J. Pedro Correa – Salve a criança!

por J. Pedro Correa

Se você entendeu o título deste artigo como um cumprimento cordial às nossas crianças pela passagem do seu dia, 12 de outubro, que acabamos de comemorar, parabéns, você está certo. Afinal, elas são o futuro da Nação e por isto e por muito mais merecem todo o nosso respeito.

Contudo, se você entendeu o mesmo título como um alerta para ajudar a salvar nossas crianças dos perigos do trânsito, você está mais do que certo pois, afinal, elas correm sérios riscos e nós, adultos, temos toda a obrigação de zelar pela sua segurança.

Datas comemorativas do calendário brasileiro, para mim, servem para olhar com mais profundidade o seu significado e, talvez melhor ainda, para ressignificá-las, procurando novos sentidos e novas mensagens. Possivelmente esta seja a melhor forma de sentirmos o Dia da Criança e fazer uma análise mais detalhada do que ela significa além de uma nova oportunidade para o comércio vender mais brinquedos.

Desde que entrei neste complexo mundo do trânsito sempre ouço que uma boa cidade para as crianças é uma cidade melhor para todos. Parece verdade. Contudo, também é verdade que as cidades em geral não são tão boas para as crianças quanto dizem. Falta um plano efetivo de segurança no trânsito, um plano eficaz de educação para o trânsito, as calçadas são perigosas quando não existentes, há falta de faixas de pedestres (ou de manutenção) enfim, entre o discurso e a prática há uma distância muito grande.

Nada que não se soubesse há 20 ou 30 anos. Se sabemos disso e se não é por falta de recursos, por que nossas administrações municipais não conseguem oferecer minimamente um razoável plano de ação? Basta olhar o cenário da educação básica nas escolas primárias por estes grotões do país para entender este desprezo pela educação de trânsito. Quando a tv nos mostra crianças andando quilômetros a pé para chegar a uma escola rudimentar, é o suficiente para nos darmos conta de que teremos de batalhar muito ainda para chegar a um padrão digno de elevar nossas crianças ao nível de um adulto-cidadão.

Em 1979 estive na Suécia pela primeira vez e aí me dei conta do que significa igualdade social. Lá, uma amiga brasileira me contou que sua vizinha, colombiana, havia chegado da maternidade na manhã daquele dia com seu bebê. O detalhe é que a criança chegou num bercinho moisés, emprestado pela maternidade pelo período máximo de 1 ano, quando deveria ser devolvido. Este bercinho era fixado no banco do automóvel e preso ao cinto de segurança. Isto significa que, desde o primeiro minuto de vida no trânsito, a criança já estava protegida por sistemas de segurança. Algum tempo depois esta criança iria para uma creche da comunidade, no bairro em que morava, onde, com o passar dos tempos, iria fazer parte do “clube de trânsito” da creche, aprendendo a conviver com o tráfego. Este exemplo ajudar a explicar por que uma nação pode ter índices de segurança muito melhores que a maioria dos outros países.

O fato de muitas cidades brasileiras não possuírem programas de educação de trânsito se explica em parte por que não há um plano nacional de educação dedicado às crianças e, claro, pelo fato de não haver uma cobrança firme por parte da sociedade. Como a sociedade não dá tanta importância à esta disciplina, o assunto fica meio em banho maria. Mas isto custa caro à sociedade e ao país.

Ano passado, segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Datasus, do Ministério da Saúde, 860 crianças de até 14 anos morreram no trânsito brasileiro. Entre 2010 e 2022 já morreram 16.202 crianças entre 0 e 14 anos, um número inadmissível, mas que, surpreendentemente, parece não chamar a atenção das autoridades nem da população.

Diante de cenário tão absurdo como estes, vale a pergunta: “temos motivos para comemorar o dia da criança?”. Talvez conviesse mais utilizá-lo como um dia de reflexão sobre o que podemos fazer para proteger melhor nossas crianças, cuidando de como se tornarão melhores cidadãos.

Enquanto não vêm medidas concretas no plano federal, as iniciativas devem partir das cidades e das comunidades que deveriam ser as maiores interessadas no assunto. Levantar a situação da educação para o trânsito nas escolas, nas creches, nos sindicatos, nas empresas industriais, comerciais e de serviços, é uma obrigação cívica da sociedade. Exigir das autoridades – vereadores, secretários municipais, prefeitos – e mesmo de lideranças locais, é ato absolutamente legítimo de qualquer cidadão.

Para ser uma sociedade mais justa e mais participativa, é preciso também marcar presença nos movimentos sociais que objetivem o desenvolvimento da cidade e de seus cidadãos. Se as lideranças locais não tomarem a iniciativa, cabe a nós, cidadãos, fazê-lo.

J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
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