Nômades do asfalto: uma rotina de espera solitária em prol da sobrevivência

Nem o frio rigoroso das últimas madrugadas nem o sol escaldante de um dia quente. Nenhuma barreira climática é forte o bastante para impedir que os chapas se sentem às margens do Anel Rodoviário, em BH, e acenem para os incontáveis caminhões que passam constantemente pela via.

A missão não é simples: aguardar por caminhoneiros que precisam de ajuda para descarregar mercadorias ou chegar a algum ponto da região, combinar o preço do serviço e colocar a mão na massa.

O trabalho vai além da superação das intempéries. Envolve resistência física, mas também emocional, diante dos muitos acidentes que esses trabalhadores assistem de camarote. A própria espera é um exercício de paciência, já que eles nunca sabem se conseguirão atingir o objetivo. Em dias ruins, a única companhia é a solidão.

Com a crise econômica e a perda no faturamento das empresas, voltar para casa sem um centavo no bolso se tornou algo constante. Apesar das poucas oportunidades, esses nômades da estrada permanecem na atividade motivados por um misto de esperança em dias melhores e o que consideram a única possibilidade de escolha: resistir.

Chapa: trabalhador e testemunha do perigo resiste às margens do Anel Rodoviário

​Quando Márcio José Santos acorda às 4h para se sentar à margem do Anel Rodoviário e esperar por uma chance de trabalho, a única certeza que tem é a de que precisará ter paciência. Há 20 anos como chapa, ele conhece de cor a rotina de acenar para caminhoneiros que precisem de ajuda em troca de algum dinheiro.

Com tantas horas de espera no currículo assistindo o vaivém de veículos na altura do bairro Nova Cachoeirinha, região Noroeste de Belo Horizonte, Márcio conhece como poucos os perigos que a rodovia abriga. Com um fluxo de até 160 mil automóveis por dia, o Anel Rodoviário registrou, apenas de janeiro a maio, 271 acidentes com vítimas, segundo dados da Polícia Militar Rodoviária Estadual.

E de acidentes o ex-pedreiro de 52 anos coleciona lembranças. Já foram tantos que ele não consegue estimar a quantidade. São histórias repetidas de carretas que perderam o controle e arrastaram dezenas de carros e de colisões frontais que vitimaram famílias inteiras.

Dentre tantas memórias tristes, a mais marcante é a do dia da perda do próprio irmão, que foi atropelado por um caminhão betoneira quando voltava da escola, ainda na adolescência.

“Já faz uns 30 anos. Foi um dia traumático demais. Sempre que me lembro dá um nó. Ele estava vindo da escola. Antigamente, havia um grupo escolar e uma igreja ali do outro lado da pista. Um descuido e ele perdeu a vida. Isso arrasou com todo mundo”, relembra.

Informalidade

O perfil dos chapas do Anel Rodoviário de Belo Horizonte é quase sempre o mesmo. Homens, geralmente acima dos 50 anos, que na maioria dos casos nunca trabalharam com carteira assinada e continuam atuando de maneira totalmente informal.

Em muitas situações, a atividade começou como um bico provisório. Depois, se tornou o principal ganha-pão dos trabalhadores. No entanto, com o agravamento da recessão econômica, a realidade mudou completamente.

“Era uma maravilha. A gente podia até escolher serviço. Às vezes tinha caminhão esperando por nós. Agora é incerto. Um dia você trabalha e ganha dinheiro, depois você fica até dois dias sem ganhar nada”, explica Geraldo Magela Oliveira, chapa de 52 anos, morador do bairro Cabana do Pai Tomás, região Oeste de BH.

Ex-jogador de futebol profissional, Geraldo chegou a passar pelo Bela Vista Futebol Clube, time de Sete Lagoas que disputou o Campeonato Mineiro na década de 1960. A falta de maturidade, no entanto, o tirou do caminho do esporte.

“Naquela época, a gente tinha mente fraca e eu saí do futebol. Sofri um acidente debaixo do viaduto, fiquei nove dias em coma e os médicos queriam até doar meus órgãos. Me envolvi com as drogas, baguncei minha vida, caí pro mundão e perdi minha família”, relata.

Chapas esperam por obras de melhoria no Anel Rodoviário

As obras viárias apontadas como solução para os frequentes acidentes no Anel Rodoviário também estão entre as expectativas dos chapas. Depois de um longo impasse entre órgãos federais e estaduais sobre a revitalização, o projeto de Lei que autoriza a prefeitura de BH a assumir a administração da rodovia foi aprovado em 1º turno na Câmara Municipal há cerca de um mês.

Enquanto o imbróglio não é resolvido nas instâncias legais, os próprios chapas apontam os entraves que deveriam ser resolvidos como prioridade. “Hoje, o maior problema do Anel é esse estreitamento. É muito carro. Tinha que alargar um pouco. Aqui, quando o trânsito agarra, são horas esperando”, avalia Agnaldo Soares Chagas.

Há 17 anos trabalhando como chapa, ele chegou a atuar também como ajudante de serviços gerais. Mas, mesmo assim, nunca abandonou definitivamente o posto às margens da rodovia. Hoje, a rotina de Agnaldo ainda precisa ser dividida entre muitas funções.

“Quando comecei aqui dava para tirar até R$ 700 por semana. Hoje, se conseguir R$ 200 é muito. Com esse dinheiro contribuo na casa do meu pai, cuido de mim e ainda ajudo minhas filhas que moram em Conselheiro Lafaiete. Como é pouco, tenho que pegar lotes para limpar e ainda trabalhar de servente de pedreiro. Tenho que tentar melhorar a renda. Do contrário, não dá para viver”, conta.

Fonte: Hoje em Dia





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