Vai uma ajuda, chapa?




Antes mesmo de o sol raiar, Carlos Homero Marques, 46 anos, pega a mochila, uma cadeira, a placa com a inscrição ‘chapa’ e se desloca até o quilômetro 18 da Rodovia Anchieta, em São Bernardo, seu ponto inicial de trabalho. O relógio marca 3h30 quando os primeiros caminhões, possíveis clientes, começam a aparecer no horizonte da estrada. O trabalho informal tem o objetivo de auxiliar motoristas de veículos pesados, seja na tarefa de indicar o caminho ou até mesmo a de carregar e descarregar produtos a preços negociáveis.

“É um parceiro do caminhoneiro, amigo encontrado na estrada, daí a gíria ‘fulano é meu chapa’”, destaca Marques, no ofício há dez anos. Embora o trabalho como chapa não tenha sido sua primeira opção, ele diz gostar do que faz. “Antigamente tirava R$ 2.000 por mês, hoje faço R$ 800. Às vezes, tenho que complementar a renda com o trabalho de ajudante geral, mas, nesses dez anos, ser chapa é que me sustenta”, diz ao destacar que a concorrência tem ficado maior à medida que a demanda por serviço diminui. Tudo em função da crise econômica.

O sorriso fácil do profissional esconde passado difícil. Por “decisões erradas”, segundo ele, foi obrigado a cumprir pena de 18 anos em reclusão. Mesmo tendo quitado sua dívida com a sociedade, nunca mais conseguiu trabalho com carteira assinada. “Sou outro homem hoje”, garante o morador do bairro Jordanópolis, pai de uma filha – ele já é avô –, apaixonado pela família e pelos cães.

A função do chapa também é arriscada. Marques revela que certa vez, após prestar serviço a um caminhoneiro, foi surpreendido com a má fé do profissional. Enquanto tomava café em uma lanchonete, foi roubado pelo companheiro de estrada. “Ele levou minha mochila com tudo dentro. Calotes acontecem, mas são raros”, destaca.

Sem tecnologia

Embora a tecnologia seja presente, a função do chapa é sempre bem-vinda entre os caminhoneiros, principalmente entre os mais antigos e não adeptos a aplicativos como GPS, revela Irineu Torres, 57, há quatro anos no ofício de ajudante profissional. “A maioria dos caminhoneiros usa celular, mas os antigos não gostam de GPS. Sempre procuram um chapa na estrada”, considera.

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Enquanto conversava, Torres apontou dois caminhões que trafegavam pela Via Anchieta, segundo ele, pela terceira vez, naquela manhã. “Estão perdidos. Daqui a pouco encostam aqui”, afirmou orgulhoso. “Sou chapa porque já andei muito a pé. Sei de cor todos os endereços. Ligo o rádio de madrugada para saber se teve acidente, para evitar caminhos ruins”, completa o trabalhador, avesso a celulares e à internet.

Torres veio de Luanda, no Paraná, para São Bernardo há quase cinco décadas em busca de trabalho nas fábricas de móveis da cidade. Ingressou no ofício de chapa por conta das dificuldades encontradas na profissão de marceneiro, devido à crise financeira.

Todos os dias, deixa sua residência, no Jardim Lavínia, em São Bernardo, por volta das 5h30. Seu ponto de partida é área embaixo do Viaduto Moysés Cheid. No local, seu ‘escritório’, há espaço até para pequena fogueira, necessária nos dias de “friaca danada”. O ritual é o mesmo. Antes se sentar na beira da estrada, pede a Deus que o dia seja feliz, cumprimenta a placa com a inscrição ‘chapa’, a bandeira colocada para alertar os motoristas sobre sua presença, e agradece por ter um ofício. Até por volta das 17h, quando retorna para o lar, caso não tenha sorte em conseguir serviço, usa o tempo para ler jornal, fazer palavras cruzadas e limpar a área. Por vezes, atua como segurança, revela. “O pessoal pega ônibus aqui perto e tem medo de bandidos. Fico sempre olhando, quase um segurança da estrada”, brinca.

Ele já foi casado três vezes, tem cinco filhos e oito netos, mas atualmente mora sozinho. E fica triste ao lembrar de algumas situações com a família. “Minha filha ficou grávida, mas só soube quando a barriga cresceu. Meu filho casou e só descobri depois de dois meses”, lamenta. Depois da última separação, o chapa foi morar com a mãe, que morreu há dois anos. Desde então, “casou com a estrada”. “É bom ter uma companheira, mas de vez em quando o silêncio é a coisa mais linda da vida”, ressalta em meio às gargalhadas.

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Pagamento

Conforme os chapas, uma viagem guiada do Grande ABC até o Porto de Santos custa, em média, R$ 200. Se for necessária ajuda para carregar ou descarregar, é cobrado mais R$ 100. Já para serviços dentro do Grande ABC, normalmente é cobrado R$ 50. Dependendo da carga, o valor pode mudar também. O retorno ao posto inicial fica por conta do caminhoneiro – ou traz o profissional de carona ou paga o ônibus de volta.

Apesar de destacarem semana difícil, com pouco trabalho, os dois chapas estavam felizes, no entanto, por conta do futebol. Os dois desfilavam com as camisas do time do coração, Palmeiras, satisfeitos pela vitória do time frente ao Boca Juniors, da Argentina, pela Libertadores na quarta-feira. Assim como no futebol, eles destacam que a vida de chapa é um eterno “ganha e perde”. “Ser chapa é ter esperança”, destaca Torres.

Necessário

O motorista Everaldo Mazzoni, 46 anos, transporta produtos em caminhão baú de Betim, em Minas Gerais, para todo o País. Revela usar os serviços de chapa sempre que precisa. “Sempre peço ajuda de algum chapa. Eles conhecem bem os caminhos e ajudam. Vale a pena. Às vezes, o GPS ‘dá pau’ e a gente sempre recorre à eles”, destaca.

Fonte: Diário do Grande ABC




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