O MÉDICO CAMINHONEIRO – Mercedes Benz 1935 6×2

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João Henrique fez medicina.
De seu pai foi imposição.
Sentia que esta não era sua sina.
Vivia angustiado seu coração.

A alguns anos clinicava
mas não sentia-se realizado
Com a estrada ele sonhava,
dirigindo caminhão turbinado.

Era um sonho de criança
que acabou não concretizado
Mas ainda tinha esperança
de comprar o seu trucado.

Comprou um cavalo trucado
Mercedes dezenove trinta e cinco.
Um motorista foi contratado.
Na medicina continuou com afinco.

Eis que o filho de um juiz
chegou ao hospital acidentado
O jovem chamava-se Assis.
Estava muito machucado.

Sofrera grave acidente,
tirando racha com sua Picape.
Por essa atitude imprudente
da morte não teria escape.

Na Unidade de Terapia Intensiva
Doutor João Henrique todo dia
mantinha cuidado e vigilância ativa.
Paciente pegou uma pneumonia.

Doutor João Henrique
fez tudo que era possível.
No hospital com sua equipe
lutou contra bactéria invencível.

O rapaz acabou morrendo
e seu pai, juiz de direito,
achar um culpado, querendo,
contra o Doutor o mal foi feito.

Doutor João Henrique, bom médico
agira com coragem e competência.
Provou ter sido correto e ético.
No Conselho, declarada sua inocência.

Pela medicina grande desgosto.
Pela morte do rapaz, decepção.
Largou o consultório e o Posto.
Agora, seguiria seu coração.

Nos finais de semana Doutor João
quando o caminhão não viajava,
No volante momento de emoção,
pela rodovia ele passeava.

Mas tudo agora era diferente.
Iria encarar situação nova.
Dirigindo seu Mercedes potente
paixão e persistência, poria a prova.

O único vínculo com a medicina,
mala de primeiros socorros levava.
Encararia sol, chuva e neblina,
mas a liberdade compensava.

Na sua primeira viagem
levando eletrodoméstico,
João Henrique com coragem.
O carreteiro substituía o médico.

Fazendo condução cuidadosa
na estrada foi pegando o jeito.
Levando uma carga valiosa,
Descansava na cama-leito.

Seu Mercedes Benz parrudo
era também muito confiável.
Nele, transportaria de tudo,
e qualquer caminho era viável.

De alguns dias a duração
a viagem foi tranqüila.
Comportou-se bem seu caminhão.
Para descarregar, pequena fila.

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Como não tinha preferência
e carregaria para qualquer lugar.
Apesar de sua paciência,
logo, carga conseguiu achar.

Com aumento da rodagem
João Henrique foi se soltando.
Confiante a cada viagem.
A um novo lugar chegando.

Em uma parada de caminhoneiro,
na cabine que era seu quarto,
um homem corria em desespero.
A mulher entrara em trabalho de parto.

Estavam muito longe da cidade.
Não haveria tempo para levá-la.
João Henrique por solidariedade
àquela mulher iria ajudá-la.

Foi perguntar áquele senhor
onde a mulher estava.
Não disse que era doutor.
A ajudá-la se prontificava.

O homem estando desesperado
sentiu autoridade em que falava.
Levou João Henrique a seu trucado.
A mulher á criança já ganhava.

Levando nas mãos a maleta,
o médico carreteiro foi ao local.
Ali dentro de uma carreta
encontrou a parturiente afinal.

João Henrique pegou a tesoura,
pediu ao homem água quente e barbante.
Para ele procedimento simples fôra.
Choro estridente ouviu-se em um instante.

O homem ficou impressionado
com a tranqüilidade do rapaz.
Chamou João Henrique de lado
que disse não ser nada demais.

João Henrique, sempre prudente,
Dirigia com o mesmo padrão.
No trecho estava contente.
Feliz conduzia seu caminhão.

Correu rápido a notícia
de um médico carreteiro,
que dirigia com perícia.
Era honrado e ordeiro.

Nas paradas para fazer a refeição,
quando descobriam sua presença,
Carreteiros pediam sua opinião,
para diagnóstico de alguma doença.

João Henrique muito solícito,
com todos tinha educação.
Adquiriu um carisma explícito.
Indicava até medicação.

À ninguém fazia cobrança
afinal eram irmãos de estrada.
Sentiu nele voltar a confiança
e na medicina foi renovada.

Mais uma difícil situação
Doutor João Henrique enfrentou.
Presenciou acidente de caminhão.
Naquele exato momento chegou.

Um jovem caminhoneiro
estava ali inconsciente.
Doutor João Henrique primeiro
socorreu o rapaz rapidamente.

O caminhoneiro não respirava
e o doutor foi bem perspicaz.
Bisturi, traqueostomia realizava,
salvando a vida do rapaz.

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Ligara para a emergência
mas ficou ali dando suporte.
Fôra improviso, tinha ciência
para abrir a traquéia aquele corte.

Quando a ambulância chegou ao local
João Henrique passou diagnóstico.
O rapaz seria levado ao hospital,
de salvação aumentaria o prognóstico.

Ajudou muitos caminhoneiros.
Salvou vidas, fez parto em toda parte.
Situação difícil, viu desespero.
Socorreu carreteiro com enfarte.

A vida prepara armadilha
e sair dela é uma difícil missão.
Não fosse do caminhoneiro a filha
e ele não teria salvação.

Como médico fez sua parte.
Homem encaminhado ao hospital.
Pôs em prática, da medicina sua arte.
Salvou alguém de doença mortal.

Na estrada seguindo em frente,
João Henrique dirigia feliz
Cena triste, mais um acidente.
Ironia do destino, era aquele juiz.

O homem ferido no acidente
era aquele magistrado
que com ele não fora decente.
Injustamente o havia condenado.

Mesmo o tendo reconhecido
João Henrique agiu com retidão.
Conseguiu salvar a vida do ferido.
Mostrou bondade de coração.

Antes de ser levado pela ambulância
o magistrado ferido fez uma confissão.
Não era culpado naquela circunstância.
Ao jovem médico pedia perdão.

Com a confiança recuperada
adentrou seu potente cavalo.
João Henrique pegou a estrada.
Seu carregamento iria levá-lo.

Após fazer esta entrega,
Seu Mercedes para casa rumou.
Salvara a vida de um colega.
Desejo pela medicina voltou.

Guardou seu estradeiro
Voltou ao Posto de Saúde.
A vida de caminhoneiro,
gostosa mas também ilude.

Reabriu o consultório
e atendia com dedicação.
Voltara renovado, era notório,
mas não esqueceu do caminhão.

Nos domingos e feriados
matava saudade do volante.
Momentos na estrada, lembrados,
voltavam naquele instante.

O caminhoneiro médico,
voltara a ser o médico caminhoneiro.
Nas especialidades era eclético,
dando sua contribuição de brasileiro.

O Doutor João Henrique
voltou a sua vida normal.
Mantendo dedicação e o pique
atendendo consultório, posto e hospital.

ROBERTO DIAS ALVARES




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