Montadoras vivem sua crise mais longa no Brasil

por Blog do Caminhoneiro

linha de montagem ivecoQueda de 26,6% das vendas, de quase 23% da produção ­ esta no menor nível em nove anos ­ e a eliminação de 14,7 mil postos de trabalhos, elevando para quase 30 mil o saldo de demissões desde novembro de 2013. Esses são os números finais da indústria de veículos em 2015, um ano classificado como dramático pelos fabricantes de caminhões e em que apenas a recuperação das exportações foi motivo de comemoração para as montadoras.

A magnitude da crise não é inédita. No início da década de 80, o mercado, com uma economia fragilizada pelo Segundo Choque do Petróleo, encolheu ainda mais: 43% entre 1980 e 1981. Na época, as montadoras chegaram a cortar 24,4% da força de trabalho ­ na atual crise, o corte ainda não chegou a 19%.

De 82 a 86 da “Década Perdida”, a demanda brasileira por veículos passou por lento e instável crescimento até a recuperação virar pó com a queda de 33% do mercado em 1987.

Pelo menos nas últimas seis décadas, nunca o setor atravessou três anos sem qualquer sinal de reação, como agora

Depois disso, vieram as crises asiática e russa no fim da década de 90 ­ período de efeitos na atividade automotiva mais parecidos com a recessão do momento e a crise cambial deflagrada pela aversão ao risco com a ascensão do PT ao poder nas eleições de 2002.

Mas, pelo menos nas últimas seis décadas, nunca o setor atravessou três anos sem registrar qualquer sinal de reação, como acontece agora. O que começou como uma crise mais vinculada a restrições de crédito, somadas à retirada de incentivos fiscais, se agravou com o mergulho da atividade econômica e falta de confiança dos consumidores, numa agonia prolongada pela instabilidade política.

Primeiro, as vendas de veículos, incluindo caminhões e ônibus, caíram 0,9% em 2013 e 7,1% em 2014. No ano passado, a queda encostou em 27%, o pior índice em um único ano em quase três décadas do setor.

A tendência é que a sequência negativa seja ampliada neste ano, já que quase ninguém acredita que essa indústria conseguirá tão breve algum sinal de vida. Nas contas da Anfavea, a entidade que representa as montadoras, as vendas vão recuar 7,5%, o que seria um retrocesso de uma década em termos de volume. Há quem fale em debacle ainda maior, com nova queda de dois dígitos ­ ainda que não superior a 20%.

Prolongada, a crise colocou a teste o fôlego das fabricantes em atravessar ciclos recessivos, forçando uma sucessão inédita de medidas de ajuste da força de trabalho, entre ações como antecipação de férias coletivas, folgas com descontos no banco de horas, licenças remuneradas e o agora famigerado “lay-off”, que consiste na suspensão de contratos de trabalho. A alemã Mercedes-Benz, por exemplo, chegou a manter por quase um ano 700 operários afastados das atividades de seu parque industrial no ABC paulista.

A solução rápida da crise política pode desencadear a reação há tempos aguardada no consumo de veículos. Entretanto, na falta de reação, o “lay-off” se tornou insuficiente e o governo acabou cedendo à iniciativa privada, bem como a uma parcela do sindicalismo, ao criar o novo programa de proteção ao emprego, que, na prática, permite a empresas dividir com os empregados e com o caixa do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) a conta do excesso de mão de obra por mais um ano.

A Anfavea joga as fichas no câmbio desvalorizado, estimulando as exportações e afetando negativamente as importações, para chegar a dezembro deste ano com a produção ao menos estável, a despeito da tendência de mais um ano de constrição no consumo interno.

Ainda assim, o presidente da entidade, Luiz Moan, reconheceu na quinta­feira da semana passada, ao divulgar os resultados finais de 2015, que as montadoras ainda estão ocupando mais trabalhadores do que realmente precisam. As recentes medidas tomadas por General Motors e Volkswagen de dar continuidade a programas de “lay-offs” em fábricas no ABC são um reflexo dessa situação.

Não há perspectiva de melhora súbita na atividade das fábricas. Depois de a produção ser reduzida em dezembro ao menor volume em sete anos, os estoques de veículos tiveram queda expressiva ­ para um giro equivalente a 36 dias de venda. No entanto, o setor ainda terá de segurar as linhas de montagem para normalizar o encalhe a um nível mais próximo de 30 dias, tendo em vista que o ritmo de vendas historicamente tem forte redução entre janeiro e fevereiro.

A solução rápida da crise política pode desencadear a reação há tempos aguardada no consumo de veículos, mas essa é uma possibilidade que hoje parece ser remota, sobretudo se o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff avançar.

Da mesma forma, apesar do otimismo da Fenabrave, a entidade que representa as concessionárias, é pouco provável que o programa nacional de estímulo à renovação das frotas de carros e caminhões saia tão rápido, conforme informam fontes do governo e representantes da indústria próximos à negociação. O busílis reside na origem dos recursos que financiaria esse incentivo. Um novo imposto? Renúncia fiscal? As possibilidades são de difícil viabilidade num momento em que o governo, de um lado, quer melhorar a popularidade ­ um objetivo que ganha urgência com a proximidade das eleições municipais ­ e, de outro, tem que voltar a ser superavitário nas contas públicas para recuperar a credibilidade com os investidores.

Fonte: Valor Econômico

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