Combustível e frete corroem a renda dos caminhoneiros

Por trás da queixa dos caminhoneiros autônomos com o preço do diesel, principal custo da atividade, está a grande perda real de renda da categoria nos últimos anos, também relacionada à crise da economia e consequente redução na procura por frete.

Os números que apontam a defasagem no que seria o equivalente aos salários dos profissionais do volante aparecem na comparação de edições de levantamento da Confederação Nacional dos Transporte (CNT), que mostra a evolução do cenário da categoria desde o período de atividade acelerada no país, no início da década, passando pela recessão, até o final do ano passado. Descontente principalmente com o valor que precisa desembolsar com o combustível, a categoria fez uma greve que parou o país em maio de 2018 e, nas últimas semanas, cogitou-se a possibilidade de nova mobilização.

A pesquisa Perfil dos Caminhoneiros 2019 da CNT, que ouviu profissionais das regiões metropolitanas das 12 unidades da federação com maior frota, indica que, em setembro do ano passado, quando foram feitas as entrevistas, a renda mensal líquida média dos autônomos – descontando impostos, encargos sociais, combustíveis, manutenção e outros custos – era de R$ 5.011. O valor é apenas 2,2% superior aos R$ 4.902 apurados na edição da pesquisa de 2011, com dados coletados em julho daquele ano.

Se a renda fosse corrigida pelo IPCA teria de ser R$ 7.519. Ou seja, a renda atual teria de ser 50% maior para empatar com a variação da inflação oficial do país acumulada no período. Em menor magnitude, a defasagem também aparece no faturamento dos motoristas que trabalham no próprio caminhão. Em julho de 2011, era estimado em R$ 13.411. Em setembro do ano passado, em R$ 16.117. Atualizado pelo IPCA, teria de ser R$ 20.526.

O diretor-executivo da CNT, Bruno Batista, lembra que, em regra, o nível de atividade do setor de transporte varia o dobro do PIB, para o bem e para o mal. Quem trabalha por conta, observa ele, é o primeiro a ser atingido quando há queda na procura por frete.

— Grande parte da atuação dos autônomos está relacionada a contratações por empresas maiores. Funcionam como uma suplementação da oferta. Quando a demanda cai para todos, eles são os primeiros a sofrer esse corte — explica Batista.

O diretor lembra que, além da retração da demanda pela recessão nos últimos anos, a categoria foi afetada pela nova política de reajuste de preços dos combustíveis. Após o período do governo Dilma Rousseff em que a Petrobras foi obrigada a segurar aumentos, a chegada de Michel Temer ao poder trouxe a diretriz de acompanhar cotações internacionais e câmbio, levando ao aumento da pressão dos custos. Conforme a série histórica de acompanhamento de preços da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em julho de 2011 o valor médio do litro diesel no país era de R$ 2,028. Em setembro, R$ 3,605, aumento nominal de 77% – acima da inflação de 53% no período.

O presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Rio Grande do Sul (Fecam), André Costa, entende que a queda da renda da categoria é reflexo de problemas que se somam nos últimos 30 anos, agravados com a retração da demanda devido à crise e ao aumento dos custos. Para o dirigente, os autônomos começaram a perder quando passaram a ter o serviço intermediado por empresas e cooperativas e, ao longo do tempo, com a inclusão do custo com pedágios e combustível no preço do frete. O resultado da redução das margens, avalia Costa, é uma frota envelhecida que acaba gerando mais gastos com manutenção e combustível, alimentando um círculo vicioso para a categoria. A situação, afirma, leva à necessidade de um mecanismo ligado aos custos que garanta alguma remuneração ao autônomo pelo serviço.

— Precisamos de um gatilho de proteção mínimo para que o motorista possa se planejar, ter uma gestão do negócio. O resto vai depender da economia do país — diz Costa, que também enxerga, hoje, desequilíbrio entre a oferta de caminhões e a necessidade de transporte.

O assessor técnico da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC Logística), Lauro Valdívia, lembra que o último cálculo do valor do frete, divulgado em fevereiro, mostra defasagem de 13,1% no país. É a diferença entre o custo do setor e o quanto o mercado está pagando pelo serviço. Mesmo que seja um valor apurado para as empresas, também serve de referência para os autônomos, contratados pelas transportadoras.

— O diesel pressiona pontualmente. Tem picos, depois cai. É a crise que fez a demanda pelo frete cair. E, enquanto não tiver demanda, não há piso que resolva — diz Valdívia, referindo-se ao tabelamento do serviço, uma reivindicação da categoria atendida pelo governo federal.

O especialista lembra ainda que, durante o período recessivo, além da queda na necessidade de transportar mercadorias, o mercado foi pressionado pelo aumento do número de caminhões devido à grande oferta de crédito facilitado para a aquisição de veículos, também no governo de Dilma Rousseff.

— Na época, isso não gerou problema. Apenas depois, quando veio a recessão. Hoje, o que pressiona o frete é mesmo a demanda baixa — reforça.

