O KING OF THE ROAD DO NORTE DO PARANÁ

por Blog do Caminhoneiro

Scania L-111 Super (1)

A fama dos caminhões Scania Série 1, modelos 110, 111 e 111 Super tem conseguido a proeza de ultrapassar décadas. Lançado em 1971, na versão L-110, L-111 no final de 1976 e L-111 Super em 1979, seu reinado na linha de produção se estendeu até maio de 1981, quando foram substituídos pela Série 2, modelo T112H, M, E. Apelidados de “jacaré”, muitos não sabem, mas este apelido pegou no decorrer dos anos 80 e 90. Em 1975 era conhecido como Scania “narigão”, assim como nos anos 60 recebeu a alcunha de cabine “João de Barro”, devido ao formato arredondado do teto da cabine. E ao aperto também, pois o espaço interno era extremamente limitado.

Dito isso trataremos agora daquele que talvez seja o mais famoso Scania “jacaré/narigão” do Brasil. Dificilmente algum outro tenha conseguido tantas visualizações nas redes sociais, tantos comentários, curtidas e compartilhamentos, pelo menos no Facebook. Não me recordo dele no finado Orkut, mas no Face ele reina, é soberano. O L-111 Super que vamos debater, tema de matérias na TV, em revistas e nas mídias sociais poderia ser classificado como o “King Of The Road/Rei das Estradas” do Norte do Paraná. Dizem que quem um dia já foi rei, jamais perderá a majestade.

Tal afirmação se aplica com absoluta certeza ao caminhão Scania L-111 Super de propriedade do senhor Hamilton Osvaldo Schmidt, pai de Marcos Luciano Schmidt, por sua vez seguidor dos passos do pai. Ambos conduzem com maestria uma frota cujo carro chefe não são os caminhões mais novos, até mais potentes e de custo por km/rodado mais condizente com as necessidades de transporte dos dias de hoje. Não, o xodó da frota 100% composta pelos pesados da Scania é um veterano das estradas, que já poderia estar aposentado, mas foi remoçado e ainda faz bonito nas rodovias e seduz tanto quanto um Dom Juan.

‘Seo” Hamilton poderia ser classificado como uma pessoa predestinada, marcado pela mão divina para na sua passagem terrena fazer bonito e deixar uma marca registrada. São poucos os que conseguem tamanha proeza. Ele conseguiu. Não nasceu em berço de ouro e tampouco a vida lhe estendeu o tapete das benevolências. Pelo contrário, ele teve de correr atrás. Sua vida profissional começou em uma retificadora de motores na cidade de Apucarana, no Norte do Paraná. Lá aprendeu os macetes de como desmontar, retificar e montar motor de combustão, ciclo diesel e gasolina. Da labuta diária, do seu tino e vontade de aprender extraiu os conhecimentos que anos mais tarde aplicaria naquela que seria a sua obra prima, sua maior criação material.

Diz um velho ditado que quem labuta o sonho alcança. E não foi diferente para Hamilton. Depois de três anos de trabalho na retífica conseguiu juntar algumas economias e com ela deu um passo ousado. Adquiriu um caminhão Ford F-600 ano 1963. De empregado virou patrão. Este F-600, na verdade, era o Super Ford, lançado em 1962. E quem foi ele na história? Foi o rei das vendas entre os caminhões médios nos anos 60, o caminhão mais vendido na história da Ford do Brasil e também o número dois em vendas desde 1957 até os dias de hoje. Acima dele somente o famoso Mercedes-Benz 1113. Como se vê, andar em boa companhia, ao lado dos melhores, estava no DNA do novo empresário.

Adquirido em 1970, o F-600 tinha motor diesel, Perkins. Com chassi trucado e carroceria graneleiro, seo Hamilton puxou seus carretos com ele até 1980. Neste ano colocou nele um motor de Mercedes 1113 e freios a ar. Em 1984, após 14 anos de “trampo” com o seu velho companheiro, vendeu ele e comprou outro F-600. Mais novo, ano 1974. Outro passo ousado foi dado seis anos depois, em 1990, quando incorporou um Mercedes LS-1519, com carreta graneleiro de dois eixos. Com ele ingressou no segmento dos semipesados. Maior capacidade de carga, maiores ganhos com fretes. Os dois caminhões renderam bons dividendos, tanto é que em 1994 deu entrada na frota um Scania “jacaré”.

Scania L-111 Super (3)Com a entrada dele, o F-600 foi repassado adiante. O negócio passou a ser tocado com um semipesado (1519) e um pesado (111). Veio o ano de 1996 e o LS-1519 foi vendido e mais um “jacaré” entrou, passando para dois pesados. Nem precisamos dizer do aumento da capacidade de carga, das novas oportunidades de negócios e do incremento no faturamento. Em 2002 entrou na frota um terceiro Scania, T112H ano 1985. Um percalço, revés, aconteceu. O segundo Scania “jacaré” comprado por Hamilton foi roubado. Fazer o que, acontece, coisas do Brasil.

