UM CONTO DE NATAL 2019 – FNM Brasinca 6×2

por Blog do Caminhoneiro

Final de ano, um corre-corre.
Caminhões que vem e que vão.
Filhos em casa dizem ao seu pai: “não morre”.
Pedem a Deus por ele em uma oração.

Dirigindo seu cavalo mecânico Fenemê.
Bela cabine da Brasinca.
Colírio para os olhos de quem vê.
Cruzando as marchas, parece que brinca.

O carreteiro Barbosa é alfeiro.
Ele e seu FNM parecem ser um.
Na luta diária, o bruto é seu companheiro.
Melhor alfeiro que ele, não há nenhum.

Seu FNM era um caminhão trucado.
Por necessidade, o transformou em cavalo.
Semirreboque, com tudo era carregado.
Somente um bom alfeiro para domá-lo.

Final de ano, Barbosa pensando no lar.
Teria de passar em casa o Natal.
Presentes para família comprar.
Voltava de Brasília, capital federal.

Achava essas festas de fim de ano
perda de tempo e uma grande bobagem.
Por trabalhar e ganhar dinheiro era insano.
Emendava uma, em outra viagem.

Ficava pouco tempo em casa.
“Trabalhar e trabalhar”, era seu lema.
No trecho ia mandando brasa.
Ficar longe do lar não era problema.

Mas a família sentia sua falta.
Seus filhos cresciam e ele não via.
Com o Fenemê na rotação alta.
Transportava de tudo pela rodovia.

Essa era mais uma daquelas viagens.
Voltaria para casa depois dessa entrega.
Do Brasil, tinha visto todas as paisagens.
Para quem o amava sua vista estava cega.

O Fenemê levava carga valiosa.
Para chegar ao destino tinha horário.
Na marca dos oitenta ia o Barbosa.
A tantos anos esse era seu trabalho diário.

Tempo indicando chuva, já escuro.
O Fenemê Brasinca seguia valente.
Seu bruto encarava o trabalho duro.
Barbosa dirigia alegre e contente.

Eis que quando a chuva começou a cair.
Era trecho de pista bem deserto.
O Fenemê de Barbosa tinha que seguir.
O destino ainda não estava nada perto.

Barbosa não era muito religioso.
Sua esposa, ao contrário, grande devota.
O caminhoneiro não era homem generoso.
Não admitia ter na vida nenhuma derrota.

Sua única diversão era jogar truco.
Queria sempre ganhar a qualquer custo.
Com outros caminhoneiros era xucro.
Grosseiro, na família vivia dando susto.

Ser contrariado, não admitia.
Ficava bastante zangado.
Irritado, palavrões dizia.
Com a vida era inconformado.

Ganhou da esposa bela medalha.
Nela, imagem de Cristo ressuscitado.
Ela dizia: “Acredite, Deus não falha”.
Ele achava aquilo muito exagerado.

Enquanto ele trabalhava com o Fenemê.
Sua família ia as missas rezar por ele.
O caminhoneiro não entendia por quê.
Não precisava de Deus, só dependia dele.

Mas o que não sabia o Barbosa.
Que o destino lhe preparava uma lição,
Havia na estrada gente muito maldosa.
Queriam roubar sua carga e seu caminhão.

Um carro fechou seu caminho.
Freou o Fenemê e saiu da pista.
Ali naquele trecho estava sozinho.
Foi abordado por gente ruim e egoísta.

Não houve tempo para reação.
Estava na mira de armas de fogo.
Tiraram-no de dentro do caminhão.
Sua existência na terra estava em jogo.

Levaram-no para o matagal.
Seu caminhão tinha a bordo um bandido.
Aqueles homens queriam lhe fazer mal.
Pensava que estava tudo perdido.

Esposa e filhos nessa mesma hora,
oravam e pediam pelo pai e esposo.
Clamando a intervenção de Nossa Senhora.
Que o livrasse de qualquer ato criminoso.

Em meio ao matagal e todo molhado
pela chuva que caía torrencial.
Barbosa orou, já desesperado.
Com a família não passaria o Natal.

