Empresário do mercado de implementos rodoviários conta sobre como chegou à beira da falência e sobre como se reergueu

“Em 2016, não havia mais dinheiro no caixa, não havia mais vendas e estávamos endividados até o pescoço. Estávamos prontos para quebrar”. À época, esta era a realidade de Ronaldo Linero e sua empresa, a Ibero Group. Empresário do setor de implementos rodoviários, Linero respira combustível de caminhão desde sua infância, quando, aos 9 anos de idade, começou a trabalhar na empresa do pai, uma distribuidora de peças para implementos rodoviários.

Desde muito jovem já era um homem do trabalho. Cinco anos depois de iniciar sua vida profissional, aos 14 anos, assumiu a área comercial da empresa onde não era apenas o filho do dono. “Eu sou oriundo do aftermarket para implementos rodoviários e costumo dizer que nasci em baixo de uma carreta”, brinca.

Em 2001, fundou sua empresa própria, a Ibero, visando atender ao mercado de terceiro eixo para caminhões, contudo, no mesmo ano, deparou-se com um problema: justamente naquele período os caminhões começaram a sair das montadoras já com o terceiro eixo, acabando com o mercado da Ibero.

Ronaldo decidiu, então, mudar o foco: “Decidimos migrar nosso mercado para as carretas, porém teríamos alguns problemas a serem lidados”. Seus clientes, até o momento, utilizavam eixos tubulares quadrados e soldados, enquanto a Ibero propunha o uso dos eixos redondos e sem solda. De acordo com o CEO, tecnicamente, os eixos redondos e sem solda eram superiores a de seus clientes, no entanto sua empresa teria de enfrentar o desafio de mudar uma cultura mercadológica. E assim o fez.

Aos poucos, o objetivo da empresa vinha se concretizando: o de mudar o mindset de seus clientes, propondo inovações e alternativas para seus caminhões. “Após muito trabalho árduo, conseguimos consolidar o nome da Ibero no mercado. Com 22 anos de vida, a empresa já é reconhecida como referência e solução para o mercado de implementos rodoviários”, comenta orgulhoso.

De acordo com dados apurados pelo Relatório Executivo do Plano Nacional de Logística 2025, aproximadamente 65% do transporte de cargas brasileiro utiliza de rodovias para locomoção. O TRC (Transporte Rodoviário de Cargas) representa, para a economia brasileira, 6% do PIB, representando, também, 60% da matriz nacional.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (ANFIR) revelou, em 2018, que o setor teve alta registrada de 49% no volume de emplacamento de novos produtos, com 79% na linha de cargas pesadas e 28% nas leves. “O mercado de implementos rodoviários no Brasil se torna cada vez mais importante pois é através desses implementos que transportamos nossa economia: grãos, celulose, carnes, construção civil etc. A que mais vem ganhando destaque é a agroindústria, e, como modal rodoviário, enxergamos um mercado rico e fértil”, afirma Ronaldo.

Rumo à falência

Apesar de tudo, a partir de 2014, a Ibero começava a rumar à falência. “O mercado começou a sentir o efeito Dilma Rousseff. De 2011 a 2014, as taxas deflacionárias e os financiamentos sem limites se tornaram um problema. Por conta do fácil financiamento dos automóveis, era possível comprar um caminhão para ser pago em 5 anos com juros de 3% ao ano. Era o dinheiro mais barato que havia no mercado”, relata.

Com isto, vendeu-se muito. Empresas tinham seus pátios repletos de caminhões e implementos, porém não havia serviço o suficiente para tanto maquinário. De acordo com o empresário, o mercado começou a se deteriorar, registrando, até 2019, queda de 70% de volume de vendas. “Três grandes clientes que atendíamos pediram recuperação judicial. Nosso faturamento caiu em 70% e perdemos R$ 16,5 milhões na época, nos obrigando a dispensar cerca de 200 de nossos funcionários. Total colapso”, admite.

No entanto, desistir nunca esteve nos planos de Ronaldo. Depois de reunir seus fornecedores e expor a real situação pela qual a Ibero estava tendo de enfrentar, retirou que não deviam por conta de má gestão, evidenciando as causas que levaram a empresa àquela intempérie. “Não tínhamos mais dinheiro e não teríamos como pagá-los. Sugeri, então, para que a dívida fosse congelada até o momento em que a empresa voltasse a gerar caixa”.

“Após vendermos um imóvel que pertencia a mim e a meu sócio, emprestamos à empresa e começamos a comprar à vista de nossos fornecedores”, continua, “E a mesma coisa fizemos com nossas dívidas com os bancos: congelamos e acertamos logo em seguida os pagamentos”, completa. Ao final do ano de 2019, a Ibero havia pago 100% de todas as suas dívidas.

A ressurreição

O empresário, entretanto, não se manteve estagnado. Entre os anos de 2016 e 2018, Ronaldo percebeu uma oportunidade: adquiriu outras empresas que estavam passando pela mesma situação que a dele, de recuperação fiscal. “Eu havia passado por um processo de turn-around na Ibero e acabei tendo expertise para tocar empresas com dificuldades financeiras, desta forma, quando assumi essas empresas, iniciamos de imediato o processo de recuperação e, quando o mercado começou a voltar, em 2019, já estávamos prontos para assumir o crescimento”, relata Linero.

Num período de 2 anos, Ronaldo fez a compra de 4 empresas. Mesmo que buscasse empresas que dialogassem com os produtos da Ibero, aumentar o portfólio da empresa foi inevitável: o mercado estava tão ruim que a única solução plausível para a Ibero aumentar seu faturamento era aumentar seu catálogo de produtos. “Foi neste momento em que comecei a agregar novos produtos e novas empresas ao grupo, formando, por conseguinte, a Ibero Group”, finaliza.

Publicado por
Rafael Brusque - Blog do Caminhoneiro

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