A pesquisa da CNT mostra ainda que, em setembro do ano passado, 66% dos autônomos diziam notar queda na demanda por transporte. No grupo de motoristas de transportadoras, a percepção era um pouco menor: 55%. Entre os principais motivos apresentados pelos caminhoneiros para explicar a redução na busca pelo serviço apareceram a crise econômica nacional, o custo do frete e a maior concorrência.

E as outras categorias?

Embora não seja exatamente o período avaliado, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua mostra que, do primeiro trimestre de 2012 (início da série histórica) até o último trimestre de 2018, a renda real média dos brasileiros subiu 6% – ou seja, superou a inflação. De 2011 a 2018, o salário mínimo teve variação nominal de 76%, e de 16% acima da inflação (INPC). Os motoristas das transportadoras também amargam perdas reais, embora menores do que os autônomos. Em julho de 2011, declararam na pesquisa da CNT renda mensal líquida de R$ 3.166 e, em setembro de 2018, de R$ 3.720, avanço nominal de 17,5%.

Queda no tráfego rodoviário sinaliza para retomada difícil

Se a procura por frete depende da retomada da atividade para voltar a crescer, os últimos sinais são pouco animadores. Na comparação com os meses imediatamente anteriores, o tráfego de veículos pesados nas rodovias pedagiadas brasileiras caiu em fevereiro e março, mostra o Índice ABCR, da Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias. Um dos responsáveis pelo indicador, o economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria, dá pistas de que o resultado de abril, a ser divulgado no início de maio, não deve mostrar reação.

— O quadro é de difícil reversão no curto prazo — limita-se a dizer Xavier, quando questionado sobre a tendência.

O economista observa que, apesar do movimento de veículos pesados nas estradas concedidas ser superior a igual período do ano passado, há evidente desaceleração, o que indica retomada mais lenta da economia, afetada por problemas como dificuldades na construção civil e na indústria e a crise na Argentina, que atinge o transporte internacional por rodovias. Sondagem da Confederação Nacional da Indústria sobre o primeiro trimestre aponta queda na produção e no emprego e aumento de estoques, o que indica menor necessidade de transporte de insumos e mercadorias prontas.

O diretor-executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista, observa que as expectativas de aumento na procura por frete estão relacionadas à reação da economia o que, por enquanto, está atrelada à reforma da Previdência.

— Isso está se alongando mais do que o previsto. Começamos com projeção de PIB (para 2019) de 2,5% e agora estamos com algo em torno de 1,5%. Talvez se repita o número dos últimos dois anos (1,1%). Esse é o problema.

O assessor técnico da NTC Logística, Lauro Valdívia, relata que, em conversa com os empresários, o que se nota é oscilação da demanda no ano. Depois de janeiro e fevereiro serem considerados bons, março foi ruim.

— O transporte é uma atividade-meio. Vai a reboque do mercado. Leva o produto de quem produz para quem compra. Mas, se não tem quem compre, não adianta — diz Valdívia.

Pelo índice da ABCR, indicador utilizado inclusive no cálculo do PIB pelo IBGE, o tráfego de veículos pesados em março ainda estava 12,5% abaixo do maior nível, observado em abril de 2013, na série livre de efeitos sazonais.

Fonte: GaúchaZH




21 comentários em “Combustível e frete corroem a renda dos caminhoneiros

  • 01/05/2019 em 01:11
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    Vocês (caminhoneiros) têm opção: estudar, atualizar o currículo e mudar de profissão. O mercado de trabalho sempre funcionou e sempre vai funcionar baseado na lei da oferta e demanda, não esperem que a canetada de algum presidente vai mudar as regras do mercado (só um ditador tem poder para mudar essas regras de mercado).

  • 30/04/2019 em 15:37
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    A verdade é que bolsonaro enganou nossa categoria e infelizmente tem gente ainda apoiando ele.
    ele nao faz a tabela ser obrigatoria por que não quer. o governo pode muito bem fazer falta vontade.

  • 30/04/2019 em 07:45
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    Bom dia a todos, minha opinião é que não sou representado por ninguém aí em Brasília, sou Caminhoneiro autono e sou a favor da greve sim, afinal nao aguento mas pagar este preço alto do Óleo e totalmente sem seguranças nas estradas, os postos de gasolinas agora até um banho estão cobrando. Que os pontos de apoios que prometeram?

  • 30/04/2019 em 07:33
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    Uma triste realidade! Vergonha Brasil!!

  • 29/04/2019 em 21:56
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    Está inviável colocar caminhão pra rodar com o diesel e pedágio nas alturas e frete baixo. Estamos fazendo só pra pagar despesa do caminhão.
    Essa de o governo emprestar até R$30.000,00 para os autônomos só vai piorar a situação dos pequenos caminhoneiros.

