando para a empresa”.

Celso Carvalho Alves, de 50 anos e 18 na estrada, é contratado de uma transportadora e dirige um Mercedes-Benz Axor 2035. Mora em São Paulo e transporta congelados de São Paulo para o nordeste. Ele diz que “mora” no caminhão, mas a família fica na Bahia. “O pior problema que eu enfrentei quando comecei, continua até hoje, que é o trânsito em São Paulo. E se não bastasse isso, ainda tem a restrição de horário”, explica Alves. “Caminhoneiro não pode nada. Além disso, não temos locais onde parar. Vou para Recife sem problemas, mas quando volto, tenho que encostar o caminhão na porta da empresa às 4 horas da manhã para não ficar preso no rodízio”.

Ele explica que de Cambuí a São Paulo não tem um posto para parar, a menos que o caminhoneiro encoste às 3 da tarde. Ele parou em Cambuí, acordou às duas horas e pegou a estrada para fugir do rodízio.

“No nordeste, o que pega são as estradas que em alguns locais, como em Recife, estão ruins”, afirma Celso Alves. “A BR-101 acabou em Recife. E todas as outras são mão simples. Na BR-116, na Bahia, encheram de pedágios, mas as pistas ainda são mão simples. E para piorar a situação, o maior problema continua sendo segurança”.

Para Marcos Gonçalves, antigamente era melhor. “A gente trabalhava melhor, tinha mais serviço e hoje o valor do frete abaixou”, explica ele. “Talvez porque atualmente existam os bitrens, os rodotrens. Antigamente, só existia até o modelo LS”.

Sérgio Luis da Silva tem 38 anos e 12 de profissão e se lembra que o maior problema no começo era conseguir o primeiro registro em carteira. “Como ter experiência se ninguém dá a primeira chance?”, questiona Silva. “Hoje mudou, com a falta de mão de obra especializada, as empresas estão contratando qualquer um que tenha carteira E. Isso é ruim para a empresa e bom para o funcionário. É preciso dar uma chance para começar. Mas tem que encaminhar o motorista. Não pode deixar um caminhão de 600 mil reais na mão de uma pessoa que não tem experiência. O pessoal pensa que caminhoneiro ganha bem. A gente não ganha bem, a gente trabalha bem”.

Para ele, o maior problema da profissão é o grande tempo fora de casa. Fazendo a rota São Paulo/Rondônia, chega a ficar longe da família 20 dias. “A única coisa de bom que aconteceu é a nova lei, mas precisa ser implantada totalmente e com a infraestrutura que não existe”, afirma Silva.

Adenir Freitas também tem algumas reclamações. “O valor do frete piorou muito. Sobe diesel, sobe pedágio e o frete não sobe”, diz ele. “E para piorar, ainda existe o frete retorno que é uma maneira dos clientes tirarem mais dinheiro da gente. Se de São Paulo para Bahia eles pagam R$ 100,00, por que da Bahia para São Paulo querem pagar R$ 50,00, por exemplo?”

Desgostoso com a profissão, Sebastião Ribeiro diz que ser caminhoneiro é sofrer uma escravidão legalizada, afirmando que nenhuma outra categoria trabalha 24 horas sem receber hora extra. “A questão não é pagar as contas, a questão é se programar. Não dá para fazer um planejamento em cima de 24 horas. Sou ser humano, eu não aguento”, reclama Ribeiro. “O autônomo é pior do que o empregado, porque ele faz o que o cliente manda ou perde o cliente. Tem muito caminhão esperando uma vaga. Se tivesse que começar hoje na profissão, eu não seria caminhoneiro”.

Ele afirma que o pior problema é a falta de respeito. “Você chega nas empresas, os caras te encostam no pátio e deixam você lá por uma porção de tempo”.

Marcos Gonçalves afirma gostar de trabalhar com o caminhão, mas acha muito ruim ficar muito tempo fora de casa. “Mesmo assim, não levaria minha esposa comigo no caminhão”, afirma. “Isso é um trabalho meu. Deus me livre de acontecer alguma coisa na estrada. Comigo tudo bem, é da profissão, mas com ela não tem nada a ver. Essa profissão é dura para homens, quanto mais para esposas e crianças. Deixa isso para mim, é meu serviço. Deixa eu sofrer sozinho para levar o pão para casa.”

Lei do Descanso

Todos os motoristas acham muito boa a “Lei do Descanso”, mas cobram melhor infraestrutura. Por exemplo, locais para que os caminhoneiros possam parar com segurança, restaurante e banheiros que possibilitem fazer as necessidades e tomar banho com tranquilidade.

Sérgio Silva aproveita muito bem o horário de descanso. “Eu ando com chuteira, vara de pescar, notebook”, diz ele. “Mas quem gosta de tomar uma, vai parar em um boteco e encher a cara. No dia seguinte vai fazer bobagem. A empresa onde trabalho segue a regra e todo mundo para certinho”.

Celso Alves tenta obedecer os horários, mas depende da carga. “Se eu tenho que entrar em São Paulo, tenho que sair às duas da manhã do interior”, explica. “Venho do nordeste, parei à noite, mexi na cozinha, fui dormir por volta das 10 horas. Tenho que acordar as duas e quebro a ‘Lei do Descanso'”.

Marcos Gonçalves vem cumprindo as normas da lei há quatro meses. “Dirijo quatro horas e paro para descansar meia hora. Eu acho que 11 horas de descanso é ideal”, afirma ele. “E o meu caminhão só pode rodar até às 22 horas. Depois fica bloqueado”.

A paixão pela profissão é maior do que os problemas que todos eles enfrentam dia a dia. Mas cada um, à sua maneira, gostaria de pedir algo para a presidenta Dilma. Proprietário de um Mercedes-Benz 1513, ano 1981, Adenir Freitas pediria maior facilidade para aquisição de um caminhão novo. “Já que ela quer tirar os caminhões velhos das estradas, por que não faz um plano para quem tem caminhão com mais de 20 anos?”

Celso Alves afirma que a profissão de caminhoneiro é a maior do Brasil e é ela que está levando esse País para frente. “Eu pediria para a presidente Dilma que ela, ou uma pessoa de sua confiança, andasse pelas estradas para ver como estão, e não apenas de avião”, diz. “De avião tudo é lindo, não se vê os problemas. Ela teria que mandar alguém andar mais pelas estradas e não por cima”.

No meio de tantas reivindicações, Douglas Silva pediria para a presidenta Dilma, algo que deveria ser natural: respeito. “Você chega em uma empresa não tem lugar para comer, não tem lugar para tomar banho, fica jogado na rua sujeito a ser assaltado”, reclama Silva. “Eles acham que caminhoneiro tem que ser tratado como lixo. E a gente não tem outro jeito senão ficar na rua esperando e que Deus nos proteja. Se a Dilma arrumasse mais pontos de paradas nas estradas, com segurança e infraestrutura, seria muito bom para todos”.

Sebastião Ribeiro teria muitas reivindicações para a presidenta, mas resume em um aumento do valor do frete. Marcos Gonçalves pede que as estradas do Mato Grosso sejam melhoradas para que os caminhões possam passar sem perigo de quebrar, ou de serem assaltados por rodarem em baixa velocidade.

E para finalizar os pedidos, Sérgio Silva quer que a presidenta Dilma flexibilize a Lei do Descanso. “Os caminhoneiros são fortes, homens de fibra. Com oito horas de descanso tocamos muito bem”, garante Silva. “Se liberarem o horário das 6 às 22 horas, não haverá acidente e todos ficarão felizes”.

Fonte: Revista Caminhoneiro

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