HISTÓRIA DA ESTRADA – A REVOLTA DOS VETERANOS

Imagem de Google Gemini

Um grupo de cinco amigos.
Carreteiros com muitas histórias.
Hipertensão e diabetes maior dos perigos.
Conversavam lembrando momentos de glórias.

Cada um tinha seu caminhão.
Não dirigiam, mas recusaram-se a vender.
Com eles tantos anos ganharam o pão.
E caminhão velho quem iria querer.

Antônio, Pedro, Luiz, José e João.
Senhores com mais de setenta anos.
Todos com mais de trinta ao volante de caminhão.
Passar o tempo e esperar a morte, eram os planos.

Eis que um dos amigos, o Pedro.
Ficou doente e logo faleceu.
A morte chegaria logo, não era segredo.
Após o sepultamento, João disse: “Já deu. ”

“Não vou ficar na praça jogando dominó.
“Esperando ser o próximo a ir para o céu”.
“Pessoas que passam por nós sentem dó”.
“Quando morrer, será desempenhado meu papel”.

Os demais amigos sem entender.
Perguntaram qual a ideia de João.
O velho carreteiro fez pausa antes de dizer.
“Vou voltar para a estrada dirigir caminhão”.

Seus amigos pensaram, a princípio.
Que João devia ter ficado louco.
Se insistisse com isso iria para o hospício.
Disse: “Terminar assim não quero nem um pouco”.

Aquele velho carreteiro estava decidido.
Iria para estrada com ou sem os amigos.
Não iria esperar pela morte ser recolhido.
Boleia do caminhão era o melhor dos jazigos.

Todos tinham dinheiro guardado.
Quase nada usavam da aposentadoria.
Remédios, pelo governo era dado.
Dinheiro guardado de que adiantaria?

Falando assim com determinação.
Um a um dos amigos foram convencidos.
Só de pensarem em voltar a dirigir caminhão.
Alguns estavam emocionados e comovidos.

Nem ousaram contar a família.
Certamente os filhos não iam permitir.
Todos tinham, ou filho ou filha.
Jamais os deixariam de ali sair.

Cada um pegou seu caminhão.
Mandou-os para a oficina.
Após tantos anos sem manutenção.
Poeira e ferrugem formavam cortina.

Antônio tinha um Scania Jacaré.
Quantas viagens fez com o bruto.
Volvo XHT era o cavalo do José.
De muito trabalho o estradeiro fora fruto.

O Fiat cento e noventa do Luiz.
Um cavalo mecânico de respeito.
João também se sentia feliz.
Mercedes quinze e vinte, cabine leito.

Todos os cavalos mecânicos trucados.
De suas marcas, representantes dignos.
Em suas épocas, foram admirados.
Preparativos para eles já foram benignos.

Prepararam tudo na surdina.
Combinaram assim para dar certo.
Entre os amigos, a sintonia era fina.
Reuniam-se e se mantinham perto.

Quando os estradeiros ficaram prontos.
A emoção e o medo tomaram conta.
De alegria, sentiam-se meio tontos.
Cada um, sua realidade confronta.

Só contariam para os familiares.
Quando estivessem na estrada.
Sairiam com os estradeiros, dois pares.
Conseguiriam cumprir essa jornada.

Ainda tinham bons Contatos.
Transportadores sexagenários.
No transporte, sempre honraram contratos.
Foram profissionais extraordinários.

Até por isso havia inconformismo.
Na condição que o tempo a eles impôs.
Entre eles era grande o otimismo.
Uma mudança de atitude, João propôs.

De suas casas saíram bem cedo.
Conseguiram fretes após muita insistência.
Empresário amigo, de dar carga estava com medo.
Carreteiros apelaram para a amizade e consciência.

Quatro semirreboques baús carregados.
Foram destinados aos velhos motoristas.
Atrelaram a seus cavalos, já bem usados.
Com que alegria voltaram as pistas.

O João ia à frente no Mercedes.
Como era bom dirigir novamente.
Da estrada e do volante somaram as sedes.
Difícil dizer quem estava mais contente.

Destino da viagem era Goiânia.
Epopeia que viviam, eu me comovo.
Antônio guiava feliz seu Scania.
Luiz não se continha em seu Volvo.

Aqueles quatro cavalos antigos.
Não tinham como não chamar atenção.
Nas paradas, os quatro amigos.
Sabiam que os brutos eram atração.

Vendo aqueles antigos caminhões.
Jovens motoristas quiseram se impor.
Na estrada se achavam os campeões.
Com os veteranos resolveram se indispor.

Ultrapassaram e começaram a segurar.
Tentando tirar dos veteranos a paciência.
Mas o importante para eles era continuar.
Não seriam agressivos, apelar para violência.

