Artigo: Contaminação no sistema pneumático de freios: um risco silencioso de falha

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Artigo de Eng Rubem Penteado de Melo: Todo eixo com suspensor (chamado de “12 horas” pelo motorista: porque “volta levantado”, enquanto o outro, sem o suspensor, roda no asfalto as “24 horas”) tem uma válvula de bloqueio, chamada de “3/2 vias”.

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Posição atual da válvula de bloqueio 3/2 vias

A finalidade dela é bloquear a passagem de ar comprimido para as câmaras de freio (“cuícas”) do eixo cujo suspensor está acionado. Ou seja, bloquear o acionamento do freio quando o eixo está levantado, de modo a evitar que ocorra o travamento das rodas e a possibilidade de danos (“lixamento”) dos pneus na passagem por um obstáculo, como uma lombada por exemplo.

Antes da obrigatoriedade do uso do freio ABS, a válvula de descarga rápida (quick release valve), que permite a exaustão do ar na desaplicação do freio, estava posicionada entre a cuíca e essa válvula de bloqueio 3/2 Vias. Desse modo, os eventuais problemas de funcionamento por contaminação excessiva na válvula 3/2 Vias do suspensor podiam gerar apenas 2 tipos de falhas diferentes:

Falha 1: manter-se fechada sempre, ou seja, manter o eixo com freio isolado (sem atuação do freio) no retorno à condição de viagem, quando o suspensor do eixo foi desaplicado. O resultado é a redução proporcional da eficiência na frenagem do veículo.

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Válvula 3/2 vias permanentemente fechada: eixo “12 horas” no asfalto mas sem atuação do freio

– Falha 2: manter-se aberta sempre, ou seja, manter o eixo suspenso ainda com atuação da pressão de ar quando acionado o freio. Nesse caso, o resultado esperado é o travamento das rodas do eixo levantado, podendo “lixar” os pneus na passagem por uma lombada, por exemplo.

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Válvula 3/2 vias permanentemente aberta: possibilidade de “lixar” os pneus do eixo “12 horas” nas lombadas

Assim, antes do ABS, a válvula de descarga rápida estava posicionada próxima ao eixo ( no “12 horas“), entre a cuíca e a válvula de bloqueio 3/2 vias. Ou seja, as falhas na válvula de bloqueio não afetavam a exaustão do ar das cuícas, após a liberação do pedal de freio.

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Montagem anterior ao ABS: válvula de descarga rápida (de exaustão) próxima à cuíca

A antiga válvula de descarga rápida, instalada próxima à cuíca, tornou-se inviável em sistemas equipados com ABS devido à sua incompatibilidade funcional com a atuação cíclica do sistema. No circuito anterior, a pressão era exaustada localmente, de forma instantânea e não controlada, promovendo a exaustão simultânea em todas as rodas, o que retiraria do ABS a capacidade de modulação fina da pressão. A permanência dessa válvula comprometeria diretamente o controle do travamento das rodas, interferindo negativamente na estabilidade do veículo. Por esse motivo, a válvula de descarga rápida foi eliminada do circuito de serviço.

Então, com a obrigatoriedade do ABS a partir de 2014, passou a existir, de origem, um acréscimo de “perda de carga*” no processo de exaustão do ar após a desaplicação do freio, decorrente de dois fatores:

  • Perda de carga associada à restrição interna da válvula 3/2 vias, pela qual o ar exaurido precisa obrigatoriamente escoar (no eixo “12 horas”);
  • Perda de carga associada ao aumento do volume e do comprimento da tubulação de exaustão: antes do ABS, a exaustão ocorria diretamente no flexível do freio; após a introdução do ABS, a exaustão passa a envolver: o flexível + toda a tubulação até a saída da exaustão pela Moduladora do ABS (para todos os eixos).
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* Perdas de carga são restrições causadas pelo atrito do escoamento do ar nas tubulações e nas passagens por conexões e válvulas.

Dessa forma, considerando esse aumento intrínseco no tempo de exaustão do sistema, torna-se determinante, nos procedimentos de manutenção, a verificação rigorosa das condições desses componentes do circuito pneumático. A contaminação interna, mesmo parcial, pode agravar significativamente o atraso na exaustão.

A seguir, apresenta-se um exemplo de válvula 3/2 Vias com contaminação severa:

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Válvula de Bloqueio 3/2 Vias danificada por contaminação severa

Essas alterações no circuito pneumático passaram a exigir maior rigor na manutenção da válvula de bloqueio 3/2 vias, uma vez que contaminações internas severas podem provocar retardo excessivo na exaustão do ar e, como consequência, superaquecimento do sistema de freio.

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Entre os procedimentos preventivos, a drenagem periódica dos reservatórios de ar pelo motorista assume papel fundamental. Esses reservatórios acumulam, de forma natural, água condensada que, quando associada a poeira ou óleo proveniente do compressor, favorece a formação de contaminantes capazes de restringir parcial ou totalmente a passagem do ar durante a exaustão.

E por que a antiga válvula de descarga rápida não pode ser reinstalada? Porque sua utilização compromete o funcionamento correto do sistema ABS, caracterizando modificação indevida de item de segurança do veículo, em desacordo com o Art. 98 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Nesse contexto, a desmontagem, inspeção, limpeza, lubrificação e teste funcional da válvula de bloqueio 3/2 vias tornam-se procedimentos indispensáveis. A negligência nessas etapas pode resultar em atraso na desaplicação do freio, mantendo as lonas em contato com o tambor por tempo excessivo e elevando significativamente o risco de superaquecimento do conjunto.

Atenção especial a esse “detalhe“, cuja importância aumentou com a implantação do ABS.

Artigo de Eng Rubem Penteado de Melo, DSc. Doutorado | Pontifícia Universidade Católica do Paraná

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Rafael Brusque - Blog do Caminhoneiro

Nascido e criado na margem de uma importante rodovia paranaense, apaixonado por caminhões e por tudo movido a diesel.

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