Desanimou a família Schmidt? Não. Trabalhando arduamente, pai e filho tocaram suas atividades e em 2009 compraram mais um Scania, o terceiro da frota, o quarto na linha do tempo. Era um G380. As coisas, os negócios se aceleraram. Veio 2010 e com o ano novo mais outro G380 novinho incorporado a transportadora. Em 2012 o velho companheiro T112H ano 1985 foi revendido. No seu lugar entrou um poderoso Scania R440 Série 55 anos. Já em 2013, um Scania R440 Streamline também foi incorporado. Uma peculiaridade se fez presente ao longo dos anos. Seo Hamilton passou a contar com a ajuda do seu filho, Marcos Luciano Schmidt. Juntos, faziam a manutenção dos caminhões, pois entendiam da arte o suficiente para economizar com oficina mecânica de terceiros.

Se contabilizarmos, desde 1970, Hamilton teve 10 caminhões. Dos quais resta na frota cinco unidades. Das cinco, quatro são do ano de fabricação 2009 para cá. Idade média baixíssima. A exceção se faz a um xodó. Um dos Scania L-111 Super, dos dois adquiridos nos anos 90, ficou. De ano 1980, nele o patriarca da família fez uso de toda a sua bagagem de vida profissional adquirida ao longo dos anos. Sua composição original quanto a configuração de chassi era 4 x 2 e tracionava carreta graneleiro de três eixos. O seu motor original era o DS11, turboalimentado, seis cilindros em linha, 11 litros, 296 cv de potência, caixa de câmbio GR 860 de 10 marchas, eixo de tração AD 90 de simples redução (canela seca).

Pois bem, veja a transformação radical no valente Scania L111 Super, feita aos poucos. Compressor de ar do Scania T113H 360, suspensão mais reforçada, novo diferencial, nova válvula de distribuição do ar para a carreta, novo freio motor, usando a borboleta do sistema empregado no Mercedes LS-1935, instalação do terceiro eixo (de apoio), mudando a configuração do chassi, que de 4 x 2 passou para 6 x 2 (trucado). Ao trucar o cavalinho o mesmo passou a estar apto para tracionar cargas de maior peso, pois sua CMT (capacidade máxima de tração) foi alterada de 45 para 60 toneladas. Mas de nada adiantaria habilitar para uma CMT maior se mantivesse o motor original, DS11, com 296 cv de potência.

O DS11 foi retirado e no seu lugar colocado o modelo DSC11 18 tipo 360, com 363 cv de potência. Um salto de 67 cv na potência, 81,6% a mais. Quanto ao torque na faixa de giros nominal do motor, a parte que mais interessa, já que ninguém é louco para rodar com o pé no fundo, passou de 108 para 161,57 mkgf, 53,57 kgfm a mais, incremento de 67%. Para tracionar uma carreta de três eixos, 25 a 27 toneladas de carga, o consumo passou de 204g/Kwh para 195g/Kwh. Em outros números, de algo em torno de 1,75 km/litro para 2,2 km/litro, 20,8% a menos no consumo.

O trabalho de engenharia feito no “powertrain” do L111 Super é de tirar o chapéu. Instalou-se no cofre do motor, afunilado, espaço apertado, um motor de cilindrada quase 1 litro maior, radiador de diâmetro superior e turbo mais encorpado. Mas não é só. Era preciso instalar o sistema de pós-resfriamento do ar de arrefecimento, o intercooler. Não caberia jamais na frente do novo motor no cofre do motor do “jacaré”. Seo Hamilton teve então uma idéia genial. Como se o chassi fosse aquele em formato de “Y” dos Scania da Série 4, lançados em 1998, que permite a instalação do motor numa posição mais baixa do que nas Séries 1, 2 e 3, o intercooler foi adaptado de forma mais baixa, abaixo da linha do pára-choque dianteiro.

Um trabalho excepcional, com a instalação do intercooler embaixo do radiador. Até a polia do virabrequim foi trocada, passando a incorporar uma de motor Caterpillar, com três correias, duas para a hélice de refrigeração do motor e a outra para acionar a hélice que refrigera o intercooler. Tantas e felizes alterações foram amplamente elogiadas em concessionárias da Scania e por profissionais especializados. E que obteve a aprovação/certificação do Inmetro como veículo apto para licenciamento para CMT de 60 toneladas.

Antes das alterações sua CMT era de 45 toneladas.
Com isso, passou a tracionar carreta bitrem graneleiro de quatro eixos, arregalando olhos e torcendo pescoços de centenas de pessoas nas rodovias e postos de combustível. Onde passa é o “Show Car”, a sensação, o “King Of The Road”.

Texto/matéria: Carlos Alberto Ribeiro
Página MOBILIDADE EM FOCO: AQUI O DEBATE É TÉCNICO
Colaboração com dados/foto: Marcos Marcos Luciano Schmidt

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4 comentários

Agnaldo Roberto Alves 04/09/2016 - 01:33

so top

Giliarde Cesari 03/09/2016 - 22:56

Lindomar Fronza

Jorge Leandro 03/09/2016 - 21:29

Grandes, Máquinas!

Roberto Dias Alvares 27/10/2014 - 21:09

Realmente um trabalho admirável do Seo Hamilton. Tenho visto uma Scania trafegar entre APUCARANA e JANDAIA só que com carreta e não. A versão bi trem. Será que é esta?
Eles continuam morando em APUCARANA? Parabéns pelo trabalho admirável.

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