Tantos anos de experiência.
Dirigiam conforme a cartilha.
Respeitavam limitação da potência.
Vencendo cada quilômetro, cada milha.

Descendo perigosa e longa serra.
Na falta de freio motor, marcha pesada.
Carreteiro inteligente, decisão não erra.
Segurança para eles era sagrada.

Os jovens motoristas desciam embalados.
Tinham freio motor, mas não faziam uso.
Não pareciam sóbrios, estavam alucinados.
Naquele trecho perigoso cometiam abuso.

Freios sobrecarregados, aquecimento.
Juntou o calor e baixa refrigeração.
Fumaça, incêndio em um momento.
Não tinha o que fazer naquela situação.

Outros motoristas não pararam.
Deixaram o colega se virar sozinho.
Descendo em velocidade continuaram.
Logo, mais um ficaria pelo caminho.

Aquela serra tinha má fama.
Descer depressa era suicídio.
Outro jovem carreteiro viveu um drama.
Carreta tombada se transformou em presídio.

Os veteranos levavam grandes extintores.
A lei de trânsito não exigia mais esse item.
Eram precavidos aqueles senhores.
Levar por segurança acharam por bem.

Os quatro param e o incêndio aumenta.
Abraçam aqueles cilindros vermelhos.
Borrachas dos pneus ao fogo alimenta.
Colocam-se lado a lado parelhos.

Acionam os extintores sobre o fogo.
Esse se extingue e a carreta é salva
Tiram aquele motorista do sufoco.
Antônio limpa suor da fronte calva.

O rapaz agradecido e envergonhado.
Elogia a atitude daqueles heróis.
João toma a frente, todo empertigado.
“Antes de vocês, quem dominava éramos nós”

Subiram a bordo de seus estradeiros.
Mal rodaram três quilômetros e meio.
Carreta tombada; jovens e seus destemperos.
Abusaram na serra e o castigo veio.

Preso na cabine em meio as ferragens.
O jovem motorista talvez não resistiria.
Na estrada, há risco em todas as viagens.
Mas os moleques exageravam na ousadia.

Pararam novamente para tentar ajudar.
Socorro ainda não havia chegado.
Bombeiros e socorristas teriam de esperar.
Mas o fogo acabou por ter se manifestado.

Vazou óleo e o incêndio teve início.
Se nada fizessem, rapaz morreria carbonizado.
Chegada do socorro não havia indício.
Tinham de agir ou o fato seria consumado.

João desengatou o cavalo.
Deixou semirreboque na pista.
Até ali próximo iria levá-lo.
Tentar salvar o jovem motorista.

Amarrou corda na porta emperrada.
Chamou o Mercedes Benz no acelerador.
Com violência ela foi arrancada.
O rapaz gemia e gritava de dor.

Não tinha mais os extintores
Precisavam tirá-lo com cuidado.
O motorista estava cheio de dores.
Internamente poderia estar machucado.

Tiraram-no com esforço e muito jeito.
Motorista tinha enorme pança.
No volante bateu o peito.
Não usava o cinto de segurança.

Deixaram-no deitado no chão.
Chegou o Corpo de Bombeiros.
Fizeram adequada imobilização.
Mais uma boa ação dos carreteiros.

Finalmente adentraram Goiânia.
Os quatro se ajudando e dando apoio.
Liderados pelo Mercedes, logo atrás o Scania.
Volvo e Fiat fechavam o pequeno comboio.

Ao chegarem no destino da carga.
O semirreboque baú foi aberto.
Lembrando que não andavam com sobrecarga.
Tinham consciência que fizeram tudo certo.

O carregamento foi entregue.
Receberam o pagamento justo.
Uma grande epopeia não há quem negue.
No trajeto levaram algum susto.

Pegaram alguns fretes antes de retornar.
Ouviram muitos nãos de transportadores.
Pediam apenas que neles pudessem confiar.
Sabiam que a vida na estrada não eram só flores.

Quando retornaram a seus lares.
As famílias estavam à sua procura.
Disseram-nos: “Estávamos bebendo nos bares.
Fazer aquilo que ama, qualquer doença cura.

Os filhos e filhas não entenderam assim.
Obrigaram-nos a vender os caminhões.
Para aqueles heróis da estrada foi o fim.
O que os mantinha vivos eram as emoções.

Voltaram a vida de monotonia.
Por um tempo aquela viagem lembrada.
Contudo, com o passar de cada dia.
Não fazer nada, da morte foi uma cilada.

Um a um, no céu foram morar.
Certamente lá encontrariam paz.
Quem sabe, estrelas poderiam transportar.
Dirigindo cavalos mecânicos celestiais.

Autor: Roberto Dias Alvares

Publicado por
Roberto Dias Alvares

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