Pontos de parada

por Blog do Caminhoneiro

Estacionamento de caminhõesAo final de cada dia, o estradeiro começa a ficar aflito, preocupado em encontrar um ponto de parada onde possa estacionar o caminhão e passar a noite com segurança, numa disputa acirrada com outros colegas que precisam cumprir a Lei do Motorista, ou mesmo os que querem apenas descansar. A cena é comum, nos finais de tarde os estacionamentos nos postos de combustíveis ficam lotados e, claro, com a preferência de uma vaga para quem abastece no local ou é “freguês” antigo. Muitas vezes, os carreteiros aproveitam pequenos espaços à margem das estradas, em frente a bares, restaurantes ou qualquer lugar onde possa existir pelo menos uma boa iluminação e uma aparente segurança. Ainda assim “dormem com um olho aberto, sempre atentos ao menor ruído ou movimento suspeito próximo ao caminhão”.

Com décadas de atraso, as rodovias não oferecem pontos de paradas e nem atendem o número de caminhões em atividade, lembra Cláudio Veronese

Com décadas de atraso, as rodovias não oferecem pontos de paradas e nem atendem o número de caminhões em atividade, lembra Cláudio Veronese

Mesmo seguindo um roteiro de viagem definido com antecedência, prevendo todos os pontos de parada para abastecimento, refeições e pernoite, o carreteiro Cláudio Veronese, o China, 45 anos de idade, 22 de profissão, natural de Garibaldi/RS, e trabalhando como empregado ao volante de um bitrem graneleiro, considera complicado o assunto das paradas e estacionamentos. Ele explica que procura seguir uma rotina de horários de direção e de paradas para descanso, inclusive de horas de sono. Lembra que as rodovias continuam as mesmas de 20 anos atrás, enquanto o número de caminhões e de veículos leves mais do que quadriplicou nesse período, sem que houvesse qualquer preocupação com a infraestrutura, a começar pelos pontos de paradas, hoje tão discutidos por causa da Lei do Motorista.

Para Dilson Benetti, a maioria dos motoristas não está cumprindo a Lei do Descanso, mesmo assim há muitos caminhões nos pátios de postos

Para Dilson Benetti, a maioria dos motoristas não está cumprindo a Lei do Descanso, mesmo assim há muitos caminhões nos pátios de postos

China lembra que apesar do planejamento da viagem e das paradas, sempre podem surgir imprevistos na viagem. Por isso, os horários são mais flexíveis, mantendo um ritmo próprio de trabalho. Ele começa às 5h00 da manhã e roda até às 7h00 quando, quando faz uma parada para tomar café. Depois toca direto até a hora do almoço, por volta das 12h30. Se estiver folgado na questão de tempo, ele mesmo prepara a refeição, ou se sujeita a almoçar num restaurante onde tem de pagar por um alimento geralmente ruim e caro. Após uns 40 minutos de descanso volta a seguir viagem até às 18h00, hora de mais um descanso, de tomar chimarrão, jantar e dar uma “geral” no caminhão. Costuma tocar mais um pouco, até às 23h, momento de estacionar o bruto de dormir, de preferência num lugar seguro e conhecido. Isso não significa que não faça outras paradas, sempre que necessário, ou no caso de sentir cansaço. Destaca que o patrão é tranquilo e não interfere nos seus hábitos de dirigir.

Se parar mais cedo para garantir vaga no estacionamento é prejuízo certo. Hoje não há condições de trabalhar dentro dos limites, comenta Nélin Quevedo

Se parar mais cedo para garantir vaga no estacionamento é prejuízo certo. Hoje não há condições de trabalhar dentro dos limites, comenta Nélin Quevedo

Para o carreteiro Dilson Luiz Benetti, o Ponta de faca, apelido que ganhou depois de ter sido assaltado no Paraná e sofrido diversos golpes de faca – e escapado com vida por milagre-, a situação no trecho é mais confortável. Natural de Sananduva/RS, com 49 anos de idade, 25 de estrada, ele evita percursos mais longos e prefere viajar mais na região. Com isso, tudo é planejado, o que não impede de muitas vezes ficar alguns dias parado nos postos de serviço esperando vaga para carregar ou descarregar. Mas, quase sempre para em lugares conhecidos, sem grandes problemas, a não ser o custo do estacionamento, dos banhos e da alimentação, que se não levar tudo muito bem controlado, “quebra financeiramente”, garante. Também se queixa do excesso de caminhões nos pátios dos postos durante a noite por causa da lei, embora acredite que a maioria não está cumprindo essas determinações, “afinal, ninguém fiscaliza”.

