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O Oeste Baiano se destaca como a segunda maior região produtora de grãos do País e tem como única alternativa para o escoamento da safra de soja e algodão o transporte rodoviário. Nem por isso as estradas de acesso são boas e contam com boa infraestrutura em suas margens, mas os motoristas autônomos que as percorrem não se mostram preocupados, porque é na região que ganham o pão, principalmente no período da safra, que contam com bons fretes. Questionados sobre o assunto, se dizem satisfeitos em trabalhar na região.

Para facilitar um pouco mais o transporte agrícola na região do Oeste Baiano, o tráfego pesado de carretas que passava no centro da cidade de Barreiras foi desviado para o Anel Viário, mesmo sem o projeto estar totalmente finalizado. A obra foi “concluída” com urgência pelo fato de o tráfego estar causando transtorno, acidentes e mortes. Quem vem de Salvador pela BR-242 deve entrar no trevo que dá acesso ao município de Angical para sair na BR- 135 e a partir deste ponto tem as opções de seguir para o Estado do Piauí, pela BR-135, ou para a região Centro-Oeste do Brasil, pela BR 242. A situação é a mesma para quem vem de Brasília, que deve pegar a rotatória da Rodoviária, sentido BR-135, seguir até o Anel Viário para pegar a direção de Salvador.

O autônomo Arlon Oliveira Silva, 47 anos, nascido em Ipirá, interior da Bahia, conhecido como Galego de Ipirá, tem 20 anos de experiência na profissão e transporta milho, soja e algodão, de Barreiras para Feira de Santana. No retorno ele geralmente carrega material de construção, como piso e argamassa. Está há 15 anos na região e diz que é muito boa para trabalhar. “De março a novembro, o volume e o valor do frete é razoável, hora o preço sobe, hora abaixa, mas quando sobra caminhão complica, porque o valor do frete vai lá para baixo”, comenta o carreteiro, que transporta o maior volume para a Cargill.

Em relação às estradas da região, comenta que estavam boas até há algum tempo, mas deixaram de receber manutenção. Apenas a BR 116 melhorou muito, mas isso depois que foi privatizada e pedagiada. “Já a BR 242, de Paraguaçu a Barreiras está cheia de buracos e está acontecendo muitos acidentes devido às condições. Por outro lado, existem borracheiros e oficinas. A sinalização e o acostamento estão ainda bem conservados, mas o asfalto já deixa a desejar”, acrescenta Arlon. Diz que, de vez em quando vê meninos tapando os buracos na pista, mas no dia seguinte está tudo esburacado novamente. “O nome mais conhecido para este tipo de asfalto é Sonrisal, basta chover um pouquinho para ele desmanchar”, zomba.

Há alguns dias, Arlon disse ter encontrado em um posto de abastecimento uma equipe de profissionais realizando uma pesquisa na região para saber o que os carreteiros esperam das rodovias, mas para ele, deve ser pesquisa para a privatização da BR 242.

Em se tratando de acidentes nas rodovias que ligam Salvador ao Oeste Baiano, o carreteiro diz que sempre tem animal circulando na pista. Lembra que há pouco tempo uma carreta que vinha em sentido contrário tentou desviar de um jegue na pista e ele teve de jogar seu caminhão no meio da plantação de soja para não bater de frente. Contou que o animal morreu e o segundo reboque da carreta tombou.

De acordo Arlon, não é apenas a incidência de animais na pista que contribui para o elevado índice de acidentes, a imprudência dos carreteiros também conta muito e aponta pontos críticos da estrada como um local conhecido como Pai Inácio e a Serra da Mangabeira.

O jovem carreteiro de 24 anos, Rodrigo Barbosa Andrade, natural de Itaquara, interior da Bahia ingressou na profissão há três anos por incentivo dos tios, que têm tradição no segmento. Deixou a faculdade de administração e caiu na estrada, mesmo contra o gosto do pai. “Eu sou um carreteiro apaixonado pelo que faço, pena que nesta profissão a gente vive levando pedrada, correndo de bandido e da polícia. Nesta região o carreteiro está muito desamparado”, reclama.

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Rodrigo mora em Barreiras, é solteiro e tem um adesivo com seu nome no para-brisa de seu caminhão, com o qual transporta grãos da região e do Mato Grosso para todo o Nordeste. Afirma que o valor do frete é menor para os que têm caminhão como o dele, com capacidade de até 27 toneladas, em relação às composições de oito e nove eixos. “Mas por outro lado, não perdemos muito tempo nas operações de carga e descarga. Mas se for óleo de soja, algodão de pluma, por exemplo, o valor do frete é bem melhor”. De acordo com ele, este ano a safra não foi muito boa e a partir de outubro até fevereiro vai piorar, pois começa a entre safra e o valor do frete cai bastante e muitos caminhões ficam parados.

Quanto às estradas da região, o jovem carreteiro diz que as mesmas estão em condições regulares de trafegabilidade, enquanto que a BR-242 está se arruinando e não tem mais manutenção nem conservação. Destaca que o maior problema enfrentado pelos carreteiros na região é o roubo de pneus novos. Segundo ele, os assaltantes desviam o caminhão da rota para praticar o roubo. “E o pior de tudo é que a fiscalização nas estradas é apenas para verificar a documentação do motorista e do caminhão, nada mais”, constata.

