Negócio da China

por Blog do Caminhoneiro

mi_10303217746748544Em 1997, o governo da China tinha uma meta traçada: transformar a Usina de Três Gargantas na maior hidrelétrica do mundo, ultrapassando a Usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai. Para isso, as autoridades chinesas precisavam de tecnologia e financiamento – parecem coisas triviais, mas, à época, a China não era uma potência econômica com US$ 2 trilhões em reservas. Naquela ocasião, o Brasil teve um papel fundamental ao financiar oito turbinas através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que era comandado pelo engenheiro e economista Luiz Carlos Mendonça de Barros.

Como tinha muita curiosidade sobre as transformações que estavam ocorrendo na China, Mendonça de Barros fez questão de ir pessoalmente a Pequim assinar o contrato. “Serviram um banquete com 35 pratos na Grande Casa do Povo, que fica na Praça da Paz Celestial”, diz. Outros bancos internacionais também participaram da operação, mas o BNDES foi o único que enviou seu presidente ao encontro. “Isso fez toda a diferença no protocolo chinês, e me convidaram para proferir uma palestra durante o almoço”, diz Mendonção, como é conhecido no meio político e empresarial. O que ele não imaginava é que aquela viagem lhe renderia, 13 anos depois, um verdadeiro negócio da China.

Mendonça de Barros deixou o BNDES em abril de 2008 para assumir o Ministério das Comunicações. Após desligar-se do governo, no fim daquele ano, passou a se dedicar ao mercado financeiro, onde ganhou muito dinheiro. Em novembro de 2009, foi surpreendido por um telefonema do Consulado Chinês, que pedia a sua ajuda para recepcionar uma delegação de dez pessoas da Beiqi Foton, a maior fabricante de caminhões do mundo, com 650 mil unidades por ano. “Falaram que a conversa seria sobre o mercado automotivo brasileiro”, diz o economista. Para colher informações de um setor sobre o qual não se debruçava, ele recorreu aos serviços da MB Associados, consultoria do seu irmão, José Roberto Mendonça de Barros.

Na reunião, os executivos da montadora chinesa informaram que tinham planos de instalar fábricas na Rússia, na Índia e no Brasil. “O que eu tenho a ver com isso?”, perguntou Mendonça de Barros aos chineses. “O sr. foi escolhido para ser o nosso sócio”, respondeu um dos integrantes da delegação, em tom de convocação. “O sr. é amigo da China.” Mendonção não sabia que, em 1997, quando acertou as bases do negócio com o governo chinês, seu nome foi inserido num seleto grupo intitulado “Os Amigos da China no Exterior”, livro que o Partido Comunista mantém a sete chaves. “Até o cartão de visitas do BNDES foi guardado”, diz Orlando Merluzzi, vice-presidente do Conselho Gestor da Foton Aumark do Brasil.

A escolha de seu nome pelos chineses, uma década depois da viagem representando o BNDES, foi a primeira de uma série de lições aprendidas por Mendonça de Barros sobre como fazer negócios com os orientais. “A confiança se conquista aos poucos”, diz ele, que retornou a Pequim em 2011 para assinar o contrato com o presidente mundial da Beiqi Foton, Wang Jinyu – não sem antes jantar num restaurante “chiquérrimo”, nas suas palavras. Mendonção conta que ficou muito bem impressionado com os componentes utilizados pelos chineses – motor Cummins, caixa de câmbio ZF e eixo Dana, além do projeto elaborado pela Lotus.

Durante as conversas, travadas em português e mandarim, com o auxílio de tradutores, não foi fácil explicar para a direção da Beiqi Foton que o Brasil possui uma linha especial de financiamentos, o Finame, do BNDES, que viabiliza 80% do mercado de caminhões. Sem ela, o jogo fica difícil. Para os veículos importados, a única porta de entrada é o veículo leve de até 3,5 toneladas, que não tem direito ao Finame. Além disso, os grandes players do setor já estão no Brasil há muitos anos, o que torna ainda mais desafiadora a vinda de um novo concorrente. A Beiqi Foton, que faz parte da holding Baic Motor, controlada pelo Partido Comunista de Pequim, começou a operar no Brasil como importadora de veículos leves no segundo semestre de 2011, quando o câmbio valorizado jogava a seu favor.

Além disso, a demanda estava aquecida graças às restrições impostas à circulação de caminhões em grandes cidades do País. Em novembro de 2011, no entanto, o governo federal surpreendeu o mercado ao elevar em 30 pontos o IPI para os veículos importados. “Os chineses ficaram muito surpresos com as mudanças nas regras do jogo”, afirma Mendonça de Barros. No ano seguinte, foram anunciadas as condições do Inovar-Auto, o regime automotivo que estabelece uma cota de importações sem o IPI para as montadoras que investirem em fábricas no País.

