Sem medo da tecnologia

As inovações tecnológicas incorporadas aos caminhões que estão sendo lançados no mercado brasileiro ainda precisam ser melhor assimiladas pela maioria dos carreteiros, principalmente os mais experientes, que alegam desinteresse, falta de tempo, de oportunidade ou timidez. Há também casos em que o patrão recebe o curso ou ensinamentos básicos sobre o funcionamento do veículo, na revenda, e não repassa ao motorista que, não querendo “passar recibo de inexperiente” vai para a estrada sem saber tirar o máximo do caminhão novo. No trecho, os estradeiros falam sobre as novas tecnologias embarcadas e o que pensam delas.

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A goiana Edna Patrícia Ribeiro tem 39 anos de idade, 10 de profissão e há pouco mais de dois meses ao volante de bitrem graneleiro. Viaja por todo o País, porém com maior frequência para os Estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Pará, além de todo o território de Goiás. Mesmo sendo uma apaixonada pela profissão, confessa que ainda sente alguma dificuldade no manejo do bitrem.

Quanto às novas tecnologias, não se assusta, garante que aprendeu rápido e não tem problemas no uso do rastreador, computador de bordo, itens eletrônicos do caminhão. Diz que domina bem o câmbio automatizado, mas admite não gostar , porque prefere as caixas mecânicas. E para as comunicações com a família, amigos ou com a empresa, o Whatsapp do celular é a ferramenta mais usada. Segundo ela, a relativa relutância que muitos estradeiros têm em relação às inovações tecnológicas dos caminhões modernos acontece, principalmente, devido ao baixo nível de escolaridade da maioria. “Grande parte tem dificuldades até mesmo para ler e escrever”, salienta. Vaidosa, Edna não desce da cabine sem antes passar batom e pentear os cabelos.

caminhoneiros (4)Para o carreteiro Lúcio Tormes Moiano, 28 anos de idade e oito de estrada, natural de Mata/RS, não é difícil aprender as novas tecnologias. Em sua opinião, depende de cada um. Conta que lhe entregaram um caminhão com caixa de câmbio automatizada, e lhe disseram para tocar, após poucas informações. Ele diz ter aprendido “meio na marra, mas aprendeu”. Já fez alguns cursos rápidos e o restante vai pegando na prática ou perguntando para os colegas. “Se não se interessar em aprender para evoluir profissionalmente, a gente fica pra trás”, resume. Moiano roda entre Rio Grande do Sul, Mato Grosso, São Paulo e Bahia ou “para onde o frete estiver bom”, conforme diz.

caminhoneiros (5)O estradeiro Alípio Lopes da Silva é natural de Carazinho/RS, tem 50 anos de idade e 21 de profissão. Viaja com uma carreta para onde tiver carga e acredita que de uma maneira geral todos os motoristas mais antigos tenham alguma dificuldade em entender as novidades tecnológicas dos caminhões modernos. “O camarada tem 30 anos de estrada e acha que já sabe tudo, que dirige qualquer caminhão, mas a coisa não é bem assim. É preciso ter humildade, aprender mais”, opina.

Segundo ele, o aperfeiçoamento do motorista deveria ser algo de maior interesse das próprias concessionárias nesse tipo de treinamento, de ensinar ao motorista a melhor maneira de dirigir os novos caminhões, principalmente os mais novos que estão saindo com caixa de câmbio automatizada. Também destaca a absoluta falta de tempo para o motorista fazer esses tipos de cursos. “Não dá tempo nem para ir ao médico, ao dentista ou mesmo votar. Sempre em trânsito, e como não vota, é esquecido pelos políticos. Igual a presidiário”, desabafa.

caminhoneiros (6)Natural de Manoel Viana/RS, o carreteiro João Auger Caetano, 55 anos de idade e 30 anos de estrada, garante que não tem medo das novas tecnologias e está sempre interessado em aprender mais. Ao volante de um pesado com caixa de câmbio semiautomática, e equipado com tudo o que tem direito em termos de inovações, garante que não se aperta por pouca coisa.

