Um herói de cor vermelha e 360 cv [o 113 da família]

Muitos dizem que não há como criar vínculos ou sentimentos com algo material, e que seria ignorância por parte da pessoa ter tal sentimento por algo feito de metal, plástico entre outros materiais. Discordo totalmente destas pessoas, principalmente quando se trata de um caminhão.

Um caminhão é uma ferramenta de trabalho que pode fazer a historia de uma família ou empresa, seja ela boa ou ruim. Historias de caminhoneiros que criam afeto com suas maquinas não faltam, hoje eu vou contar a minha, a historia do nosso 113 vermelho que depois de muitos anos nos ajudando, teve um fim trágico.

Uma das poucas alterações que sofreu, tanque, retrovisor e rodas as rodas de vermelho.

Lembro que era Fevereiro de 1997 quando meu pai parou na frente de casa com aquele 113 vermelho zero km, na época eu com 6 anos de idade não tinha noção da grandiosidade daquela conquista, a única coisa que estava diferente pra mim era um caminhão de cor diferente que parecia mais novo e a ausência da antiga 112 cara chata. Porém naquele dia algo me fez correr até a rua quando ouvi o ronco do motor, esperar meu pai chegar, e antes que ele descesse, subi feito um louco naquele caminhão, que ainda tinha plásticos nos bancos e aquele cheiro de novo que, confesso, me vem na memoria quando me lembro daquele dia em que eu não queria sair de forma alguma de dentro daquele caminhão.

Momento magico, chegada do pai em casa com o 113 zero Km. (ó eu la dentro)

Meu pai usava o caminhão para transportar madeira do Mato Grosso para nosso deposito em Minas Gerais, lembro que a cada viagem concluída eu entrava no caminhão para ver se estava tudo Ok, se tudo estava como naquele dia que o vi pela primeira vez. E meu pai com todo seu cuidado e capricho deixava tudo como estava, o máximo que fez foi colocar um climatizador e rodoar, até então.

Já ouvi algumas teorias de que produtos fabricados nos dias de terça e quinta feira tem uma probabilidade maior de serem mais duráveis e de maior qualidade. Se esta teoria for valida, com certeza este caminhão foi produzido em um desses dias. Ele rodou 1.400.000 Km apenas revisando diferencial e caixa e trocando o casquilho, veio a fundir por falta de pericia de um motorista, que devido a um descuido, não viu que uma mangueira do óleo havia estourado e o motor veio a travar, se não, segundo um mecânico de confiança, passaria fácil dos 1.700.000 km. Tal durabilidade nos fez vencer varias crises financeiras e pagar outros 2 caminhões que compramos com o tempo.

Um pouco mais velho, mas ainda sem desgrudar do 113.

Com isso se tornou um caminhão especial para nossa família, varias viagens foram feitas, pescarias, idas a praia. Todo ano eu esperava ansioso pelas férias para poder viajar naquele caminhão com meu pai. Foi o primeiro caminhão que eu dirigi, lembro como se fosse ontem eu sai com aquela carreta meio desajeitada errando um pouco as marchas e fazendo cobrinhas na pista devido a leveza de sua direção.

Todo motorista que trabalhou com ele era só elogios. Historias como a gente oferecer um caminhão mais novo para o motorista e ele recusar para trabalhar com o 113 eram normais. Até historia de motorista que estava com um Scania zero nas mãos e se ofereceu para trabalhar com a gente, mas desde que fosse para trabalhar no “vermelho”.

Era um caminhão raro de se ver, meu pai e eu quando íamos fazer algo nele sempre preservávamos os parafusos originais, fazíamos de tudo para manter o caminhão intacto. Sua pintura recebeu pouquíssimos retoques, mesmo quando colocamos o 3° eixo nele pedimos para que o chassi fosse pintado da cor original do 113, a grade preta foi serviço de um motorista que não pediu permissão, e não nos agradou nem um pouco, a falta das faixas foi justamente porque não achamos as originais para vender, apenas paralelas, e decidimos não colocar até encontrar uma de qualidade.

Mesmo morando longe eu pedia para meu pai me mandar fotos dos caminhões, principalmente do vermelho, para eu ver como ele estava.

Ultima foto que meu pai me enviu do caminhão em boas condições

Curioso que a ultima vez que o vi pessoalmente, poucos dias antes do acidente, eu o vi, reparei, circulei varias vezes, olhei seu interior e me veio a lembrança aquele dia em que meu pai chegou com ele em casa zero km. Peguei um pano, limpei seu interior como fazia sempre que meu pai chegava de viagem, retirei um retrovisor auxiliar que estava quebrado, ajudei meu pai a colocar alguns apara-barro para que não sujasse a cabine, e contei para meu pai meus planos para o futuro com aquele caminhão. Cheguei a pegar o celular para bater uma foto, só que ele estava numa posição ruim de se fotografar. Mal sabia eu que aquela seria a ultima vez que teria aquela oportunidade.

No dia 17/10 meu pai se envolveu em um acidente grave na via dos Bandeirantes envolvendo ele mais 1 carreta e 2 carros. Com a colisão os veículos se incendiaram e com sorte meu pai saiu andando do acidente, e infelizmente algumas pessoas que não tiveram culpa nenhuma, assim como meu pai, vieram a óbito.

113 totalmente queimado apos o acidente.

Meu sonho que contei ao meu pai de quando me formar de parar aquele caminhão, reformar ele, deixar ele como novo como vi ele a primeira vez se transformaram em chamas, aquele caminhão que ergueu minha família tantas vezes teve a ultima missão de salvar a vida do meu pai. Porque se ele não estivesse de cinto de segurança, provavelmente não teria saído andando do acidente, e foi o cinto do caminhão que o salvou.

Interior que eu não queria sair, agora só resta lembranças!

Se existe alguém para agradecer pelo caminhão, acho que deveria agradecer primeiramente a Deus por nos proporcionar a conquista da compra e aos engenheiros que projetaram, operários que construíram, mecânicos que arrumaram aquele caminhão que nos ajudou muito, e no fim de sua vida salvou a vida do meu pai. Obrigado mesmo, de coração à equipe Scania!

Quem sabe num futuro próximo, com o dinheiro do seguro,  a gente não adquira outra Scania vermelha que nos alegre e ajude tanto quanto esta?

**Gostaria de deixar bem claro que nossos sentimentos para com os familiares das vitimas são muito maiores do que pelo bem material, agradecemos a Deus pela saúde do meu pai e oramos pela conformação dos familiares!

Publicado por
Rafael Brusque - Blog do Caminhoneiro

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