Enquanto esperava para descarregar.
Bernardo andava pelas docas do porto.
Era noite, a lua nova, no céu a iluminar.
Em pensamentos e lembranças absorto.
Sua carreta parada a certa distância.
Há dez anos Bernardo era carreteiro.
Solteiro, homem com sensatez e tolerância.
Tinha orgulho em ser brasileiro.
Sabia de seu lugar na sociedade.
E como daria sua contribuição.
Com o próximo mostrava solidariedade.
Não era apenas motorista de caminhão.
Sem dinheiro para comprar caminhão zero.
Cuidava bem de seu estradeiro usado.
Ao conversar, não mentia, era sincero.
Dirigia bonito cavalo mecânico trucado.
Mercedes Benz trezentos e trinta e um.
Caixa seca e volante queixo duro.
Motorista Nutella não dirigiria de modo algum.
Se tentasse, certamente estaria em apuro.
Para Bernardo, brincadeira de criança.
Do caminhão, conhecia todas as manhas.
Puxava quinze toneladas na balança.
Viveu na estrada muitas façanhas.
Levando e trazendo contêineres.
Também puxou carga de café.
Semirreboque baú, artigos sui generis.
Transportou combustíveis até.
Enquanto andava pelo calçamento.
Viu um homem sendo agressivo.
Mulher chorava, transmitia sofrimento.
O indivíduo se mostrava possessivo.
Ela dizia que não queria com ele ficar.
O homem a arrastava para um caminhão.
Ele a obrigava a bordo entrar.
Ela implorava dizendo que não.
Bernardo se aproximou sorrateiro.
Perguntou o que estava acontecendo.
O outro homem era um caminhoneiro.
A jovem parecia estar tremendo.
O homem disse a Bernardo.
Que aquilo não lhe dizia respeito.
A mulher parecia carregar um fardo.
Pelo carreteiro isso não seria aceito.
A mulher era jovem e delicada.
Chorava mostrando estar infeliz.
Disse que da vida não esperava nada.
A mãe a obrigou a ser meretriz.
Era sua primeira vez naquele lugar.
Não queria vender seu corpo.
Por dinheiro não aceitaria se dar.
Homens famintos por sexo no porto.
Aquele homem de modo selvagem.
Iria obrigá-la a com ele fazer sexo.
Abusar da menina, teria coragem.
Pessoa ignorante e sem nenhum nexo.
Comoveu o coração de Bernardo.
O caminhoneiro esbofeteou a menina.
O rapaz saldou sobre ele como leopardo.
Parecia ter incorporado alma felina.
O homem nem soube dizer.
Qual caminhão o atropelou.
Onde estava, nada pode fazer.
Que fosse embora, Bernardo falou.
Aquele caminhoneiro truculento.
Percebeu que não dava para encarar.
Era grande, mas gordo e lento.
Com Bernardo, vantagem não ia levar.
Bernardo foi até a menina.
Levantou-a com carinho pela mão.
Ela se apresentou como Catarina.
Rapaz deu a ela toda a atenção.
Catarina era muito bonita.
Bernardo parecia sem ação.
Cabelo amarrado com uma fita.
Sua beleza não tinha comparação.
Catarina não podia voltar ao lar.
Sua mãe iria castiga-la certamente.
No porto ela teria que trabalhar.
Precisava fugir urgentemente.
Catarina pedia a Bernardo ajuda.
O carreteiro pareceu indeciso.
A jovem o olhava, estava muda.
Ele disse que faria o que fosse preciso.
O carreteiro pediu a Catarina.
Que teria de nele confiar.
Até a carreta levou a menina.
Pediu para a jovem entrar.
Catarina estava desconfiada.
Mesmo assim atendeu o pedido.
Sentia-se só e desamparada.
Bernardo acariciou seu rosto sofrido.
Ele pediu para que Catarina dormisse.
Ele dormiria na rede lá fora.
Surpresa no rosto dela quem visse.
Lágrimas rolaram de seu rosto na hora.
Ela chorava por estar emocionada.
A muito tempo não era tratada assim.
Aquela atitude deixou-a reconfortada.
Dormiu na cama-leito por fim.
Debaixo do semirreboque, a rede pendurada.
Deitou nela olhando as estrelas e a lua.
Por que se envolveu naquela enrascada?
A jovem não era responsabilidade sua.
Enquanto se balançava na rede
Bernardo pensava no que faria.
Dormiria ao ar livre sem nenhuma parede.
Que atitude o carreteiro tomaria?
Ao acordar e seus olhos abrir.
Viu Catarina a sua frente.
Ela olhava o carreteiro dormir.
O que passava por sua mente?
Ela não tinha nem um parente.
Além de sua mãe que a explorava.
Queria levar uma vida decente.
Ir embora dali desejava.
A carreta foi chamada para descarregar.
Bernardo manobrou, a seu lado Catarina.
Após aquele contêiner o guindaste retirar.
Outro foi colocado com produtos da China.
Bernardo olhou nos olhos de Catarina.
Iria com a mãe da jovem conversar.
Não levaria ela embora na surdina.
Nem deixaria mais ninguém a explorar.
A menina não podia acreditar.
Encontrara alguém que a defenderia.
Com sua mãe não queria mais ficar.
