O NATAL DO CARRETEIRO 2017




Final do mês de dezembro
Corre-corre  pelas ruas e estradas.
Deste final de ano ainda me lembro,
Era a mais aguardada das chegadas.

Passar o Natal em meu lar,
ao lado da família amada.
Faltavam muitos quilômetros para chegar.
Pela frente, havia muita estrada.

Muito trabalho e pouco dinheiro.
Afinal foi um ano muito difícil.
Essa vida dura de caminhoneiro.
Isso não é profissão, é um vicio.

De meu valente estradeiro estou a bordo.
Durante o ano todo, feliz eu trabalho.
Vou para o trecho, madrugada eu acordo.
Ao volante, nunca me atrapalho.

Faltando dois dias para o Natal,
de casa tomei meu rumo.
Ao volante me sentindo o tal.
Estava muito ansioso, assumo.




Meu filho e a esposa à espera.
Saiam a janela ou vinham ao portão.
O GMC Marítimo rugindo tal uma fera.
Valente e portentoso caminhão.

Montado nesse cavalo trucado.
Ao meu lado caixas de presentes.
Com dificuldade os havia comprado.
Com certeza ficariam muito contentes.

Voltava para casa sem grana.
Ao entregar o frete receberia algum dinheiro.
Mas por que continuar nessa profissão insana?
Trabalhando feito louco um ano inteiro.

Voltar e ficar com a família, um consolo.
Era isso que me servia de motivação.
Mas o destino e a estrada me fizeram de tolo.
Nesta viagem sofreria grande decepção.

Eis que a estrada pregou uma peça.
O velho GMC Marítimo deu um enguiço.
Uma dificuldade a mais na minha vida era essa.
Perguntei a Deus porque me acontecera isso.

Era apertada a situação financeira,
pagando financiamento, pesada conta.
Trabalhando de segunda a segunda-feira.
Pensava: “Mais uma que a vida me apronta”.

Tomado de revolta, possuído pela ira,
pois não passaria o Natal ao lado dos meus.
Gritei: “Até o convívio da família me tira”.
“Por que está me punindo Senhor Deus”?

Sentado à beira da estrada
me sentia sozinho, abandonado e perdido.
Abri o capô, no motor dei uma olhada.
Não sou mecânico mas sabia que estava fundido.

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Mal tinha dinheiro para o combustível.
Minha revolta para fora eu pus.
Proferi blasfêmia, uma frase terrível:
“Vem consertar esse estrago Jesus”.

Nem percebi que vinha um caminhão.
Mercedes Benz cara chata já bem velhinho.
De tão chateado nem notei a aproximação.
Me sentia triste, aborrecido e sozinho.

Era um Mercedes trezentos e vinte e um.
O caminhão estava bem maltratado.
De acessórios não possuía nenhum.
Dez pneus meia-vida no rodado.

O homem fez uma saudação
e perguntou qual era o problema.
Expliquei do motor a situação.
Como chegar em casa era meu dilema.

Ele disse que para tudo havia solução.
Que acreditasse e na fé não fosse um fraco.
Eu o julguei pela aparência de seu caminhão.
Como consertaria o meu se o dele estava um caco?

O homem, estatura mediana e mulato
pediu para olhar o motor do bruto.
Abri o capô do GMC Marítimo no ato.
Pensei: “Não entende nada esse matuto”.

Ele se aproximou do capô aberto
sem ter ao menos uma ferramenta na mão.
Que ele não resolveria, eu estava certo.
Era um pessimista envolto na preocupação.

Me mantive longe e ainda desanimado.
Via passar pela rodovia outros brutos.
O homem disse que já estava consertado.
Não acreditei pois ficou ali uns dois minutos.

Olhei para ele com pesado semblante.
Só podia estar brincando com minha situação.
Deu-me largo sorriso radiante.
Mandou dar partida no caminhão.

Achando ser brincadeira de mal gosto
fiquei parado remoendo a ira.
O homem acenou com calma no rosto.
Aquilo só podia ser uma mentira.

Contrariado, apertei o botão, virei chave.
O motor emitiu som inconfundível.
Ronco firme, encorpado e grave.
Não podia acreditar pois aquilo era impossível.

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O homem veio em minha direção.
Certamente queria receber uma gorjeta.
Na carteira não tinha um único tostão.
Nem sequer para abastecer a carreta.

Agradeci com vergonha no olhar.
Poderia seguir em frente com a jamanta.
Disse a ele que não tinha como pagar.
Estava vendendo o almoço para comprar a janta.

Aquele mulato forte mas com olhar doce
disse que era um prazer poder ajudar.
Se pelo caminho eu encontrasse quem fosse,
que também ajudasse sem nada cobrar.

Subiu a bordo do Mercedes Benz trucado.
À tamanha bondade eu não fizera jus.
Perguntei o nome daquele homem honrado.
Com um sorriso me respondeu: “Me chamo Jesus”.

Enquanto o caminhão se afastava,
No acostamento eu estava caído de joelhos.
Pedia perdão a Deus e chorava.
Com lágrimas no rosto e os olhos vermelhos.

Fui até meu GMC Marítimo.
Entrei a bordo, o coração em paz.
Eu que era um pecador legítimo.
Do que merecia, Deus fez muito mais.

Antes de me sentar no banco
sobre ele uma nota de cem reais.
Fui tomado pelo espanto.
Não duvidaria de Deus jamais.

Segui em frente com o pé pesado.
Esperava alcançar o Mercedes em breve.
Eu blasfemei e Jesus tinha me ajudado.
Faria confissão para a alma ficar leve.

O GMC Marítimo sentia o peso do lastro
O motor tinha desempenho sem tamanho.
Notei que do Mercedinho não havia rastro.
Aquele era um fato bem estranho.

Com o dinheiro achado sobre o assento
conseguiria chegar e entregar a carga.
almocei e fiz o abastecimento.
De emoção minha fala ainda embarga.

Na adversidade fui descrente e pecador.
Mas fui testemunha de um milagre, insisto.
De meu GMC Marítimo quem arrumou o motor
foi o melhor mecânico do mundo: Jesus Cristo.

Roberto Dias Álvares




Um comentário em “O NATAL DO CARRETEIRO 2017

  • 20/12/2017 em 15:42
    Permalink

    Um belo Conto de Natal envolvendo a vida sofrida de um carreteiro já sem fé

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