Vanderlei Piccoli diz que costuma ficar estacionado em postos de combustível e não se preocupa com as despesas, as quais são por conta do patrão

Vanderlei Piccoli diz que costuma ficar estacionado em postos de combustível e não se preocupa com as despesas, as quais são por conta do patrão

Na opinião do motorista Nélin Quevedo, o Nélinho, 34 anos de idade e 13 de volante, “não tem jeito de trabalhar dentro dos limites da Lei do Motorista. Não tem como sobreviver”. Natural de Barracão/PR e dirigindo uma carreta pelas estradas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Bahia, ele também reclama da falta de vaga nos estacionamentos dos postos, os quais, dependendo do horário, ficam lotados. Além disso, tudo custa muito caro: o estacionamento, o uso dos banheiros e a alimentação. Então, segundo ele, é preciso seguir viagem, mas sempre dentro dos limites de segurança, parando sempre que for preciso ou sentir sono. “Se parar cedo para garantir a vaga no estacionamento é prejuízo certo”, afirma. Por enquanto, vai tocando, fazendo os seus próprios horários e economizando ao máximo para as contas fecharem no final do mês, afirma.

Apesar de planejar as viagens e paradas, Fernando Justen afirma que por falta de vagas nos postos de combustível já e estacionou o caminhão na beira da estrada

Apesar de planejar as viagens e paradas, Fernando Justen afirma que por falta de vagas nos postos de combustível já e estacionou o caminhão na beira da estrada

Há 18 anos na profissão, o gaúcho de Putinga, Vanderlei José Piccoli, 43 anos de idade, trabalha com um bitrem graneleiro, nos Estados do Mato Grosso, Goiás e Rio Grande do Sul transportando grãos para os portos de Santos, Paranaguá e Rio Grande. Quando falou com a reportagem da Revista O Carreteiro, estava aproveitando a passagem perto de sua casa para matar as saudades do filho Vicente, de quatro anos, e também levar junto a família a Porto Alegre. Ele comenta que neste ano está dando menos problemas de espera no descarregamento por causa dos agendamentos. Mas acrescenta que mesmo assim algumas vezes precisa esperar por três ou quatro dias para descarregar em razão de algum imprevisto nas operações do porto. Costuma ficar nos postos de combustíveis à espera, porém não se preocupa pois todas as despesas correm por conta do patrão, inclusive com um adicional previsto na Lei do Motorista. “O único inconveniente é ficar parado, sem nada para fazer, a não ser cuidar do caminhão”, lamenta.

Na opinião de Cléber Radaelli o ideal seria se houvessem lugares adequados, com serviços de qualidade e preços justos, em pontos estratégicos das rodovias

Na opinião de Cléber Radaelli o ideal seria se houvessem lugares adequados, com serviços de qualidade e preços justos, em pontos estratégicos das rodovias

Conhecido no trecho como Chinelinho, o catarinense Fernando Justen, de Guarujá do Sul, tem 27 anos de idade, sete de profissão e roda pelas estradas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul. Segundo ele, todas as viagens são planejadas na hora em que carrega e costuma parar a cada quatro horas por cerca de 30 minutos para dar uma esticada nas pernas e bater os pneus. Diz que devido ao problema de falta de vagas nos postos de combustíveis para estacionar durante a noite, costuma parar mais cedo e garantir um lugar. Ou, como já aconteceu muitas vezes, precisa se arriscar e estacionar o caminhão à beira da estrada, em locais aparentemente mais seguros. “O que não dá é dirigir cansado ou com sono”, afirma. Assim como muita gente tem feito, Chinelinho critica o governo por instituir a Lei do Motorista sem que existam lugares ou infraestrutura adequada para os pernoites dos estradeiros, além dos inevitáveis prejuízos financeiros para quem queira cumprir a Lei, devido, principalmente aos altos custos de manutenção do caminhão e dos fretes baixos decorrentes do excesso de caminhões nas estradas.

O carreteiro Cléber Júnior Radaelli, 37 anos de idade e 11 anos de profissão, natural de Anta Gorda/RS, lembra que um dos grandes problemas do transporte rodoviário de cargas no Brasil é a falta de infraestrutura adequada, em termos de estradas e de pontos de apoio. Ele trabalha com uma carreta agregada à Valelog (Cooperativa de Transportes do Vale do Taquari Ltda.), de Arroio do Meio/RS e viaja para as regiões Centro Oeste, Sudeste e Sul e costuma parar nos locais conveniados para abastecer o caminhão ou pernoitar. Porém, afirma já ter passado muitas noites no acostamento por falta de vagas nos postos. Segundo ele, faltam lugares adequados e em pontos estratégicos das rodovias e que cobrem um valor justo para os carreteiros, fornecendo serviço de qualidade. Reconhece que os donos dos postos têm todo o direito de cobrar pelo estacionamento e de dar preferência para os clientes mais assíduos. “Acontece é que não tem infraestrutura e o motorista precisa parar de vez em quando, mesmo que seja por apenas alguns minutos, e não pode ser no acostamento, pois ele precisa de um lugar seguro. Tudo está muito complicado”, conclui.