“O rastreador é de última geração, com câmera de vídeo que mostra na empresa tudo o que acontece na cabine, travando caminhão caso qualquer coisa estranha aconteça, até mesmo se a porta do lado do passageiro for aberta”, explica. Sempre que possível ele faz cursos e aproveita todas as possibilidades que surgem para o seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, afirma enfático.

Diz que costumava viajar com um notebook para guardar fotos e se comunicar com a família e amigos, usando conexão wi-fi disponibilizada na maioria dos postos de combustível. Porém, por medo de ladrões não o tem levado mais nas viagens.

caminhoneiros (2)Transportando grãos do Paraguai-Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, o carreteiro paraguaio Lúcio Riveros, natural de Ciudad del Leste, tem 43 anos de idade, 21 de profissão e 10 anos no transporte internacional, confessa que nunca se interessou por informática, computadores ou inovações tecnológicas dos caminhões. Diz que já fez alguns cursos de aperfeiçoamento, inclusive sobre câmbio automatizado, mas não gosta muito. Se for preciso, sabe utilizar. E também está pronto para aprender mais sobre a profissão pois não quer ficar pra trás.

caminhoneiros (1)Aposentado desde 2008, Adão Pasqual de Lima, natural de Frederico Westphalen/RS, tem 59 anos de idade, 40 de profissão, pensa em viajar mais um ano e parar. Dono de uma carreta – com cavalo-mecânico ano 1999 – ele transporta grãos e adubos e não tem rastreador, não conhece nada sobre computadores e só utiliza o celular nas suas comunicações. Afirma não ter tempo e nem interesse em aprender essas novidades. Conforme reconhece, afinal ele tem um caminhão antigo e vai abandonar a profissão.

Na opinião de Paulo Mello, 59 anos e há 18 anos atuando como empresário no setor de automação comercial e informática, em Uruguaiana/RS – a partir dos últimos quatro ou cinco anos, com a intensificação do uso das redes sociais as pessoas com mais idade estão se interessando em novas tecnologias por necessidade ou por vaidade.

De acordo com ele, elas ficam constrangidas por verem netos, amigos e familiares usando o Facebook, por exemplo, e admitirem que não participam desses grupos. Ou, então, nos casos de necessidades profissionais, como acontece com motoristas de caminhão que precisam aprender ou correm o risco de perderem o emprego. “Afinal, a evolução tecnológica é abrangente, atinge a todos e todos precisam se aperfeiçoar, acompanhar a evolução. É um caminho sem volta”, afirma.

O líder de oficina da Dipesul Veículos Ltda., em Uruguaiana/RS – concessionária Volvo – Leonardo Machado de Abreu, 34 anos e 15 de profissão, é o encarregado de identificar os defeitos nos caminhões e orientar os mecânicos em relação aos consertos. E, também, de mostrar a transportadores e motoristas as novidades tecnológicas incorporadas aos novos caminhões que estão entrando no mercado. Ele lembra que no início eram realizados encontros para a apresentação dos novos produtos. Agora, no entanto, essas apresentações são feitas quase sempre para um comprador isolado, para o patrão, que nem sempre repassa os ensinamentos ao motorista que vai trabalhar com o veículo.

“E o motorista, por vergonha ou timidez, acaba não perguntando e vai para a estrada sem saber como tirar o máximo proveito do caminhão. Problemas de consumo, por exemplo, são questões operacionais”, explica. Leonardo Machado lembra de um caso curioso, em que foi chamado à noite para ensinar um motorista e engatar a ré num caminhão com câmbio automatizado.

Segundo ele, mais da metade dos motoristas pegam o volante de um caminhão novo sem saber direito como conduzi-lo com economia e segurança e outros itens mínimos. “Trata-se de uma tarefa que cabe ao comprador e à revenda providenciarem treinamento adequado aos profissionais, mesmo sendo necessário usar diplomacia com os motoristas mais antigos e experientes, “que já sabem tudo”, mas que ao final acabam aceitando as novidades.

Fonte: Revista O Carreteiro Edição 477  Texto de Evilazio Oliveira e Fotos  de Claiton Dornelles