V8 Scania, amado e odiado, mas por quê?

No ultimo texto escrito em minha coluna escrevi sobre alguns caminhões “renegados pelo mercado” e dentre esses caminhões citei toda a linha V8 da Scania e fui fortemente criticado. Então decidi escrever este texto contando um pouco da história do V8 da Scania NO BRASIL e comentando um pouco porque esses caminhões não tem uma aceitação muito boa no mercado brasileiro e também porque tem tantos devotos fiéis.

Lembrando que meus textos sempre são embasados em conhecimento pratico, literário, cultural entre outras pesquisas no meio em que vivo desde que nasci.

Em 1974 a Scania trouxe seu primeiro V8 para o Brasil, o Famoso LK 140. Provavelmente este caminhão, juntamente com o seu sucessor LK 141 (este trazido em 1978) foram os percursores da paixão V8 por alguns caminhoneiros do Brasil. E de maneira logica porque nesta época seus motores de 350cv (no 140) e 375cv (no 141) tinham a hegemonia de potencia muito, mas muito acima dos caminhões “6 em linha” do mercado como as MB 1519 (5 em linha), Volvo N10. Deixando-os com toda certeza para trás em qualquer top ou chapadão. Além do motor potente esses caminhões tinham uma cabine avançada, um dos primeiros conceitos do tipo no Brasil, com espaço, ergonomia e conforto jamais visto no mercado nacional até então. E vale lembrar que estamos falando de uma época em que não se comprava caminhão tão fácil como hoje, na época ter um caminhão era coisa de gente bem de vida, ter um V8 então nem se fala, seria a mesma coisa de se ter uma frota de 20 caminhões hoje. Com tudo isso o prestigio do V8 foi implantado no sangue de muitos que possuíram, pilotaram ou admiraram esses caminhões por onde passavam. Era um caminhão sem igual!

Em 1981 com a chegada da série 2 a Scania também lançou motores V8 para tal linha, os 142 ao longo de sua história receberam “upgrades” que levavam sua potencia até 410cv, no ultimo modelo o HW fabricado até 1991. Porém nessa época o cenário nacional do transporte já não era tão “exclusivo” e os concorrentes já não eram tão “para trás” quanto a potencia do motor. Então os defeitos, que já existiam mas  que antes eram “camuflados” por todo aquele prestigio, foram sendo levados em conta. Por exemplo a facilidade com que estes caminhões esquentavam, porque esses motores eram desenvolvidos e muitas vezes importados da Europa, onde a temperatura media não passa dos 23°, ai vem para terra tupiniquim onde a media é 32°/33° com picos de até 40°, não há sistema de arrefecimento que de conta. Dai a piada onde os motoristas de V8 nunca comiam comida fria, era sempre quentinha do assoalho do caminhão.

Em 1991 chega a série 3, e com ela o V8 também de 14 litros agora chamado de 143H com 450cv de potencia, ainda tinha a hegemonia de potencia do mercado, porem os concorrentes já não estavam tão distantes, tinha o MB 1941 e o NL12 410, ambos com a potencia de 410 cavalos com motores bem menores. Porém outros defeitos dos V8 foram ficando evidentes, nesta época o preço do óleo diesel foi ficando salgado, e a média começou a ser observada, com isso notou-se esta deficiência dos V8, que só obtinham um bom consumo se fossem trabalhados muito, mas muito no “sapatinho”, dai aquela vantagem de estar a frente sempre com um V8 já não era tão “vantagem” assim, pois para fazer media, tinha que andar com os outros. Outro problema que existia, desde os 142, era que esses caminhões eram montados na plataforma de um 112 ou 113, com mesmo cambio e diferencial projetados para esse caminhão, com 310, 320 ou 360cv e não 410 e 450 como eram submetidos nos V8, então sua durabilidade nunca ia ser igual a dos irmãos menos potentes, com isso ganharam fama de quebradores de cambio e diferencial.

A Scania ficou em um “jejum” de V8 parando a produção do 143 em 1995 (justamente por insucesso do caminhão, que não acompanhou o 113) e só voltou a produzir um V8 no finalzinho de 2000, o 164 “rei da estrada” agora com um motor eletrônico de 16 litros que tinha 480 cavalos, uma potencia já bem a frente dos concorrentes que chegavam a no máximo à 420cv e com o problema de desproporção de trem de força sanado. Porém este caminhão pegou, além da fama ruim que os V8 tinham adquirido, um mercado de caminhões já com varias opções de modelos e muito mais exigente quanto a economia deixando-o um pouco de lado. O mesmo aconteceu quando a Scania lançou em 2007, de forma discreta, o R500 que era o V8 da linha P,G e R, porém já não era o mais potente do mercado, perdendo para o Volvo FH 520, que produzia esta potencia em um motor de 13 litros com 6 cilindros em linha.

R500 primeira geração

Só em 2010 a Scania voltou a liderar o ranking de caminhão mais potente do mercado com o lançamento do R580, King Of The Road, que contou com uma propaganda considerável por tal feito. Nessa época o mercado de caminhões, mesmo tendo infinitas opções, estava muito aquecido, com isso vários frotistas e até mesmo autônomos realizaram o sonho de ter um V8 em sua frota. Por isso é bem comum ver R500 rodando por ai. A ultima “sacada V8” da marca foram os modelos Euro5 com 560 e 620cv, este ultimo muito acima da potencia de motores no Brasil, com a propaganda que estes motores são econômicos. Porém são caminhões, todos esses a partir de 2010, relativamente novos então os defeitos ainda não são evidentes.

Por tudo isso e um pouco mais que não foi escrito, os V8 sofrem uma certa discriminação no mercado “geral” de caminhões, acumulando pó no pátio de estacionamentos ou tendo seu coração (motor) trocado por um “6 em linha” logo na primeira quebra. Por conta do seu consumo inconstante (quando não trabalhado da maneira correta) e o altíssimo custo de manutenção, justamente por ser um caminhão pouco comercializado, não é um caminhão fácil de se manter, possuir ou muito menos rentável nas exigências do cenário do transporte em que vivemos, onde economia é tudo.

Hoje quem possui V8 são autônomos que gostam e trabalham com os caminhões da maneira que tem de ser ou frotistas que por um motivo de satisfação pessoal compram um para ter o prestigio de ter um V8 na frota, e o entrega para seu melhor motorista como forma de recompensa porque sabe que este o trabalhará da maneira correta e não trará prejuízos a empresa.

Gostaria de deixar bem claro que eu não sou um “anti V8”, inclusive o caminhão antigo que mais gosto é o LK140, com motor original e tudo mais porque na sua época ele era o caminhão a ser batido, era o caminhão sem igual para sua época. Eu só não sou um entusiasta fanático que vira a cara para todos os defeitos existentes nesses caminhões, que no cenário do transporte geral de hoje são economicamente inviáveis, pois temos caminhões com faixa de potencia muito semelhante (volvo 540 contra o V8 560 da Scania) mas que no preço de compra e custo de operação são bem diferentes (salvo o 620 que tem uma potencia muito acima da concorrência na categoria). Então quando se fala na faixa “normal” de potencia (tirando o 620) eu acho um caminhão totalmente normal, e com isso não vale a pena comprar um V8 para “se ganhar dinheiro” pois você estará assumindo o risco de ter prejuízos com manutenção, consumo (se não trabalhado direito) e principalmente com revenda. Agora se o caso for prestigio e admiração, nada melhor que um V8 de baixo do capo roncando na ponteira de escape para lhe proporcionar tudo isso e um pouco mais.

Obrigado!

Hélio David

 

Publicado por
Rafael Brusque - Blog do Caminhoneiro

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