Fonte: Revista O Carreteiro – Edição 476 – Texto de Evilazio Oliveira

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Amira Cristina Buechem Simão 30/05/2018 - 09:46

Eu tenho um galpão que serve para estacionamento, fica numa avenida que faz esquina com a Rodovia Washington Luís em Duque de Caxias, próximo ao Arco Metropolitano. Estou pesquisando em fazer dormitórios simples para caminhoneiros. Gostaria de sugestões e de saber os valores que estão sendo cobrados. meu cel 21 98255-5060 quero ouvir opiniões dos interessados.

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alvaro motta 22/09/2016 - 13:48

tenho carga de paranagua pro PARA 21 98749 7672 zap Alvaro

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marcio 09/07/2014 - 23:04

essa lei o governo nao penso no motorista e sim na arrecadaçao o tansporte de longa distansia no brasil ta abandonado !!!!!!!!!!!!!!!

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JOSE Rovani kurz 09/07/2014 - 23:33

Excelente reflexão! É importante que o motorista seja esclarecido para que possa perceber a realidade da profissão e buscar a valorização profissional! Muita luz!

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Fábio 09/07/2014 - 15:49

A lei está correta. O que faltou foi investir em pontos de parada e melhoria nas estradas. Esse dinheiro foi investido em estádios, obras para a copa, corrupção, e outras obras inacabadas.
Os embarcadores e recebedores das cargas também devem se organizar (fazer jus a palavra logística) e também dar melhores condições aos motoristas que transitam pelas suas empresas.
Não mudem a lei, mudem de atitude!

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JOSE Rovani kurz 09/07/2014 - 23:32

Excelente reflexão! É importante que o motorista seja esclarecido para que possa perceber a realidade da profissão e buscar a valorização profissional! Muita luz!

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Kleber França 10/07/2014 - 12:13

Fabio, quem tem que investir em postos de parada é a iniciativa privada, o BNDES esta ai com variadas linhas de credito de longo prazo, o que falta é o empresariado investir, ampliar suas áreas de estacionamento. Quanto a lei, quem esta querendo mudanças é porque querem que fique como estava antes, uma quantidade enorme de profissionais trabalhando sob regime de escravidão. Tenho acompanhado toda esta polemica quanto a lei, só não vejo falarem em coibir o famigerado frete de retorno, acabem com o frete de retorno que a situação de todos muda para melhor, com ou sem lei. Falam do valor do frete baixo, mais se submetem a transportar pelo frete de retorno, este sim que esta destruindo a categoria dos autônomos.

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Gilson Alves de Faria 11/07/2014 - 10:10

Parabéns Kleber,sou estradeiro a 30 anos.Concordo plenamente com sua opinião,transportava madeira do Pará por quase todo tempo de estrada,nunca presenciei positividade em relação ao frete,e sim,motoristas brigando por 1 retorno mísero,por isso é q só quem se da bem nessa história do transporte é o sindicato.Ha 6 anos q parei de ir pro Pará,o m² da madeira,para Teresópolis,onde resido era 280,00,6 anos depois 300,00.Belo aumento.E não falta quem carregue.Abraços.

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Celestino G. Filho 09/07/2014 - 15:13

Realmente a lei precisa sofrer modificações para permitir um melhor uso do caminhão, que custa caro e precisa rodar o máximo para que possa se pagar e dar lucro ao proprietário. Não adiante as autoridades fazerem planos com o equipamento dos outros e o tempo dos outros. Como dizem os motoristas que há anos rodam pelo Brasil afora: “as estradas em sua maioria continuam as mesmas”.

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JOSE Rovani kurz 09/07/2014 - 23:32

Excelente reflexão! É importante que o motorista seja esclarecido para que possa perceber a realidade da profissão e buscar a valorização profissional! Muita luz!

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Kleber França 10/07/2014 - 12:20

Não tem que modificar a lei, essa lei foi um grande avanço na relação empresários, empregados, um paço para acabar com o trabalho escravo de uma categoria tão importante para o nosso país. Até agora não vejo ninguém falar em piso salarial, fim do frete de retorno, este sim que esta acabando com a categoria de autônomos. Celestino, você fala em mudança na lei, mais possivelmente seja um dos que se submeteem ao frete de retorno

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Anônimo 09/07/2014 - 13:45

e aí seus políticos, vamos escutar os motoristas? estes sim conhecem do transporte. Não adianta ficar de traz de uma mesa e redigir uma lei que é impraticável.Não quero que me entendam que eu queira que saia a lei, mas sim que ela seja ajustada.

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JOSE Rovani kurz 09/07/2014 - 23:31

Excelente reflexão! É importante que o motorista seja esclarecido para que possa perceber a realidade da profissão e buscar a valorização profissional! Muita luz!

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