Pediu a Deus que poupasse sua vida.
Sem ele, o que seria de sua família.
Deste mundo seria sua partida.
Chorava pensando no filho e na filha.

Criminoso sem piedade e nem dó,
fez disparo que atingiu seu peito.
Deixaram seu corpo caído, ali só.
A força prevaleceu sobre o direito.

Queriam o semirreboque carregado e só.
Aquele cavalo mecânico não valia a pena.
Não conseguiam solta-lo, parecia difícil nó.
Bandidos atrapalhados, hilária cena.

Acabaram por desistir do roubo.
Se soubessem não o teriam matado.
Tiveram de precipitação um arroubo.
O motorista teria ao semirreboque liberado.

Ao longe, luzes de giroflex e sirene.
Bandidos fugiram pensando ser polícia.
Quem faz o mau, à luz e a tudo teme.
Foge do bem quem age com malícia.

Na verdade, era uma ambulância.
Correndo, ia atender uma emergência.
Criminosos, dominados pela ganância.
Que seriam presos tinham ciência.

A fuga desesperada parecia em vão.
Vendo o veículo, deles se aproximar.
Fariam de tudo, mas não iriam para prisão.
No desespero acabaram por se acidentar.

Carro descontrolado saiu da pista.
Para criminosos não haveria descanso eterno.
Eram tantos crimes, extensa lista.
Almas condenadas ao inferno.

Barbosa estava caído, imóvel, morto.
Mas morto não se mexe, como pode isto?
Desperta e se levanta o antes inerte corpo.
Ressuscitou por milagre de Jesus Cristo.

Viu furo de bala na camisa o Barbosa.
Peito doía, mas sem sinal de sangue.
Ao desabotoa-la área do tórax dolorosa.
Escapou com vida daquela gangue.

A medalha que sua esposa lhe dera,
o projétil mortal havia nela parado.
Para viver, de um milagre estava à espera.
Vida salva graças ao Cristo ressuscitado.

Saiu do meio daquele matagal.
Molhado, peito doendo e com frio.
Vivo, escapara de um destino fatal.
Sentiu-se triste e o coração vazio.

Sem ver a família, poderia ter morrido.
Refletiu e pensou em seus valores.
Longe de casa, o melhor havia perdido.
Lá estavam seus três grandes amores.

Teriam levado seu caminhão, na certa.
Caminhava com esse pensamento.
Chegou à rodovia, FNM com a porta aberta.
Chuva caia mais forte naquele momento.

No acostamento, caiu de joelhos.
Agradecendo e a Deus pedindo perdão.
Poças de água pareciam espelhos,
refletindo imagem de uma transformação.

Prometeu que seria um homem novo.
Daria atenção aos entes queridos.
Disse: “Senhor, hoje eu te louvo”.
Vou compensar tantos anos perdidos.

A bordo do velho FNM, orando a Deus,
para entregar a carga tinha mais pressa.
Queria voltar ao lar, perto dos seus.
Para si mesmo fez uma promessa.

Chegou à casa antes do previsto.
A família teve uma grande surpresa.
Disse: “Fui salvo por Jesus Cristo”.
“Serei um novo homem com certeza”.

Barbosa, a partir daquele Natal.
se tornou exemplo de pai e marido.
Escapou de um destino mortal.
Sem intervenção Divina, teria morrido.

Hoje viaja a bordo de seu Alfa Romeu.
Leva a bordo os filhos e a patroa.
Aproveita bem a vida, pois quase morreu.
Quem o conheceu, diz que é outra pessoa.

Qualquer um de nós pode mudar.
E o Natal é uma época convidativa.
Barbosa viu que a vida não é só trabalhar.
Ao lado da família sua fé ficou mais viva.

Texto de Roberto Dias Alvares

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1 comentário

Roberto Dias Alvares 17/12/2019 - 16:26

Uma bela história da mudança de um homem que viu a morte de perto e aprendeu a valorizar as verdadeiras coisas boas da vida,

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