Solidão, falta de perspectiva e pressão podem levar os caminhoneiros às drogas




Os relatos se repetem. O motivo que leva os caminhoneiros a usar drogas como o rebite ou a cocaína, é sempre o mesmo: a necessidade de ficar acordado, dirigindo dias e noites a fio, para entregar o frete no horário imposto pela empresa.

Em geral, o caminhoneiro é autônomo, sem vínculo empregatício formal, sem garantias.

O capixaba Valder Moura de Jesus, 53 anos, 35 deles como caminhoneiro. Até os 40 anos recorreu a rebites, uma anfetamina que tira o sono e pode provocar alucinações. Chegava a tomar 15 comprimidos por noite. Era a única maneira de atravessar o país, do Rio Grande do Norte até São Paulo, em três dias.

‘Tomava quase uma cartela. Fazia 72 horas de Natal, Parnamirim, a São Bernardo do Campo’, conta Valder.

Quando o rebite parou de fazer efeito, recorreu à cocaína.

‘Não estava fazendo efeito, daí eu usei cocaína. Naquele dia eu vi o efeito que a droga faz. Ela destrói a pessoa’.

Valder desenvolveu problemas de saúde como inflamação no fígado e ansiedade e só parou por ordem médica.

Antes, o rebite consumido nas estradas era um redutor de apetite vendido legalmente até 2011, quando passou a ser proibido. Pesquisas da Faculdade de Medicina da USP mostram que a partir daí o consumo do rebite caiu e o da cocaína cresceu.

Ainda assim, o rebite, em uma versão manipulada e mais cara, continua sendo vendido nos postos.

Os caminhoneiros apontam dois fatores que pioraram as condições de trabalho. A recessão, que reduziu o pagamento do frete, obrigando o caminhoneiro a fazer mais viagens, e a reforma da Lei do Descanso, em 2015, que aumentou a jornada de trabalho da categoria.

O presidente do Sindicato das Empresas Transportadoras de Carga de São Paulo, Tayguara Helou, afirma que falta fiscalização.

‘Fiscalização intensa nos embarcadores, nas empresas e nas rodovias, nos motoristas’, afirma.

Índio trabalha há 40 anos como caminhoneiro. Sempre usou rebite. Um atrás do outro. Desenvolveu diabetes, engordou e adquiriu colesterol alto.

Em 2008, sofreu um acidente gravíssimo. O efeito da droga passou e ele apagou.

‘Vinte horas sem dormir. Tinha ‘carga de horário’. Forcei chegar. Passou o efeito, foi quando aconteceu. Dormi, apaguei, acordei depois de 12 dias. Não gosto nem de lembrar’, comenta.

Índio ficou 30 dias no hospital, 12 deles em coma. Hoje carrega na boleia um potinho do entorpecente, mas diz que só usa se houver muita necessidade.

Depois de ver a morte de perto, estava determinado em largar a profissão. Mas, tal qual a anfetamina, a estrada é um vício.

‘Quando eu sofri o acidente eu fiquei um bocado de tempo sem viajar. Mas eu sonhava que estava viajando. Acho que foi minha sina e, sei lá, se tiver de morrer, vou morrer dentro de um caminhão mesmo. Isso é um vício, é uma doença’.

Fonte: Rádio CBN





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