Cruzar as rodovias brasileiras transformou-se em perigosa epopeia para caminhoneiros

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“E digo para você que não gosto mais nem de me lembrar dessas coisas, e só me lembro mesmo, quando alguém chega e a gente fica batendo papo.” O lamento de Jorge, um caminhoneiro apaixonado pela profissão, é um desabafo aos entraves ao desenvolvimento econômico e social do país que ele ajudou a construir. Seu último frete, programado para seis dias e que se estendeu por quase duas semanas, se transformou numa epopeia conhecida até no estrangeiro. A missão de guiar o comboio de oito carretas – cada uma com 30 toneladas de milho – de Caratinga, no Vale do Aço, a BH foi um martírio: ele e os amigos percorreram rodovias precárias, abriram desvios e improvisaram pontes. Durante a viagem, discutiram a alta dos juros, o déficit de mão de obra qualificada, a carência de logística, o desvio de dinheiro e a greve da categoria. Comentaram até sobre a popularidade do chefe da República.

O chofer de caminhão é o personagem mais famoso do romancista mineiro Oswaldo França Júnior (1936-1989). Jorge, um brasileiro foi publicado em 1967, e, quase 50 anos depois, os problemas relatados pelos carreteiros são os mesmos que freiam o crescimento econômico do país. É o chamado custo-Brasil, um conjunto de mazelas que joga no ralo um valor incalculável com o encarecimento da produção, o fechamento de empresas e o fomento do desemprego. A partir de hoje a série Os homens da estrada será contada, inspirada no livro. As matérias tratam do dia a dia da categoria, mostram o contraste social Brasil afora e apontam obstáculos ao avanço do Produto Interno Bruto (PIB). A voz dos caminhoneiros deveria ser mais ouvida pelo poder público; afinal, eles somam mais de um milhão de autônomos e transportam 58% das mercadorias consumidas no país.

A jornada dos personagens começa em Caratinga, onde, na ficção de França Júnior, um trecho da Rio–Bahia foi destruído pela chuva. A Polícia Rodoviária interrompeu o trânsito e os carreteiros buscaram rotas alternativas. Jorge relatou o drama: “A barreira estava exatamente à altura da última rua que dava para a estrada”. Oficialmente, a Rio–Bahia é a 116, a BR mais extensa do Brasil – seus 4,5 mil quilômetros, de Fortaleza (CE) a Jaguarão (RS), cortam Minas e nove estados. Por ironia, na vida real, um exemplo de como o poder público desperdiça o dinheiro do contribuinte ocorre justamente no trecho imaginado pelo escritor. A balança que o poder público construiu em Caratinga para fiscalizar notas fiscais (combate à sonegação de impostos) e o sobrepeso de caminhões (a medida reduz o desgaste do asfalto) está fechada há seis meses.

Situação semelhante vive a 381, em Jaguaraçu, no Vale do Aço, por onde o comboio de Jorge seguiu depois de o trânsito na 116 ser interrompido. Balanças fechadas são porteiras abertas ao transporte de carga acima do peso permitido. Num primeiro momento, a infração reduz o custo com o frete, gerando uma pseudoeconomia. Depois, a despesa com o serviço aumenta, pois o sobrepeso cobra a conta no asfalto: buracos e ondulações danificam a frota, elevam o preço com manutenção dos veículos e põem a vida dos usuários em risco. Na 381, o piso ao lado de um posto desativado foi tomado por “costelas”, aumentando a possibilidade de acidentes na BR rotulada de Rodovia da Morte.

O sobrepeso é herança antiga no Brasil, como a reflexão de Jorge citada em destaque no alto desta página. Em outra oportunidade, o protagonista admitiu que “só pensava em como fazer para os caminhões darem mais viagens e carregarem mais peso”. A qualidade do pavimento da malha nacional é uma espécie de granada prestes a ser detonada. Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) apurou que 49,9% do asfalto nacional tem alguma deficiência. O sobrepeso e a falta de manutenção, dizem moradores do Vale do Aço (onde se passa a maior parte da narrativa do romance), danificaram a estrutura da antiga ponte sobre o Rio Piracicaba que liga Coronel Fabriciano a Timóteo. O trânsito de carga foi interrompido na estrutura. O desvio compromete a economia nas imediações.

“Investi R$ 600 mil em dois galpões e não consigo alugá-los, porque caminhões e ônibus não podem passar na estrutura. O desvio, de 11 quilômetros, aumenta a despesa com o diesel. Outro agravante é o tempo perdido na volta até o centro de Fabriciano. Donos de restaurantes em que ônibus paravam também estão no prejuízo”, reclama o empresário Warley de Moura Domingos. No livro, o comboio transpôs a estrutura: “Passamos por Coronel Fabriciano e depois por uma ponte comprida, e por um lugar onde eu sabia que os homens iriam gostar se a gente parasse”. O mesmo não ocorreu num lugarejo que hoje é distrito de Belo Oriente: “Depois de Cachoeira Escura havia uma ponte que eu olhei debaixo de chuva e que deixei o farol aceso para examinar melhor. Não me pareceu boa (…)”.

A tal ponte, na verdade, só existe na ficção de França Júnior. Cachoeira Escura é separada de São Lourenço, povoado de Bugre, pelo Rio Doce. Cerca de 800 pessoas moram nas duas localidades e dependem de uma antiga balsa para a travessia. A falta da estrutura causa prejuízo às famílias, sobretudo, de São Lourenço, onde o comércio é dependente do varejo de Cachoeira Escura para sobreviver. Há exemplos surreais, como o do mecânico industrial Epaminondas Pereira, que precisa recorrer à balsa para ir à padaria.

Na última semana, ele desembolsou R$ 3 por um saco com pães e mais R$ 12 para atravessar o seu carro na barca (R$ 6 na ida e R$ 6 na volta). “O pão saiu bem mais caro. Gastei R$ 15 no total”, indignou-se. A balsa, com capacidade para dois veículos e 40 passageiros, funciona das 5h30 às 18h. Quem chegar ao local fora desse horário precisará recorrer a um bote ou dar uma volta de 40 quilômetros para chegar ao outro lado do leito.

O livro que virou  best-seller

Criação de Oswaldo França Júnior, mineiro do Serro, Jorge, um brasileiro venceu o Walmap de 1967, principal concurso literário da época, com Guimarães Rosa e Jorge Amado no júri. A obra inspirou a série de tevê Carga Pesada, com Antônio Fagundes e Stênio Garcia. Foi exibida no cinema, em produção de 1988, dirigida por Paulo Thiago e estrelada por Carlos Alberto Riccelli. Entre uma crítica e outra ao custo-Brasil, Jorge comenta casos pitorescos, como uma viagem de ônibus ao Leste de Minas: “Aí a mulher que estava na minha frente e que era a mesma que me havia feito ficar com o cheiro de salame na mão e no cabelo começou a vomitar. A primeira leva não houve tempo dela abrir a janela, e aquilo veio de embrulhada e bateu no vidro. E você sabe, a coisa não é na sua direção, mas sempre há aqueles respingos. E além do cheiro, tem a impressão que dá. E a mulher abriu a janela, e aí, até mesmo a chuva entrando, para você, não é mais a chuva, é resto do que ela jogou para fora”.

Fonte: Estado de Minas




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