Por que um caminhão com 400 cv puxa uma carreta e um supercarro com mais 1.000 cv não consegue o mesmo?

Todo mundo que gosta de veículos já deve ter visto aqueles supercarros, como Bugatti, Koenigsegg ou Ferrari, com potências altíssimas, preços na casa dos milhões e tecnologia de ponta em cada parafuso.

Para dar um exemplo, o novo Bugatti Centodieci, que custa R$ 35,4 milhões, tem um motor de oito litros, com 16 cilindros dispostos em W, com potência máxima de 1.600 cavalos, com 1.600 Nm de torque.

Esse carro pode atingir cerca de 380 km/h, chegando aos 300 km/h em apenas 13 segundos.

Mesmo com tantos atributos de potência, esse veículo não consegue rebocar cargas, como caminhões com cinco vezes menos potência.

Mas por quê?

A resposta pode ser simples, dependendo do ponto de vista. Um caminhão é feito para transportar cargas, e esse tipo de carro é feito para acelerar.

Mas uma lista longa de peças é diferente nos dois veículos, para que cada uma atenda suas demandas.

Inicialmente, a construção de um caminhão já é diferente. Ele é grande, robusto e feito com um chassi voltado ao transporte de cargas. Isso se traduz em resistência, mas também em peso. O carro, por sua vez, precisa ser resistente e leve, para ser seguro para os ocupantes e conseguir acelerar muito rapidamente.

O motor também é diferente. O motor desses automóveis precisa de potência e torque exclusivamente para acelerar. O torque do carro, de 1.600 Nm, é o mesmo do motor de 9 litros da Scania, na versão de 320 cavalos de potência. O motor do caminhão precisa ter mais força (torque), para rebocar as cargas mesmo em subidas íngremes.

O regime de rotações também é muito diferente. Um hipercarro pode ter rotações de até 10 mil RPM no motor, enquanto um caminhão tem rotações, na faixa econômica, onde tem o melhor torque, em cerca de 1.200 a 1.600 RPM.

Além disso, o motor do caminhão é projetado para ter a maior força, com a menor rotação possível, enquanto o carro entrega a maior potência e torque em alto giro.

Um fator determinante é a relação de transmissão. Enquanto um supercarro pode chegar a mais de 50 km/h em primeira marcha, o caminhão dificilmente passa dos 10 km/h na mesma marcha. Alguns caminhões, como o FH com o câmbio I-Shift com marchas super reduzidas, pode rodar a apenas 500 metros por hora (0,5 km/h).

Essa diferença mostra que o caminhão tem a relação de transmissão muito mais reduzida que a do carro. Além disso, o veículo esportivo citado no início do texto tem sete marchas, e um caminhão pode ter 12, 16, 18 marchas. Alguns caminhões podem ter até quatro marchas-à-ré.

E se pudesse engatar?

Basicamente, se você conseguisse engatar um implemento em um carro potente, ele ficaria parado, sem sair do lugar, enquanto um caminhão já conseguiria mover a carga logo após a embreagem começar a ser liberada pelo motorista.

Mesmo que o carro pudesse mover a carga, faltaria potência na primeira elevação na estrada, já que o câmbio não teria relações reduzidas o suficiente para vencer o aclive.

Outra questão é a durabilidade. Motores de caminhões podem ficar no regime de força máxima continuamente, por horas a fio, sem problemas. Já o motor de um supercarro é feito para produzir muita potência por breve períodos. Se um carro desse tipo se manter em uma faixa de rotação por muito tempo, vai apresentar superaquecimento e outros problemas.

O motor do caminhão também pode rodar por centenas de milhares, até milhões, de quilômetros sem problemas, enquanto os supercarros tem um motor com durabilidade muito menor.

Outro exemplo:

O caminhão rodoviário mais potente do mundo é um Scania com motor V8 de 16 litros, com 770 cavalos de potência. Uma La Ferrari,  que tem um motor V12 de 6,3 litros, tem potência de 789 cv, muito próximo do Scania. Mas quer ver a verdadeira diferença. O supercarro tem torque de 700 Nm, enquanto o caminhão tem 3.700 Nm. Vocação para velocidade e para cargas, respectivamente.

Rafael Brusque – Blog do Caminhoneiro

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