    • 30/04/2019 em 07:11
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      seria melhor si nos podesi trabalha com mas apoio e u nasso governo nus ajudase pelomenos a trocar de carro a cada 10 anos poro esenplo eu tenho um caminhao 86 mas ater pra carregar ta dificio nao tenho como conpra um mas novo mas preciso trabalha pra paga meus ipostos meu nome e jose adelmo sou do rio grande do norte a parte mas esquecida e a qi mas trabalha

  • 29/04/2019 em 13:21
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    Eu so falo de frete e acho que o frete tá ótimo, eu brigo é por porcentagem nos frete das industrias e empresas tem quer 40% dos fretes pra terceiros por se não vai ter que acabar autônomos as transpordora recebe muito acima do piso mínimo. Eu estou tentando com um caminhão ne tenho firma registrada pegar uma carga direto de uma empresa e tenho a mesma responsabilidade com a carga e faço frete com menor valor que a transportadora. A anbev ja está fazendo leilão de suas cargas pra as transportadora baixar os fretes.

  • 29/04/2019 em 12:55
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    Caiam todos na real… Oferta x demanda.
    A oferta de caminhões e gente que precisa pegar frete está mimui maior que a demanda, que o tanto de frete disponível. Com isso o preço do frete só vai abaixar. Se o governo não voltar a investir nas indústrias, estimular a construção civil e dar apoio ao agronegócio, não terá frete. Temos que torcer para a economia voltar a rodar, para as empresas que quebraram com o lazarento do PT voltem e assim teremos ganha pão de novo. O resto do que está sendo feito é palhaçada, é pão e circo para enganar os caminhoneiros e o resto da sociedade.

    • 29/04/2019 em 19:36
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      Viva o bozo kkkkk

      • 29/04/2019 em 20:09
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        E o Lula na cadeia

  • 29/04/2019 em 11:32
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    Bom dia pessoal agora tem que parar enquanto o supremo não julgar a constituciunalidade da conta Abela de frete

  • 29/04/2019 em 10:28
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    VOU DAR EXEMPLO DE UM FRETE QUE TEM DA IMBITUBA SC X PALOTINA NO PR FRETE E 95 A TONELADA 95X34 Q E PESO DO BI CACAMBA IGUAL 3230 MENOS CUSTO MOTORISTA -387,00 – CUSTO PEDAGIO E DIESEL 2700,00 MENOS SEGURO DE CARGA QUE ELES COBRA DO CAMINHAO 50,00 MENOS LAVA CACAMBA QUE ELES EXIGE 50,00 MENOS igual sobra p caminhao 43,oo reais Deus me livre se fura um pneu q borracheiro não baixa 50 reais p arruma

    • 29/04/2019 em 19:00
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      Essa é a realidade ….

  • 29/04/2019 em 10:18
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    BOM DIA SOU ADILSON SANGAO SC
    TENHO CAMINHAO NA ESTRADA
    A PARTIR QUE NOIS PAGUE O PRECO MINIMO DA TABELA OU ATE PRECO JUSTO P NOIS PODER IR E VOLTAR PELO MESMO PRECO tA OK
    E OQUE A ACONTECE AS EMPRESAS ESTAO RECEBENDO A TABELA MAIS NOIS ALTONOMOS. NAO TAMOS O CLIENTE FINAL TA PAGANDO MAIS NOIS NAO TEMOS RECEBENDO
    AI OQUE ACONTECE AS EMPRESAS COMPRARAM MONTE DE CAMINHAO PQ P ELES DA PRECO DE TABELA E ESTAO ESCLUINDO O ALTONOMO IGUAL A NOIS
    HOJE NAO TEMOS TENDO FRETE TABELA PRINCIPALMENTE NA CARGA GRANEL

  • 29/04/2019 em 10:16
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    O que mais mata são os pedágios principalmente no estado de São Paulo.,
    A cada 23 km tem um para te cobrar…

    • 29/04/2019 em 15:17
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      Vdd , vc nao conhece os pedagios do estado PR , onde onde vc paga quase 10,00 reais por eixo PR ,e depois de dois quilômetros vc desembolsa 18,30 por eixojá no estado de SP Assis… Por medianeira /Assis ..

  • 29/04/2019 em 10:10
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    É brincadeirinha de vcs né, 27,3% reclamam do valor do frete? O problema é o valor do frete, o combustível poderia chegar a 5 Reais o litro que se fosse pago o frete dentro da tabela ainda estaria muito bom pra nós.

  • 29/04/2019 em 10:01
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    O único problema dos caminhoneiros é apenas o valor do teto mínimo que foi colocado em terceiro lugar, isto é mai um fake deste governo que vem enganando os caminhoneiros,

  • 29/04/2019 em 09:51
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    Bom dia faltou um item os pedágios também contribui

    • 29/04/2019 em 15:12
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      O Brasil ,virou um grande circo …onde somos obrigados a conviver com mais essa palhaçada …como dizia ” Na favela do cenado ,tem sujeira pra todo lado … Que país é esse

      • 29/04/2019 em 15:42
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        Frete mínimo ficou melhor ainda p transportadoras q cobram e não repassam o cliente tá pagando frete mínimo transp e agronegócio só q compra caminhoes novos carência de 1 ano juros baixos eles tem frete já os autônomos tão sendo iludidos tão ganhando tempo vão acabar com Nois tão precisando de motoristas pode preparar a carteira os autônomos se continuarmos aceitando isso

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