Sem alternativa diante do aumento inesperado da carga tributária, a solução para viabilizar a operação da Foton seria a construção de uma unidade fabril no Brasil. Nesse ponto, houve um impasse, pois os chineses ainda não estavam convencidos de que o investimento seria rentável. Mendonça de Barros não teve dúvidas: foi a Pequim e disse que buscaria o dinheiro para viabilizar o projeto industrial. Com investimentos de R$ 250 milhões, metade financiada pelo BNDES e metade do bolso dele, a fábrica começará a ser construída no próximo dia 24 em Guaíba, no Rio Grande do Sul, no mesmo terreno que seria da Ford, quando a montadora resolveu ir para a Bahia, em 2001.

Orlando Merluzzi, vice-presidente da Foton, tem a meta de conquistar 5% do mercado em oito anos

Orlando Merluzzi, vice-presidente da Foton, tem a meta
de conquistar 5% do mercado em oito anos

A meta é conquistar 5% do mercado em oito anos, atingindo uma venda anual de 12 mil caminhões, entre modelos de 3,5 toneladas a 14 toneladas. Como qualquer investimento tem risco, o contrato foi feito sob as leis da Suíça – os brasileiros não queriam se submeter à justiça chinesa e vice-versa. O acordo prevê que a Foton tem o direito de comprar a operação total no Brasil, desde que negocie com os sócios. “É o que vai acontecer em algum momento”, diz o economista, que aos 71 anos, se diz cansado do mercado financeiro. “A China é um desafio profissional para mim.”

Conselho de velhinhos

Na função de sócio-investidor e presidente da Foton Aumark do Brasil, Mendonção atraiu profissionais experientes para a empreitada. “Peguei alguns aposentados e fiz o meu conselho dos velhinhos”, brinca o economista. Orlando Merluzzi (ex-Volvo e Iveco), Antonio Dadalti (ex-Volkswagen Caminhões), Eustaquio Sirolli (ex-Mercedez-Benz), Luiz Carlos Paraguassu (ex-Volkswagen) e Bernardo Hamacek (ex-Iveco), o mais jovem da turma, compõem o conselho da empresa, que emprega 60 funcionários.

No mês passado, um grupo de 15 executivos da Beiqi Foton veio ao Brasil inspecionar as instalações e os fornecedores, no Rio Grande do Sul. “Eles ficaram admirados com a tecnologia da indústria automotiva brasileira”, diz Sirolli. Adequando-se à legislação trabalhista brasileira, a ideia é replicar a linha de montagem chinesa, que tem 28 etapas e produz um caminhão a cada 1,5 minuto. “Se alguma coisa der errado, a responsabilidade é 100% nossa”, diz Mendonça, ressaltando que os chineses deram carta branca a ele. Quanto ao futuro, o economista já está conversando com a Beiqi Foton para um novo projeto de caminhões extra-pesados no Brasil. “É um segmento ainda mais rentável.”

Como os gaúchos venceram os cariocas

Com a permissão dada pelos chineses para instalar uma fábrica de caminhões da Foton no Brasil, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros procurou quatro governos estaduais: São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. “São Paulo, como diz a minha neta, se acha demais”, diz Mendonção, referindo-se ao descaso do governo paulista em relação ao seu projeto. No Espírito Santo, as conversas também não evoluíram. Num primeiro momento, o governo fluminense saiu na frente e chegou a oferecer um terreno na região de Resende e Itatiaia, onde já há um polo automotivo com fornecedores que abriga fábricas da Volks, Nissan e Peugeot-Citroën, entre outras.

Até uma coletiva de imprensa foi realizada para anunciar os investimentos. “Mas um problema ambiental grave no terreno inviabilizou tudo”, diz Orlando Merluzzi, vice-presidente do Conselho Gestor da Foton Aumark do Brasil. No Rio Grande do Sul, foi oferecido o terreno do município de Guaíba que seria utilizado pela Ford em 2001, quando a montadora decidiu ir para a Bahia. Mendonça de Barros resolveu apostar no lugar. “Há várias obras de infraestrutura feitas na região”, diz ele, que reconhece que o Sul do País não era a melhor opção logística para o mercado interno. Porém, com a decisão da Beiqi Foton de atender o Mercosul a partir do Brasil, a localização passou a ser estratégica.

“O Porto de Rio Grande é pequeno, mas muito mais organizado que os outros”, diz Ricardo Mendonça de Barros, diretor comercial e de desenvolvimento de rede. O governo gaúcho mobilizou os deputados estaduais e aprovou, por unanimidade, um projeto de lei que permite um aporte de R$ 40 milhões no empreendimento, tornando-se sócio. “O Estado vai ganhar dinheiro com a arrecadação de impostos e com o negócio em si”, diz Mendonça de Barros, ressaltando que o governo gaúcho tem opção de saída. Com a chegada da Foton, há a expectativa de que outros negócios sejam atraídos para a região, principalmente de fornecedores chineses.

Fonte: IstoÉ Dinheiro

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