Devido à situação em que o transporte no Brasil se encontra, que não é fácil para os motoristas de caminhão, principalmente autônomos, o descontentamento é grande. Diesel caro, frete baixo e outros problemas afetam muito a rentabilidade dos transportadores, e alguns alegam que trabalham com prejuízo.
Apesar de algumas medidas anunciadas, que chegaram a ser tomadas para minimizar os problemas, mas que surtiram pouco ou nenhum efeito, e o drama dos caminhoneiros continua. Com todos esses problemas na mesa, me diga: Quantas vezes neste ano você já ouviu que aconteceriam greves de caminhoneiros?
Foram diversas ocasiões, praticamente uma por mês. E agora não é diferente. Porém, nenhum movimento recebeu apoio justamente dos caminhoneiros, e o nome da categoria tem sido usado, de todos os lados, até mesmo como arma política.
No ano de 2018, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), declarou greve geral de caminhoneiros no Brasil. A diferença para todos esses movimentos anunciados recentemente foi a adesão. Milhares de caminhoneiros de todo o Brasil se colocaram ao lado da entidade, abraçando as reivindicações propostas, e, às 6 horas da manhã de segunda-feira, 21 de maio de 2018, estradas de todo o Brasil estavam fechadas.
Em poucos dias, além do crescimento da participação dos caminhoneiros na manifestação, cidades começaram a ficar desabastecidas, e logo a entidade conseguiu ter reuniões com o Governo Federal. Na época, o Presidente da República era Michel Temer.
Entre as reivindicações estavam a redução da carga tributária do diesel e estabelecimento de valores de referência para os fretes. A manifestação registrou pontos de bloqueio até o dia 31 de maio daquele ano, e algumas pautas foram atendidas.
Porém, de lá para cá, a GREVE DE CAMINHONEIROS que vai ocorrer e nunca acontece do mesmo tamanho que a de maio de 2018 continua sendo noticiada praticamente todas as semanas. Mesmo com a insatisfação dos caminhoneiros com os diversos problemas, a falta de adesão para esses movimentos faz com que o instrumento legítimo, que é a greve, passe a ser banalizado. E cada vez menos caminhoneiros vão querer aderir a esses movimentos.
Se fossem aderir, teriam que fazer uma greve por mês, e na situação que se encontram, parar o caminhão por uma semana, ou um dia que seja, é prejuízo na certa, que pode levar muitos autônomos à falência.
Um detalhe importante desses movimentos é a representação. Quantos caminhoneiros existem no Brasil? O número é superior a 1 milhão. Mas diversas entidades dizem representar centenas de milhares, milhões e outros números gigantescos, que, se forem somados, dão dez vezes mais caminhoneiros que o número real.
Se qualquer pessoa perguntar para um caminhoneiro se ele se sente representado por essa ou aquela entidade, sindicato, ou associação, ou mesmo citando nomes de “representantes dos caminhoneiros”, que sempre aparecem na mídia, a resposta poderá ser uma só: NÃO.
Isso se deve justamente ao fato de anunciarem greve para todo lado, toda hora, sem realmente terem apoio dos caminhoneiros. Falta a essas entidades sair para as estradas, ouvir os caminhoneiros, e, antes de anunciar uma paralisação, entender mais o lado do caminhoneiro.
Outro ponto que influência na negativa dos caminhoneiros de apoiarem esse ou aquele representante é que muita gente tenta usar o tamanho da categoria para se promover, principalmente politicamente. Depois da greve de 2018. muita gente ainda cita quem usou a categoria como palanque, se elegeu para esse ou aquele cargo, e depois esqueceu da classe. Ou seja, como confiar um apoio gigantesco a alguém que pode esquecer rapidamente do apoio recebido?
O valor do diesel no Brasil está lá em cima. O valor médio superou muito a marca dos R$ 5,00, e o valor não para de subir. Apesar disso, reduzir o valor do diesel com uma canetada, redução de impostos e etc. pode não ser a solução. Isso porque quem faz o preço do frete no Brasil não é o caminhoneiro, dono da ferramenta que transporta a carga, e sim o dono da carga, que oferece ao caminhoneiro um valor determinado para o frete.
Se o valor do diesel for reduzido hoje, o valor do frete é reduzido quase que automaticamente, já que o preço do transporte não está nas mãos dos caminhoneiros. E, mesmo que um caminhoneiro recuse transportar por um preço considerado baixo, outro vem e aceita a carga, como muitas vezes é exposto pelos próprios caminhoneiros nas redes sociais.
Além do preço do frete ser estabelecido pelo dono da carga, na maioria das vezes desrespeitando a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC) da ANTT, conhecida como tabela de fretes, o Brasil tem caminhões demais para cargas de menos.
Com essa oferta de caminhões maior do que o número de cargas, o mercado tende a reduzir o valor do frete. O mesmo não ocorre em países em que faltam caminhoneiros e caminhões. Só para dar um exemplo, no Porto de Los Angeles, nos Estados Unidos, haviam cerca de 16 cargas para cada caminhão há cerca de duas semanas. Isso fez o valor do frete subir muito. E o caminhoneiro recebeu mais.
Isso é o próprio mercado se regulando: caminhões de menos e carga de mais, preço sobe. Caminhões de mais e cargas de menos, preço do frete lá em baixo. Quando o número de cargas e de caminhões se estabiliza, o valor do frete também fica estável.
Se no Brasil o número de cargas para serem transportadas não subir, e se o caminhoneiro continuar aceitando o preço oferecido pelas cargas, como já dito, abaixo do valor estabelecido por lei, o problema, ou os problemas, para a categoria vão continuar. E com o passar do tempo tendem a piorar.
Além disso, o caminhoneiro precisa parar de aceitar dar carona para a carga, como diz o ditado das estradas, e saber cobrar pelo serviço que oferece, que precisa de um investimento de alto valor (a compra do caminhão, implemento, burocracia) para poder ser realizado.
Ou seja, além da greve, que realmente é um direito mas que precisa ser usado com cuidado, a mudança para o setor de transportes precisa acontecer dentro dele mesmo, sem canetada política.
Rafael Brusque – Blog do Caminhoneiro | Foto de Miguel Schincariol | AFP
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