COLUNA MOBILIDADE EM FOCO – SCANIA T114, R114, SÉRIE 4: O 113 DE PALETÓ E GRAVATA

Scania T114

Em outubro de 1991 a Scania lançou a Série 3 no Brasil. Com ela, novos itens foram agregados em termos de evolução tecnológica e itens de conveniência e conforto para o motorista, se comparado com a geração anterior, linha HW/EW. Nos motores de 11 litros foram mantidas praticamente as mesmas faixas de potência, apenas com a introdução da faixa de potência de 320 cv. Já nos motores de 14 litros a alteração foi maior, com o salto da potência de 410 para 450 cv. Três anos depois, em 1994, a Série 3 sofreu o seu primeiro “face lifting”, reformulação, com novas opções de pintura de cabine, versão teto alto (cabine Topline) e novo painel do motorista, apenas para citar algumas das alterações.

Entre 1991 a 1998, o modelo mais vendido, T113H, emplacou 26.711 unidades comercializadas. Foi o caminhão pesado número um em vendas, chegando a ocupar a liderança em vendas nos anos de 1994, 1995 e 1996. Tricampeonato consecutivo onde chegou a superar o semipesado Mercedes-Benz L-1618, até então o rei do pedaço. No ano de 1998, já as voltas com a nacionalização do Volvo FH12 380, importado entre os anos de 1994 a 1997, a Scania lançou a Série 4 de caminhões pesados e semipesados. Com ela mudou-se a nomenclatura técnica de identificação, passando de “113” para “114”. Apesar da nova cabine, maior, mais larga e mais alta, o motor era o mesmo da geração anterior. O motivo da manutenção do trem de força foi o sucesso de vendas dos T e R113. Algumas mudanças foram efetivadas, embora a ênfase quanto a ergonomia do habitáculo do motorista, vida útil, custo por km/rodado e a facilidade de manutenção continuassem como pontos fortes da nova série.

Para este mesmo caminhão da Série 4 duas opções de motores, o de 11 litros dos 114 e um totalmente novo, de 12 litros, ainda com injeção mecânica e mantida a mesma potência, 360 cv. Para este, a nomenclatura de identificação técnica mudou de 114 para 124 e ele passou a ser o preferido pelos clientes da marca. Infelizmente o T114 não teve o mesmo êxito em vendas do T113. Não que fosse um mau caminhão. Pelo contrário, era uma evolução da Série 3, com cabine de formato arredondado, mais aerodinâmico, mais alto, maior área envidraçada e espaço interno ampliado. Na parte mecânica, o motor era o mesmo dos 113, mas o chassi, totalmente novo, tinha formato em “Y”. Nesta configuração o trem de força ficou numa posição mais baixa do que nos 113.

O arranjo permitiu uma cabine com maior amplitude interna do que a existente nos T e R113. E foi justamente com a Série 4 que os cara chata da Scania ultrapassaram em vendas os bicudos. O cenário que levou a isso foi a nova situação conjuntural do mercado, com a preferência por composições mais longas, como os bitrens e carrocerias abertas e baús com maior capacidade de carga. Este foi o fator preponderante que “matou” com os T114, T124, os bicudos. Tanto é que vendeu apenas 1.861 unidades do final de 1998 até 2005, quando deixou de ser fabricado.

E não somente ele, o Volvo NH12 380/420, lançado na mesma época, também bicudo, e que chegou a ser eleito o Caminhão do Ano de 1999, teve sua produção encerrada em 2006. Para a fabricação da Série 4 no Brasil em 1998 foram investidos trezentos milhões de dólares nas fábricas da Argentina e na do Brasil. Ao longo dos anos colecionamos algumas pérolas de vendedores e de motoristas sobre os T114. Opiniões baseadas no “achismo”, sem fundamentação técnica, prevalecendo à emoção e não a razão. Alguns disseram que a Scania encheu eles de itens eletrônicos e não preparou a rede. Mentira. Se a mecânica era a mesma dos T113 como as concessionárias não saberiam mexer com ele?

Outros diziam que ele não era bom de subida, era lento. Outra mentira. Se o T113 tinha fama de “andador”, como poderia o T114 ser lento? A motorização de ambos era a padrão dos anos 90 na parte de cima dos caminhões pesados, 360 cv, justamente a faixa de potência campeã em vendas. O T114 só poderia ser considerado de desempenho inferior, se configurado para tracionar o mesmo tipo de carreta, carga de pesos idênticos, mesmo piso rodante, temperatura, umidade do ar e no mesmo horário de um caminhão com potência superior. Na época, a faixa superior era a de 420 cv, onde 60 cv a mais fariam a diferença. Há pessoas, vendedores, motoristas, mas principalmente os primeiros, cuja argumentação deveria ser de cunho técnico, profissional. E não são. Outra que encontrei deles foi a de que o T114 tinha desempenho fraco em aclives acentuados. Outra mentira.

Seu desempenho era compatível com os de caminhões da concorrência da mesma faixa de potência dos anos 90. Somente poderia ser mais lento se utilizado com sobrecarga, numa aplicação incorreta para a configuração de chassi e trem de força ou então acoplado a implemento incompatível. Do contrário, apenas “trololó” sem embasamento técnico. Os T, R114 tinham um desempenho tão bom nas estradas que andavam junto com os Volvo FH12 380 e NH12 380, com 20 cv a mais e motorização eletrônica, enquanto os da Scania utilizavam bomba injetora mecânica. Dados de inúmeras transportadoras comprovam que ambos também tinham o mesmo consumo. No caso, FH, NH12 380 e T/R114 e 124 360 faziam a média de 2,2 km/litro quando com cavalinho trucado e tracionando carreta de três eixos. Desempenho superior aos Volvo e Scania quem tinha eram os Mercedes-Benz LS-1938 e 1938S. Mas tinham consumo de combustível maior.

Outra grande vantagem dos Scania T114 entre 1998 a 2005, além da sua mecânica robusta, simplicidade mecânica, era o fato de sua manutenção ser mais simples e barata do que a dos seus concorrentes diretos, Volvo NH/FH12 380, Mercedes LS-1938, 1938S, que exigiam ferramental mais específico e a sofisticação das oficinas das concessionárias. Mais caras também. A retífica de um motor do NH12, em 2006, custava R$20.000,00. E o da Scania saia por R$16.000,00. Por todos estes fatores que o caminhão marcou época, embora desfavorecido em vendas pelo cenário que favoreciam os caras chatas. Mas, junto a caminhoneiros autônomos e empresas cujo foco era o transporte de cargas em carretas de três eixos, comprimento de 13,5 metros, 26 pallets, o T114 foi sim e ainda é um “senhor caminhão”.

Texto/matéria: Carlos Alberto Ribeiro
Página MOBILIDADE EM FOCO: AQUI O DEBATE É TÉCNICO
Foto, crédito da foto: Carlos Alberto Ribeiro

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