HISTÓRIA DA ESTRADA – UM ENCONTRO ESCRITO NO CÉU

Ela era uma menina correta e descente.
Trabalhava e sonhava em se casar.
Um homem para amar e que a amasse somente.
Seguia a vida e vivia nisso a pensar.
Saía com as amigas, vez ou outra conhecia alguém.
Cada namoro uma grande decepção.
Com o passar dos anos era mais tolerante também.
Complicado os homens dessa nova geração.
Após vários namoros fracassados.
Apostou tudo no último relacionamento.
Depois de alguns meses passados.
O rapaz não dava na relação andamento.
Entre idas e vindas brigas e desentendimentos.
Chegou um momento que não deu mais.
Tantas desilusões, calejados seus sentimentos.
Agora o tempo passou e ela só queria paz.
Dedicar-se ao trabalho, era o plano.
Sua cabeça focada na vida profissional.
Difícil lidar com o tal do ser humano.
Todos os seus relacionamentos acabaram mal.
Certo dia por força do trabalho.
Teve de ir de carona até Cascavel.
O pára-brisa do caminhão úmido de orvalho.
A névoa na estrada formava um fino véu.
O motorista era da mesma idade dela.
Ele agregou seu cavalo para a empresa.
Levando na cabine menina tão bela.
A viagem seria agradável com certeza.
O velho Fiat 190 trucado, uma lenda.
Puxava um semirreboque com gás butano.
Oeste do Paraná, aquela rica senda.
Uma bomba ambulante, algo insano.
Aquela cabine, um verdadeiro luxo.
O rapaz procurou ser respeitoso.
Rodo-ar não deixava pneu ficar murcho.
Ao volante ele era bem talentoso.
A menina era representante e vendedora.
Prospectar naquela grande cidade.
A cabine, espaçosa e acolhedora.
Ela irradiava charme e felicidade.
A conversa aconteceu de forma natural.
Ele se encantou com ela de imediato.
A carreta rodava com destreza sem igual.
Fiat Iveco, ícone das estradas, de fato.
Após chegar no destino final.
O rapaz seguiria viagem.
Entregar a carga em Missal.
No tempo tinha boa vantagem.
Convidou a menina para almoçar.
Ela aceitou cear em sua companhia.
Ele ousou pedir o número de seu celular.
Ela pensou um pouco se lhe daria.
O rapaz disse que queria manter contato.
Ser seu amigo, nada demais.
Ela pensou enquanto olhava o prato.
Talvez nem o visse mais.
Deu o número do telefone celular.
O rapaz partiu feliz em sua carreta.
Naquele dia, a carga iria entregar.
Tocou a buzina, estrondosa corneta.
Enquanto a menina-mulher trabalhava.
Indo de cliente em cliente.
Pelas estradas o carreteiro rodava.
Em trechos difíceis mostrou-se valente.
Sabendo que ela retornaria na sexta feira.
O rapaz arrumou um frete saindo de Cascavel.
Carregado de móveis feitos de madeira.
Seguia firme seu cavalo, companheiro fiel.
Ligou para a bela menina que o atendeu.
Se queria carona, pois estava na cidade.
A jovem ficou contente e agradeceu.
Coincidência bem feliz na verdade.
A bordo do Fiat, cavalo imponente.
O rapaz se sentia o homem mais feliz.
Ao lado dela, sentia-se um adolescente.
Para ele, a menina era uma verdadeira miss.
Quando já ia chegando no destino.
Pediu a jovem em namoro.
Sentia-se bobo como um menino.
O coração batia em descompassado coro.
Após alguns dias convite para jantar.
Ele estava bastante apreensivo.
Queria uma chance para poder mostrar.
Que seu coração por ela batia bem vivo.
Mesmo calejada por tantos fracassos.
Sabendo que o tempo de casar era tardio.
Sentiu os corações em iguais compassos.
Nos olhos daquele rapaz, sinceridade viu.
Ela com quase quarenta anos de idade.
Ele já passara das quatro décadas de vida.
Para ela, casamento não era mais realidade.
Desistiu, depois da última vez que esteve comprometida.
Ele era um homem de muito juízo.
Não levava qualquer mulher para a cama.
Não prometia nada, já dava esse aviso.
Não queria no dia seguinte nenhum drama.
Com aquela mulher foi tudo diferente.
Se apaixonou logo de cara.
Ela tinha um olhar doce e ardente.
Sem dúvida era uma pessoa rara.
Após alguns meses de namoro.
Ela tinha um temperamento forte.
Ele não se zangava com desaforo.
Encontro deles foi obra DIVINA não sorte.
Ele viajava em sua carreta pela estrada.
Mais que trabalho, era uma terapia.
Ia e voltava com ela carregada.
Dava preferência em rodar durante o dia.
Ao chegar em casa, a esperava chegar.
Com ela era só carinho e atenção.
Viravam a noite tomando vinho e a conversar.
Amanheciam abraçados, dormindo no chão.
Certo dia estacionou seu cavalo trucado.
Máquina poderosa e impávida.
Ela o recebeu no portão, olhar emocionado.
Disse em lágrimas: “Amor estou grávida”.
Ambos choraram de alegria.
Que só foi maior quando o bebê chegou.
Amor a três mais e mais crescia.
Aquela família, DEUS abençoou.
Os anos passaram, e a idade chegou.
O bebê virou um homem formado.
Seu pai ficava em casa, se aposentou.
Era ele quem diria o FIAT trucado.
Depois de tantos anos na estrada.
Ele caiu doente e a esposa a seu lado.
Deitado na cama a saúde debilitada.
Sentia que sua hora havia chegado.
Disse para a esposa, com esforço na voz.
Ela foi a melhor coisa que lhe aconteceu.
Que a vida dele só começou após.
O dia em que ele a viu e a conheceu.
Ela disse com o coração dilacerado.
“Você sempre será o homem da minha vida”.
Ele sorriu, o filho ali chorava emocionado.
Ele respondeu: “ Meu amor, minha querida”.
Expirou suavemente, sorriso no rosto.
Mãe e filho choravam copiosamente.
Ver aquele casal era lindo, dava gosto.
Viveram um para o outro fielmente.
Uma semana depois ela também partiu.
Estava agora com seu marido no céu.
Os dois eram exemplo do amor que existiu.
Que começou na viagem para Cascavel.
Autor: Roberto Dias Álvares
