Novas montadoras de caminhões desistem do Brasil

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Diante da queda nas vendas e do cenário de retração da economia este ano, montadoras chinesas começam a abandonar projetos de investimento no país no mercado de caminhões. Os projetos cancelados ou adiados no país somam ao menos R$ 1,74 bilhão. A Dongfeng, que pretendia se instalar em Pouso Alegre, Minas Gerais, com recursos de cerca de R$ 1 bilhão, anunciou que não virá mais. A Yunlihong, que previa uma fábrica no município de Camaquão, no Rio Grande do Sul, com aporte de US$ 100 milhões, também desistiu.

Outras montadoras que já estão presentes no Brasil por meio da importação de veículos ou de caminhões adiaram projetos no país. É o caso da chinesa JAC, que planejava fabricar caminhões urbanos em complemento à produção de automóveis, e adiou planos de investir R$ 100 milhões na Bahia. Não há previsão de retorno. Outra chinesa com projeto engavetado é a Sinotruk. A fabricante anunciou investimentos de R$ 300 milhões na cidade de Lages, em Santa Catarina. Sem início, o cronograma das obras acumula um ano de atraso. O projeto previa a montagem de caminhões para o fim de 2014. Somente com os projetos abandonados ou atrasados, o país deixou de criar cerca de 4 mil postos de trabalho.

O efeito do cancelamento ou postergação desses projetos não se resume ao mercado de trabalho. Caminhões representam uma parcela importante dos bens de capital (máquinas e equipamentos, que são um indicador de investimento das empresas no país). No primeiro semestre, a produção de bens de capital acumula queda de 20%, segundo dados do IBGE. O principal impacto negativo no resultado da indústria de janeiro a junho foi a queda de 20,7% na produção de veículos automotores, reboques e carrocerias.

Para o professor de Macroeconomia da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Silvio Paixão, a deterioração econômica foi uma das razões para o adiamento ou desistência dos investimentos, principalmente no mercado automobilístico. Segundo ele, se antes da crise qualquer investimento tinha retorno num prazo médio de cinco anos, agora são necessários mais de dez anos.

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“Quando a maior parte destes recursos foi anunciada, trabalhava-se com uma estimativa de PIB médio acima de 2% ao ano. Vamos ter recessão este ano. Acredito que a recuperação aconteça a partir de 2018. A situação atual mudou muito as bases decisórias para qualquer investimento, por isso, várias empresas decidiram congelar projetos ou simplesmente diminuíram o ritmo”, disse Paixão.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as vendas de caminhões despencaram 43,1% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado e passaram de 77,02 mil para 43,79 mil neste ano. A produção recuou 45,4% e ficou em 48,22 mil unidades. A montagem de veículos pesados desacelera mês a mês. Em janeiro, eram 8.291 caminhões. Em julho, o total era de 6.599 unidades.

Diante da marcha a ré no mercado, a Anfavea estima que as vendas devem ficar abaixo de 80 mil unidades este ano. Para se ter uma ideia da desaceleração, em 2014 foram comercializados 137 mil caminhões. Em 2011, ano da maioria dos anúncios de investimento, o mercado chegou a mais de 170 mil unidades vendidas.

“Não vamos ver grandes investimentos no setor nos próximos anos. E podemos até perder montadoras já instaladas aqui”, disse o consultor e dono da consultoria MA8, Orlando Merluzzi.

Outro dado que comprova a desaceleração é o índice ABCR de Atividade, que recuou 1% em julho na comparação com o mês anterior. Ele é calculado com base no fluxo de veículos leves e pesados nas estradas concedidas à iniciativa privada. Em relação a junho, o movimento de caminhões cresceu 0,4%, mas na comparação com julho do ano passado, o tráfego registrou queda de 5,3%. O índice é produzido pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias em conjunto com a Tendências Consultoria.

Risco de perder benefícios fiscais

Outras empresas correm o risco de deixar de ser enquadradas no Inovar Auto, programa para estímulo da concorrência no setor que prevê metas e garante incentivos tributários a novos investimentos. A chinesa Shacman, com sede em Tatuí, no estado de São Paulo, ainda não iniciou operações. Já filiada à Anfavea, ela não está mais homologada no programa. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), a homologação é válida por 24 meses, com o compromisso de a empresa cumprir o cronograma do projeto, o que não ocorreu. A renovação está em análise pelo governo. A montadora faria investimento de R$ 400 milhões. Já a Sinotruk, que atrasou o projeto em Santa Catarina, só estava enquadrada até o dia 31 de julho.

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A Sinotruk até tentou outra saída para o projeto, com a compra da linha de montagem da americana Navistar International, do grupo MWM, em Canoas (RS). Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Região, Paulo Chitolina, as negociações estavam avançadas, mas, em maio, quando a diretoria da MWM iria à China finalizar o contrato de venda, os chineses desistiram.

A companhia considerada próxima de comprar a linha de montagem da Navistar, que fabrica dez mil unidades por ano, é a Foton. As obras da fábrica da Foton em Guaíba, no Rio Grande do Sul, estão atrasadas. Para não perder a habilitação do InovarAuto, que termina em novembro, e não ter de investir pesadamente na importação de caminhões, o presidente da Foton, Bernardo Hamacek, avalia a compra de unidade produtiva:

“Em novembro vence nossa habilitação junto ao Mdic. Sem essa chancela, teríamos de importar um número maior de caminhões para fugir da cobrança do 30 pontos percentuais incididos sob a alíquota do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Para trazermos mil veículos, iríamos gastar, em média, R$ 70 milhões. A linha de montagem custa bem menos”.

A fábrica da Foton vai consumir R$ 125 milhões em investimentos, sendo que R$ 65 milhões seriam financiados pelo BNDES. Mesmo com a compra da linha de montagem, Hamacek diz que o projeto da fábrica continua:

“Os planos são os mesmos, mas estão atrasados. Por isso, a tentativa de compra de estrutura fabril. Podemos iniciar a produção já em janeiro”.

Fonte: Jornal O Globo




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