Lentidão na renovação de equipamentos afeta setor

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O abalo da confiança do produtor rural brasileiro diante da instabilidade da economia também refletiu fortemente na indústria de máquinas agrícolas, que registrou em 2015 queda de 34,5% nas vendas internas, com 44,9 mil unidades comercializadas, e de 32,8% na produção (55,3 mil máquinas contra 82,3 mil de 2014) em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). No primeiro bimestre de 2016, a retração foi de cerca de 45%, e apenas as exportações podem trazer algum incremento ao setor, uma vez que o agricultor não investe em novos maquinários, tanto pela estagnação econômica quanto pelo ritmo lento da liberação de linhas de crédito.

Nas exportações, a retração chegou a 27,2% no ano passado, com 10 mil unidades comercializadas contra 13,7 mil em 2014. A única elevação nos números ocorreu em fevereiro passado (50,4% em relação a janeiro), após um semestre de quedas consecutivas, e refletiu o período de colheita e plantio intensos. Em abril, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) estimava retração de 20% do segmento no primeiro trimestre de 2016. O presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, Pedro Estevão Bastos, aponta que as vendas de equipamentos não deveriam ter tido desempenho tão ruim no ano passado e que os resultados foram impactados pela “falta de confiança no Brasil, que contaminou o agronegócio, suspendendo parte dos investimentos à espera de uma melhor avaliação do cenário futuro”, comenta.

No Estado, segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers), Claudio Bier, 2016 ainda reflete a retração do ano passado. Na comparação entre os primeiros trimestres de 2016 e 2015, houve queda de 48% no segmento e de 33% nas vendas de máquinas. Redução de postos de trabalho e de ofertas de crédito também foram agravados. “O ano de 2015 foi atípico para o setor de máquinas e implementos agrícolas, repleto de incertezas e desafios, especialmente em comparação aos últimos seis anos, nos quais tivemos bons resultados de vendas e políticas públicas bem definidas para o segmento”, ressalta o sindicalista.

A única esperança de obter alguma mudança está no incremento das exportações. Nesse sentido, o Simers lançou o projeto “Food For All”, para fomentar venda de máquinas e implementos agrícolas sob forma de consórcio de exportação. “Acreditamos na força da nossa indústria. Os maiores desafios serão obtermos do governo a liberação de melhores condições de financiamento, só assim as indústrias conseguirão retomar o crescimento e evitar que o índice de demissões volte a crescer.”

Alterações e interrupções nas condições dos financiamentos e aumento dos juros do programa Moderfrota também prejudicaram o setor. Para 2016, esse cenário ainda está indefinido, segundo a Abimaq. “Como vivemos tempos de ajuste fiscal, os recursos para investimentos poderão ser bem mais escassos e caros. O setor de máquinas fica sem visibilidade do que ocorrerá a partir de julho, quando um novo Plano Safra será anunciado.”

Readequação de projetos e de pessoal são adotados para driblar a crise

linha de montagem agrale (2)Prestes a completar 54 anos de fundação, a Agrale, de Caxias do Sul, teve de voltar os olhos para a lenta retomada das exportações e redução de investimentos para superar as dificuldades de mercado no ano passado e planejar ações futuras. Seguindo a tendência de retração do setor desde 2014, a empresa encerrou 2015 com desempenho 45% abaixo do ano anterior e repetiu o mesmo índice negativo no primeiro trimestre deste ano.

Diretor industrial da empresa, Ércio Lütkemeyer conta que, desde 2014, a Agrale – fabricante de caminhões, tratores, chassis para ônibus e do utilitário Marruá 4×4 – se preparava para enfrentar as dificuldades internas, mas não imaginava que a crise econômica se estenderia por tanto tempo. “O ano de 2015 já tinha sido ruim em relação ao anterior, que também não foi bom, mas não esperávamos um 2016 tão difícil. A qualificação das vendas está muito baixa, e temos feito negociações para não perder dinheiro”, conta.

A instabilidade econômica e a diminuição da produção afetaram diretamente a geração de empregos e, entre 2014 e 2015, a empresa reduziu em 21% o total de funcionários. Somente no primeiro trimestre deste ano, os cortes já somaram mais 15% nas dispensas, totalizando 1.150 funcionários em atividade atualmente (em 2013, eram 2.100 empregados). O executivo destaca que a empresa evitou ao máximo as demissões e recorreu à flexibilização da jornada ao longo de 2015.

No entanto, a falta de reação da indústria como um todo fez com que os cortes fossem inevitáveis. Medidas de contenção de gastos também vêm sendo adotadas, como o desligamento, nos horários de pico energético, dos equipamentos que mais consomem. Investimentos também foram revistos, e apenas os extremamente necessários, como é o caso do novo projeto para controle de emissão de poluentes nos motores dos tratores, foram mantidos.

De 2014 para 2015, o crescimento das exportações em 4%, acompanhando a conveniência cambial, abriu alguma perspectiva para a empresa, que retoma, aos poucos, as negociações com Argentina, Chile e Colômbia. “Estamos buscando intensificar a competitividade, mas ainda é pouco para absorver a capacidade ociosa. Além da dificuldade em reabrir mercados, o volume das exportações ainda é muito baixo. Além disso, nossa tendência estava voltada ao mercado interno”, aponta o diretor.

A empresa fechou ainda acordo com a Foton do Brasil para montar os caminhões leves da marca. A Agrale comandará toda a produção, desde recebimento de componentes, montagem e testes, até a entrega do produto final.

Fonte: Jornal do Comércio