J. Pedro Correa – Velocidade fatal

O que o mundo ignorava e foi um dos pontos altos deste trabalho da Lancet, é uma revelação espantosa: se estes fatores de riscos fossem devidamente atacados, o mundo poderia salvar mais de 500.000 mil vidas em apenas num ano com redução de sinistros. Se controlasse apenas a velocidade, o número de vidas poupadas seria de 347.258. Inacreditável que sejamos tão inconsequentes (ou irresponsáveis?)!
No Brasil o problema do excesso de velocidade nos faz arrepiar: analisando dados da Polícia Rodoviária Federal vimos que durante a 1ª Década Mundial de Trânsito, só nas rodovias sob sua jurisdição, mais de 24 milhões de infrações foram cometidas pelos motoristas brasileiros. Para quem imaginava que a 2ª Década seria melhor, a PRF registrou em 2021 um total de 2.626.535 infrações, o que significa que não começamos bem esta década.
O que nos faz tão inconsequentes, irresponsáveis ou insensíveis nas nossas estradas? Não há descoberta alguma em apontar algumas razões, a começar pela falta de cultura de segurança e de educação para o trânsito. Em seguida, está a (quase) certeza da impunidade, a esperança de que não seremos pegos pela polícia excedendo a velocidade e finalmente, a constatação de que temos uma fiscalização pobre e que não tem dado conta do recado neste quesito. Por isto, os abusos.
Tudo bem que este não é um problema exclusivo dos brasileiros – o mundo inteiro enfrenta o mesmo problema – a reportagem da Lancet expõe isto com clareza. O que chama a atenção é a inexistência de um programa nacional para controle da velocidade, comandado em nível nacional, aplicado nos estados pelos órgãos de trânsito e seguido pelos municípios pelos mecanismos disponíveis.
Vai aumentar a gritaria contra a indústria da multa? Ao inferno aqueles que protestam pois se não conseguem se sensibilizar com a morte de mais de 30 mil pessoas só no Brasil, não têm o direito de gritar contra o absurdo do desrespeito às normas de trânsito! Se só nas rodovias federais, sob monitoramento da PRF, foram mais de 24 milhões de infrações registradas, imaginem quantas ocorrências escaparam dos registros e quantas mais foram cometidas nas outras rodovias do país!
Quando se pergunta até onde a sociedade vai suportar estes abusos, a resposta correta parece ser a de que “até ela, sociedade, se sentir asfixiada, iniciar um amplo movimento e dar um basta a estas contravenções”. Quando a opinião pública se sente desafiada e resolve enfrentar o desafio para valer, o jogo muda de lado, políticos e lideranças passam a alterar suas opiniões e posicionamento e os abusos começam a diminuir. Obviamente que um movimento desta dimensão precisará ser provocado por uma liderança, apoiado por um bem concebido programa de comunicação, envolvendo toda a sociedade com campanhas de propaganda, eventos diversos, debates nas escolas, universidades, empresas, entidades e tudo o mais que puder englobar segmentos da sociedade.
Se políticos e autoridades que gerem o nosso trânsito não foram capazes de perceber esta necessidade de dar um basta a este estado de coisas, que enfrentem, mais tarde o repúdio da sociedade pela falta de sensibilidade há tanto tempo.
Tivesse o nosso povo mais rigor na hora de votar, exigindo a coisa certa desde o sempre, certamente teríamos uma administração do trânsito muito diferente do que vemos hoje e muito mais próxima do que precisaremos amanhã.
É vital que a sociedade desperte para o uso correto dos seus direitos e passe a exigir ajustes indispensáveis no cumprimento das regras do trânsito e que não perdoe aqueles que as infringem, bem como aqueles que fingem que não percebem e são coniventes com estas criminosas omissões. O Brasil precisa acertar o passo no caminho do grande destino.
J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
jpedro@jpccommunication.com.br