Se ele quisesse, com o carreteiro partiria.
A carreta ficou no porto, nas proximidades.
Foram de táxi até a casa onde morava.
Era uma favela, igual em todas as cidades.
Sua mãe, sem se preocupar ali estava.
Bernardo bateu na porta.
Veio até ele uma senhora.
Ele disse: “com sua filha não se importa”?
“Vou levar Catarina embora”.
A mulher, paralisada não disse uma palavra.
Bernardo falou usando de autoridade.
Não adiantaria brigar ou ficar brava.
Se tentasse impedi-lo, denunciaria essa atrocidade.
A mulher falou para Catarina.
“Se você for não volte nunca mais”.
A jovem lamentou sua sina.
Não se prostituiria jamais.
Ela era responsabilidade dele agora.
Assumira isso quando decidiu defendê-la.
A bordo do Mercedes Benz, ela foi embora.
Não entendia, mas estava feliz por conhecê-la.
As viagens se tornaram mais prazerosas.
Ela não queria ser para Bernardo um peso.
Nas paradas ela preparava comidas deliciosas.
Sentimento entre ambos ficou nítido e aceso.
Bernardo a respeitava integralmente.
Ele dormia fora e ela ficava a bordo.
Catarina não achava justo somente.
“Você dormir ao relento não concordo”.
Certa noite a chuva caiu intensa.
Ela disse para que ele ficasse na cabina.
A jovem tinha uma confiança imensa.
Ele não abusaria da bela Catarina.
O banco do caminhão desajeitado.
Bernardo não se acomodaria direito.
Ela pediu que ele dormisse a seu lado.
A jovem se aconchegou em seu peito.
Dormiram a noite toda abraçados.
Um cobertor os manteve aquecidos.
Não admitiam que estavam apaixonados.
O amor embriagara seus sentidos.
A partir daquela noite chuvosa.
As noites passaram a ter outro gosto.
Catarina era decidida e corajosa.
Bernardo acariciava seu rosto.
Não suportando mais sufocar o amor.
Finalmente se entregaram ao prazer.
Foi tanto carinho debaixo do cobertor.
Para sempre ele a queria ter.
Em uma viagem ao porto.
O Mercedes Benz rodava suave.
Aquele caminhoneiro de caráter torto.
Protagonizou uma situação grave.
Viu a carreta de Bernardo no local.
A jovem ainda estava com o rapaz.
Tinha o coração voltado para o mal.
De ato extremo era bem capaz.
Enquanto esperava para descarregar.
Bernardo e Catarina estavam juntos.
O caminhoneiro malvado a vigiar.
O casal falava de vários assuntos.
Bernardo se afastou para resolver algo.
Catarina ficou no pátio a esperá-lo.
O rapaz era educado como um fidalgo.
O caminhoneiro na espreita queria matá-lo.
Aquele ser desprezível e violento.
Parecendo predador que ataca.
Achegou-se de Catarina em um momento
Ameaçou-a segurando uma faca.
Disse que se ela gritasse por socorro.
Ele a mataria sem nenhuma piedade.
A jovem com coragem disse: “pois eu morro”.
“Mas não abro mão da minha dignidade”.
O homem estendeu a mão para golpeá-la.
Catarina afastou-se e caiu ao chão.
Aquele caminhoneiro queria matá-la.
Por ser desprezado, não daria o perdão.
Como um hipopótamo veio sobre ela.
Mas não conseguiu completar a agressão.
Bernardo veio em socorro dela.
Saltou sobre o agressor como um leão.
Seguiu-se violenta e encarniçada luta.
O homem dominado pelo ódio e inveja.
Grande e pesada massa bruta.
Parecia serpente venenosa que rasteja.
Bernardo tinha jogo de cintura.
Para longe, o caminhoneiro lhe empurra.
Mas o rapaz encara a parada dura.
Desvia da agressão e ao valentão esmurra.
Outros caminhoneiros ouvindo barulho.
Vieram e presenciaram aquela briga.
Por brigar, Bernardo não tinha orgulho.
Braço do agressor parecia uma viga.
Os caminhoneiros, ali perto.
Ficaram assistindo a luta.
Não queriam saber quem estava certo.
Era diversão para o stress da labuta.
O homem mal empunhou a faca.
Bernardo o imobilizou com rapidez.
Quem era atacado agora ataca.
O rapaz conseguiu vencê-lo outra vez.
A polícia foi chamada ao local.
Levaram algemado o brigão.
Bernardo e Catarina teriam paz afinal.
Ambos estavam presos pela paixão.
O Mercedes Benz ano sessenta e quatro.
Por todo o País, carregado ainda roda.
Por ter conhecido Catarina, Bernardo é grato.
Seu cavalo mecânico é o caminhão da moda.
Seu estradeiro arrumado, ficou filé.
Nunca é demais ter mais conforto.
Bernardo continua levando carga de café.
E transportando contêineres ao porto.
Catarina agora fica em casa.
Cuida dos filhos que o casal tem.
Na estrada, Bernardo arrasa.
Chama a atenção seu Mercedes Benz.
O cavalo mecânico parece zero.
Bernardo cuida bem de seu ganha-pão.
Continua sendo um sujeito sincero.
Tem orgulho de sua profissão.
Autor: Roberto Dias Alvares
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