Entrevista com Sílvio Guilherme Lentz

Entrevista com Sílvio Guilhemer Lentz - Blog do Caminhoneiro




Morador de Paranaguá-PR, Silvio tem 72 anos e há 52 anos está na estrada. Natural de Caxias-RS, o caminhoneiro Silvio trabalha na Transidreni, de São José dos Pinhais-PR e dirige um Scania G380.

Iniciou na profissão por curiosidade, em um International KB7. Sem influências familiares, diz que aprendeu olhando os outros motoristas trabalharem, e que não foi difícil aprender a dirigir caminhão. Dirigiu vários caminhões em todos esses anos de estrada, e destaca alguns modelos, como o Chevrolet Brasil, FNM e GMC Marítimo. Como tudo era novidade, o início da profissão foi muito bom, diferente de hoje, onde o motorista é muito “desclassificado”, diz Sílvio.

Para pegar experiência, Sílvio falou que prestava muita atenção nos conselhos de motoristas mais velhos e que sempre que precisava, perguntava para eles, para sanar as dúvidas e aprender tudo de estrada.

Viajando principalmente para Minas Gerais, no transporte de enxofre e fertilizantes, diz que hoje viaja perto, mas que antigamente viajava pelo Nordeste todo, e outras regiões do Brasil. Casado e pai de três filhos, passa, na média, 15 dias fora de casa e fala que a saudade sempre aperta.

Em todos esses anos de trabalho nas rodovias, Sílvio diz que um fato que sempre marca são os acidentes, principalmente aqueles em que não se pode socorrer as vítimas. “Já vi diversos acidentes, mas muitos que eu vi são por imprudência. Hoje em dia está pior”, comenta.

Outro fato que Sílvio falou foi sobre os profissionais da estrada, que pela falta de mão-de-obra disponível, faz com que empresas deem caminhões grande à pessoas sem qualificação. “Hoje em dia 80% do profissional acabou. A pessoa tira a carteira hoje e amanhã está com um bitrem viajando.” Quando começou a trabalhar com carreta, Sílvio diz que teve treinamento com um motorista experiente. O que hoje não ocorre com frequência.

Sílvio já teve um caminhão próprio, um Scania 111S, mas diz que hoje prefere ser empregado. Se desfez dele porque teve problemas de saúde, e contratou um outro motorista para dirigi-lo, que acabou com o caminhão. Perguntado sobre a preferência por marca e modelo de caminhão, diz que ele gosta de Scania e Volvo, mas que todos os caminhões estão muito modernos.  “Hoje, para comprar, tem que ser no mínimo um caminhão semi-novo, senão não compensa, vira só em despesa”, completa.

Quanto à alimentação na estrada, falou que é muito relativo e que tem restaurantes de todo tipo, onde se paga pouco e come bem, e outros em que paga bem e come mal. Quando tem tempo, ele faz a própria comida no caminhão, onde come melhor que em muitos restaurantes.

Dormindo na média 6 horas por noite, diz que é um bom descanso, e que sempre pára dormir. Outro ponto é a falta de segurança na estrada, com outros motoristas que não respeitam ninguém, não ligam para a sinalização e que podem causar acidentes. Quanto a roubos na estrada, diz que tem que cuidar onde parar, e que se possível, nunca pára nos mesmos lugares, para evitar ficar marcado por possível criminosos. Também diz que presta muita atenção quando é indagado com muitas perguntas sobre a carga, destino, ganhos e caminhão, e logo desconversa.

Por mais que as vezes precise chegar logo ao destino, Sílvio diz que não usa rebite para poder ficar dirigindo a noite toda. “Se me der sono as 9 horas da noite eu paro e durmo, e saio mais cedo, às 2 ou 3 horas da manhã”. Quando era bem mais novo ele experimentou o rebite. Diz que na hora é bom, mas que quando passa o efeito o sono chega com força e que se torna perigoso. Fazendo as mesmas rotas com caminhoneiros que usam rebite, diz que mesmo sem tomar ele consegue acompanhar e que sempre estão juntos nos locais em que carregam e descarregam. “O cara roda a noite inteira e pára dormir de manhã, daí acorda tarde. Só se drogou a troco de nada”, finaliza.

Com o aumento da potência dos caminhões, a falta de respeito dos motoristas aumentou também, e quem anda na linha, dentro da lei, sofre com os maus motoristas, que abusam da velocidade, e fazem ultrapassagens em locais perigosos, curva e pontes, além de “se acharem” por dirigir um caminhão mais potente. “Um bitrem tem quase 60 toneladas de peso bruto, você acha que um caminhão desse a 120km/h pára em poucos metros? Não pára. A imprudência é demais, demais mesmo”. Por causa desse perigos na estrada, Sílvio diz que vai parar de dirigir em breve.

Quanto perguntado sobre as atitudes da PRF, Sílvio diz que com os guardas mais antigos, com mais tempo de serviço, são sérios, e sempre ajudam quando é preciso, mas que os policiais mais jovens são duros e gostam de mostrar que tem autoridade, procurando multar os caminhoneiros por qualquer motivo e na maioria das vezes não atendem as solicitações, dúvidas, dos caminhoneiros.

“Eles puseram um lei e não previram as consequências disso aí”. Assim é definida a Lei do Descanso (12.619 de 2012) por Sílvio, que fala que onze horas parado é muito tempo, além de não haver locais para fazer tais paradas.

Sobre a contratação de motoristas, Sílvio diz que hoje está fácil, e a maioria das empresas não exige nada além do exame de saúde. São poucas as que fazem um teste mais completo com os candidatos, pela falta de motoristas para dirigir os caminhões novos, além da saída de motoristas mais velhos, por causa da situação das estradas e a rotina de vida do caminhoneiro.

Transportando sempre enxofre, Sílvio diz que a Transidreni tem investido em novos caminhões, e que hoje ele dirige o mais velho, um Scania G380 2009.  Como trabalham com transporte nas áreas internas da Petrobrás, em São Mateus do Sul e Araucária-PR, sempre fazem cursos de integração nas empresas, além de cursos específicos para o transporte.

Como dica para os novos caminhoneiros, Sílvio diz que é necessário ter humildade e se informar com pessoas mais experientes, desde a regulagem de freios até outras necessidades do transporte. São coisas simples, mas que muita gente não sabe e que tem medo de perguntar para saber como se faz.

Sílvio foi entrevistado pelo Blog do Caminhoneiro enquanto aguardava para carregar na Petrobrás-SIX de São Mateus do Sul-PR.




3 comentários em “Entrevista com Sílvio Guilherme Lentz

  • 16/04/2018 em 03:35
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    Hoje meu pai que concedeu está belíssima entrevista nos deixa um grande vazio, descansou e foi dirigir no céu. Que deus te receba com muito carinho meu pai amado !!!

    • 30/04/2018 em 11:22
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      Nossos sentimentos! Ele terá um bom lugar no céu!

  • 14/01/2014 em 09:52
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    Isso sim é um profissional !!!

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