Rodrigo aponta como positivo os postos de descanso na região, os quais permitem que o motorista durma tranquilo na cabine do caminhão. “Aqui não ficamos desamparados, mas no Mato Grosso nós passamos muitos apertos. É muito triste a situação por lá”, lamenta. Diz que sua jornada começa às cinco horas da manhã e vai até às 22 horas, rodando entre 700 a 800 quilômetros por dia. Afirma que dirige sempre com prudência, respeitando a sinalização e a velocidade permitida. “Quando trafego entre as cidades de Seabra e Ibotirama (região de serra) vou devagar e com muito cuidado.
O mineiro de Unaí, Willian Martins, 34 anos de idade e ao volante desde os 18 -casado e pai de um filho – de família de carreteiros e por conta disso começou a acompanhar tios e primos nas viagens desde pequeno. Está acostumado a cruzar a região do Oeste Baiano seja quando está transportando milho de Minas Gerais para todo o Nordeste ou quando está retornando carregado de gesso do Estado de Pernambuco. Lembra que o Município de Barreiras e região estão em pleno desenvolvimento, com muitos campos de lavoura, assim como o Piauí.

Suas viagens mais longas – com até dois mil quilômetros de estrada – acontecem entre março e novembro, com duração média de três dias. Nestes tiros longos costuma dormir em diversas cidades, dentre elas Barreiras, Chique Chique, Capim Grosso e sempre pernoita em postos de combustível, os quais, segundo afirma, convivem com a falta de preparo para atendimento aos carreteiros. “Isso acontece na grande maioria, não termos segurança, tanto é que acontece muito roubo”, reclama.

Ele também cita os roubos de pneus, com maior incidência na época da safra. Diz que nunca teve esse tipo de problema, mas sabe que existe. Outro ponto por ele destacado é o grande número de acidentes na região. “Os acidentes acontecem em grande quantidade nesta região, por imprudência do motorista e por defeitos na pista”, aponta. Ainda de acordo com Martins o trecho onde se registra mais fatalidades com perdas de vida é na Serra do Javi. “As regiões da Serra da Mangabeira e do Morro do Pai Inácio também são muito perigosas”, acrescenta.

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Ainda de acordo com Martins é grande a frequência de jegues perambulando ao longo das estradas, os quais causam acidentes e grandes estragos no caminhão. Porém, explica que na região de Jacobina, também na Bahia, os acidentes são mais raros porque o estado da rodovia é tão precário que só é possível engatar até a segunda marcha, além de estragar os pneus. Por lá também não existem balanças estaduais, coisa rara de se encontrar.

Falta de assistência técnica nas estradas baianas também é outro problema apontado por Martins. Diz que algumas lojas que atendem perto das rodovias chegaram até a abaixar o preço, mas o atendimento continua precário. “Costumo fazer manutenção em representantes, assim fico mais tranquilo e depois terei um melhor valor de revenda do caminhão. O autônomo tem que se virar, pois não pode ficar dependendo de financiamento pelo BNDES que ajuda somente os empresários“, reclama.

O carreteiro Adelson de Andrade, mais conhecido como Sargento 010, nasceu em Puxinanã/PB. Tem 45 anos de idade e trabalha na profissão desde os 18. Apaixonado pelo que faz, roda desde 1998 pelas BRs 242, 412, 407 e BR 382, entre Petrolina, Juazeiro e Capim Grosso transportando gesso e produtos agrícolas, como milho, soja e caroço de algodão. Ele dirige uma carreta de nove eixos e faz parte do Grupo Máfia Paraibana, composto por 60 carreteiros que se comunicam através de rádio PX, o qual ele diz ser muito útil para descobrir onde existe frete bom, acidente na estrada e outros comunicados. “Conversamos via satélite e tomamos conhecimento na hora de tudo que está acontecendo, evitamos congestionamento e desviamos de estradas com situação de risco. É um equipamento essencial para quem vive na estrada”, opina.

Em relação ao volume de carga e o valor do frete, Sargento acredita que agora haverá uma reação na Bahia, Goiás e parte de Minas, mas destaca que Mato Grosso está em baixa. “Se não dá por aqui, vou para o Piauí e região do Maranhão. Quando está favorecido fico, senão vou para outro lado. Não paro, mas estou cumprindo a Lei do Miotorista”, afirma. Como seu caminhão precisa de autorização especial de trânsito, ele faz apenas duas viagens por mês. “Isso por que é obrigatória a emissão da autorização e é necessário cumprir os horários estabelecidos, mas ainda bem que não precisa de batedor, senão o tempo de cada viagem seria ainda maior”, justifica.

Diz que cursou até o terceiro ano colegial, que sempre investiu em cursos e que conhece detalhes de cada fabricante de peças, caminhões e pneus. “Não basta apenas fazer cursos, o ideal é acompanhar a revisão e a manutenção do caminhão na concessionária para ter certeza que o trabalho foi bem feito. Só assim estará garantida a minha segurança, a da carga e do caminhão”.

Em sua avaliação, 90% das estradas federais por onde trafega estão boas, enquanto que as estaduais, apenas 50%. Lembra que nas rodovias estaduais da Bahia existem balanças funcionando, mas nas federais estão desligadas. Relata que um problema na cidade de Barreiras é a falta de espaço físico nas concessionárias. “Enquanto o cavalo-mecânico está em manutenção, a carreta fica estacionada na rodovia, embaixo de sol, chuva e poeira, além do risco de terem os pneus e outras peças furtadas”, conclui.

Fonte: Revista O Carreteiro Edição 482 – Texto de Nilza Vaz Guimarães