As damas da cidade de contêineres

O Porto de Paranaguá movimenta 750 mil contêineres por ano. Do alto, a área de 320 mil metros quadrados lembra uma minicidade insólita e cosmopolita. Empilhados à espera do embarque, esses grandes cofres de metal vindos de 25 países parecem edifícios ordenados entre ruas por onde veículos incomuns trafegam levando-os de um lado para outro. O ritmo é acelerado. A cada hora, 85 deles sobem ou descem de um navio. Manejar esse conjunto carga-máquina, que chega fácil a 100 toneladas, requer antes jeito do que força. E nesse ponto se nota uma mudança em curso.

Há sete anos o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), empresa privada que tem concessão para operar mercadorias em contêineres, contratou a primeira mulher para o cargo de operadora de empilhadeira de grande porte. Seria arriscado, alguém poderia dizer. Mas não foi. Elas revelaram-se tão ou mais eficientes que os homens, os donos do ambiente portuário. O TCP criou então um programa para a contratação de mulheres, inclusive para cargos de liderança. Hoje, a gerente de manutenção é mulher e ocupa com competência um cargo destinado aos homens. Não só ela.

Destaques

Atualmente, 170 dos 795 funcionários do TCP são mulheres, destaques tanto nos cargos administrativos quanto nas áreas multifuncionais. Nesta cidade de contêineres, um terço dos empregados se dedica a operar máquinas pesadas. Desses, 16 são mulheres. “As colaboradoras têm apresentado um histórico muito positivo em capacidade de execução, são naturalmente cuidadosas e orientadas para resultados, competências essenciais para o trabalho e a segurança”, sintetiza o TCP. Vera Lúcia Silva Kutianski, de 51 anos, e Soraia Silva dos Santos, 44 anos, são duas dessas apostas bem-sucedidas.

Vera se lembra do dia em que, há 2 anos e 8 meses, foram à sua casa avisar que o TCP contrataria mulheres para dirigir caminhões. Era um desafio, sem dúvidas, mas julgava-se preparada. Dez anos como instrutora de autoescola, a maior parte na boleia de um ônibus, a credenciavam para uma vaga. Foi tudo muito rápido. Ela mandou o currículo na quarta-feira, fez o teste de direção na quinta e na segunda-feira já pediram seus documentos para a contratação.

Houve um estranhamento entre os filhos, hoje com 23 e 28 anos, nem tanto pelo tipo de veículo que ela iria dirigir, mas pelo ambiente e o horário de trabalho. O terminal só interrompe as atividades duas vezes no ano: 12 horas de intervalo no Natal e 12 horas no ano-novo. Assim, a escala muitas vezes a coloca no plantão da madrugada. A mãe se saiu bem. E agora quer subir ainda mais, literalmente. Vera foi selecionada para o curso do transtainer, equipamento em forma de pórtico sobre rodas usado na movimentação de contêineres no pátio do terminal. Passará a ver tudo do alto de 50 metros.

Com elas, ‘brutos’ parecem fuscas

O trabalho é duro, mas ninguém foge da raia. “Se os homens operam, a gente também é capaz de operar”, diz Soraia Silva dos Santos, 44 anos, que também está se preparando para ser uma operadora multifuncional. O ingresso dela na atividade tardou quase dois anos. Apesar de também ser instrutora de autoescola, ela não tinha carteira categoria E, pré-requisito para o trabalho. Preencheu os requisitos e há um ano foi contratada. A filha mais nova estranhou, mas os dois maiores apoiaram a ideia. O filho mais velho, José Macário dos Santos Neto, 19 anos, não esconde o orgulho. “Minha mãe trabalha no TCP, dirige carreta”, costuma dizer aos amigos.

Assim como Soraia e Vera Lúcia Silva Kutianski, as outras 14 colegas dirigem os “brutos” como se fossem Fuscas. O guidão hidráulico é uma seda, o que ajuda, sem dúvidas, mas isso não significa dizer que se trata de tarefa para qualquer um. É preciso duas semanas de curso teórico e outros 30 dias de prática no pátio antes de assumir o controle de um caminhão bi-trem para o transporte interno das cargas, ou um reach stackers, um caminhão-trator de 70 toneladas usado para a manobra dos contêineres. E elas estão provando que mandam bem ao volante mesmo em veículos cuja maioria dos motoristas convencionais jamais imaginou existir.

Fonte: Gazeta do Povo





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