Solidão na Boleia

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Música para espantar a solidão. Essa é a alternativa de Antonio Carlos que há 20 anos viaja pelas precárias estradas brasileiras. Sem uma rota definida, a cada mês ele está em uma estrada diferente. Casado e com dois filhos, Carlos conta que uma das maiores dificuldades dessa vida foi perder o nascimento do filho mais novo, que acaba de completar dois meses. “Eu estava no Amapá quando meu filho nasceu e infelizmente não consegui voltar”, resmunga o caminhoneiro.

Contratado por uma empresa que faz produção têxtil, Carlos chega a ficar 20 dias fora de casa e para espantar a tristeza e diminuir a saudade do lar, ele carrega em sua boleia muitas fotos e músicas de seus artistas preferidos, como as duplas Bruno e Marrone, César Menotti e Fabiano, entre outros.

Se por um lado ele não tem a oportunidade de acompanhar o crescimento dos filhos, ver os primeiros passos do mais novo, em contrapartida, Carlos, acredita que a profissão já trouxe momentos inesquecíveis para sua vida. “Adoro a liberdade de viajar. Não troco minha profissão por nenhuma outra”.

Experiência de vida

Alberto José Rego considera que a experiência de vida que ganhou durante mais de 10 anos que trabalha com o transporte de cargas é uma das coisas mais valiosas conquistadas durante todo esse tempo. Mas não é um preço fácil de se pagar, já que ele tem a necessidade de ficar longe de casa e da família.

Depois de trabalhar dez anos como caminhoneiro autônomo, Rego vendeu o caminhão e abriu um pequeno negócio no litoral paulista. Como essa iniciativa não deu certo, ele acabou voltando para a boleia do caminhão, dessa vez como contratado por uma empresa. Sua rotina diária é sair cerca de seis horas da manhã de casa, sem hora para voltar.

O mais difícil é ficar longe da esposa, e sua filha de apenas três anos. “A família tem que acostumar. Mas quando chego em casa saio abraçando minha filha e matando a saudade que é sempre muito grande. Essa vida que levo nunca sei se voltarei para casa”, afirma Rego.

Para matar a saudade, muitas fotos da família. Além disso, Rego sempre se comunica via telefone, principalmente quando sabe que não voltará tão cedo. Apesar de perder os momentos diários e importantes da sua família, Rego considera que ganhou muita experiência com esses anos de estrada. “Já conheci muitos lugares diferentes, que certamente não teria tido a oportunidade de visitar se não fosse caminhoneiro. É uma experiência para a vida toda”.

Rego considera que ser motorista de caminhão não é tarefa fácil, pois as dificuldades encontradas, a saudade de casa, a solidão na boleia, tudo isso faz do profissional um guerreiro. “Vida de caminhoneiro é muito complicada, tem que ter muita força de vontade, senão você não consegue enfrentar todos os desafios que aparecem no dia-a-dia”.

Companhia na boleia

Geraldo Xavier encontrou uma ótima solução para diminuir a solidão na boleia e acabar com a saudade de casa: sua companheira viaja com ele sempre que possível.

Com filhos crescidos e sem preocupação, Xavier consegue viajar mais tranqüilo. Com 16 anos de profissão, seus filhos já eram nascidos quando começou a vida na estrada, e cresceram na boleia. Hoje, cada um segue seu caminho.

Para Xavier, a saudade maior é dos netos. Ele conta que a cada encontro é possível perceber o tempo que ficou longe de casa, já que os netos crescem muito rápido. “Meus filhos já estão casados e agora tenho netos. O coração fica apertado por estar longe, mas preciso trabalhar”, afirma o caminhoneiro.

Como enfrentar a solidão

Segundo a psicóloga Dra. Anabelle Dorico, a solidão é a vontade, o desejo, a saudade de estar junto com as pessoas amadas. “Somos seres sociais e vivemos em grupos. Quando temos relacionamentos (amorosos, afetivos, profissionais), damos um valor para aquilo. E quando se leva uma vida solitária, como a do caminhoneiro, onde são obrigados a ficar longo tempo longe de casa, ele sofre de solidão”.

Segundo a Dra. Anabelle a solidão não é algo genético, mas para algumas pessoas conviver em sociedade, grupos é mais difícil do que para outras. “Tem pessoas que são solitárias, não querem se casar. Mas, geralmente, tem todo um histórico de vida por trás disso”.

“No caso do caminhoneiro, pode ser que ele tenha escolhido essa vida solitária justamente por não gostar de se relacionar com a família, já que essa vida dá mais liberdade e espaço para ter menos compromisso e responsabilidade”.

Ajuda da família é fundamental

Em qualquer tipo de problema psicológico, a ajuda da família é fundamental. Segundo a psicóloga, as pessoas tendem a se sentir mais a vontade em casa, por isso, a união da família e preocupação com cada membro ajuda muito, já que o ambiente familiar é favorável a mudança.

Não existe cura para a solidão, o que pode acontecer é o indivíduo melhorar seu relacionamento com as pessoas, na medida em que se proponha a resolver o problema. O primeiro passo tem que partir da própria pessoa perceber a dificuldade, e procurar resolvê-la, seja com a ajuda de psicólogo ou não.

Fonte: Editora Na Boleia




Um comentário em “Solidão na Boleia

  • 18/01/2014 em 23:22
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    Acho que cada profissão escolhida por nós tem um preço a pagar! O preço que o caminhoneiro paga é a saudade da família, solidão, destratado em alguns lugares, enfim. Porém tem o lado prazeroso, que é viajar, conhecer lugares e pessoas diferentes, a sensação de liberdade que não há igual. Quem trabalha como caminhoneiro sabe que tem que ter dom e amar o que faz. Os melhores caminhoneiros não escolhem essa profissão somente, na verdade, já nascem caminhoneiros.
    Dou graças a Deus pela minha profissão, quero ser caminhoneiro até o último dia da minha vida. Abraço á todos os irmãos ai da estrada. Fiquem com Deus.

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