DO CAMPO PARA O TRECHO – DAF XF 105 6×4




Começo a contar desde o princípio.
Fui para a cidade encarar desafio.
Para isso deixei meus pais no sítio.
Alma esperançosa e coração vazio.

Deixei uma linda morena.
Que voltaria para ela, prometi.
Bela menina, doce e serena.
Não voltei e nunca mais a vi.

Cheguei á cidade, vindo da roça.
Fui chamado de caipira e matuto.
Diziam que eu era piloto de carroça.
Hoje, assumo o volante de um bruto.

Há vinte anos sou motorista.
No trecho não cometo gafe.
No volante sou um artista.
Saio dirigindo potente DAF.

Cavalo mecânico poderoso,
esbanja conforto e tecnologia.
Cabine com interior espaçoso.
Com ele encaro qualquer travessia.

Motor potente, câmbio automático.
Boa performance e visibilidade.
Cavalo mecânico traçado, fantástico
Para toda obra mostra confiabilidade.

Outros colegas da empresa
queriam estar em meu lugar.
Melhores que eu, tinham certeza.
Mas o patrão sabia em quem confiar.

Saí da Concessionária,
pilotando aquele DAF amarelo.
Máquina poderosa, extraordinária.
No prazer de dirigi-lo, me refestelo.

De Ponta Grossa sentido Curitiba.
Caminhão melhor não há.
Na Serra do Mar, na descida
estou chegando á Paranaguá.

Dois containers no bi trem,
vou para capital paulista.
Conduzindo como convém.
Sentindo-me um rei na pista.

Sigo pela BR cento e dezesseis,
Régis Bittencourt, estrada da morte.
Muitos na estrada acham-se reis.
Com o DAF, reina o mais forte.

Já é noite quando chego.
Paro o bruto para um descanso.
No trecho não peço arrego,
e logo cedo na estrada me lanço.

Os dois containers eu deixo.
Rumo para o Mato Grosso.
O cavalo DAF com terceiro eixo
quem comanda é esse moço.

O caminhão é econômico.
Na cabine, doce balanço.
Sentado no banco ergonômico,
trabalho e quase não me canso.

Lógico que não podia faltar
uma situação inusitada.
O bruto tentaram roubar.
Na estrada, fizeram cilada.

O conjunto rodando vazio.
Estado Mato-grossense, destino.
No retrovisor, veloz carro surgiu.
Apeguei-me no Poder Divino.

Rodovia com longa reta e isolada.
Voz de assalto carro em movimento.
Não ficaria sem fazer nada.
Empreendi fuga na pista de rolamento.

Ziguezagueando o bi trem,
aos bandidos causaria problema.
Será que na fuga me daria bem?
Pensava e vivia esse dilema.

Por estar descarregado
o DAF voava na rodovia.
Em ritmo bem acelerado
fugindo dos bandidos seguia.

Meu bruto a cento e quarenta
e o carro colado logo atrás.
Ultrapassagem o carro tenta.
Não deixaria isso jamais.

No meu bruto de grande porte
bandidos interessados em seu valor
Contava com astúcia e sorte.
Acionei meu rádio amador.

Canal de comunicação aberto,
havia um carreteiro na área.
Precisava ser bem esperto
para escapar dessa gente ordinária.

Quatro quilômetros à frente
estava este colega da estrada.
Precisava de auxílio urgente.
Perseguido, não podia fazer nada.

Eu e o carreteiro na combinação,
de dar um jeito na bandidagem.
Ao longe já via seu caminhão.
Eu faria dele a ultrapassagem.

Contava que aqueles bandidos
fizessem ultrapassagem também.
Pelas duas carretas espremidos.
O plano acabou correndo bem.

Quando fiz a ultrapassagem
diminuí a velocidade.
para me passar não dei margem.
Eles estariam em dificuldade.

Segurei meu caminhão
E não deixei o carro passar.
O outro carreteiro na aproximação.
Na traseira do carro começou a chegar.

Quando os criminosos perceberam
que de caçadores agora eram caçados.
Castigo duro de nós eles receberam.
Entre as carretas aprisionados.

Bateu neles o desespero,
com armas tentaram intimidar.
Deu-lhes um aperto o carreteiro.
Eu segurei para a eles engavetar.

O carro sendo espremido.
Aos criminosos punição.
Para aquele grupo bandido
seria uma assustadora lição.

Eu dei uma distanciada
e o carreteiro foi embora.
No retrovisor uma olhada.
Carcaça destruída via agora.

A polícia foi avisada.
Eles não teriam como escapar.
Segui em frente minha jornada.
Toneladas de soja tinha de levar.

Agradeci aquele colega
por não ter me negado ajuda.
Nos bandidos demos um pega.
Ação incisiva e aguda.

Trecho de terra batida.
De soja, muitas toneladas.
Dirigindo o DAF feliz da vida.
Cavalo para todas as estradas.

Até a pista asfaltada
ia comer muita poeira.
De vez em quando na estrada,
belas meninas via á beira.

O retorno é tranquilo,
e o pesado não decepciona.
No trecho eu não vacilo,
a carga protegida por lona.

A chuva cai generosa
mas o DAF está grudado no chão.
Faço a condução cuidadosa.
O bruto arrastado por dupla tração.

No porto de Santos a soja deixo.
Embarcado em grande navio.
No DAF XF só eu que mexo.
Cavalo igual nunca se viu.

Quando retornei á empresa
veio falar comigo o patrão.
Disse-me para minha surpresa
que me daria difícil missão.

O carregamento não era problema,
e sim o lugar onde pegaria a carga.
Preso ao passado tal algema.
Um passado de lembrança amarga.

Voltaria ao lugar onde nasci.
Hoje, grande propriedade rural.
Lá chegando velhos amigos revi.
Causei neles admiração geral.

Na infância pilotava a enxada.
Agora, ao volante de cavalo imenso.
Sigo por uma estreita estrada.
Nos tempos de criança eu penso.

Cresci correndo no meio da capoeira.
Agora tudo está tão mudado.
Me recordo daquela menina brejeira.
Com ela, sonhava estar casado.

Desperto do devaneio.
Fardos de feno e um trator.
Seguro o DAF no freio.
Desligo do bruto o motor.

Converso com o fazendeiro,
homem de idade avançada
Apresentou-se a este carreteiro.
Era pessoa muito educada.

Como estava enfermo
a esposa cuidaria de tudo.
Carregamento feito a bom termo.
O pagamento seria polpudo.

Muitas vezes na vida
temos surpresas bravas.
Esta comigo acontecida
deixou-me sem palavras.

A esposa do fazendeiro
trouxe-me depósito bancário.
Golpe do destino derradeiro.
O que descobri, extraordinário.

Aquela mulher ali na minha frente
era a menina a quem prometi voltar.
Lançou-me um olhar descrente.
Para ela não sabia o que falar.

Ela tomou a iniciativa
cumprimentou-me educadamente.
Voltou com intensidade viva
o nosso passado em minha mente.

Começamos a conversar.
Falamos de tudo que aconteceu.
Tomei coragem para perguntar.
Nesse tempo, como ela viveu.

Ela disse ter me esperado.
Mas depois de perder os pais
sozinha sem ninguém a seu lado.
Não sabia o que fazer mais.

Há muito tempo viúvo o fazendeiro
tivera um ato de generosidade.
Vendo-a naquele desespero
casou com ela por amor e piedade.

Teria por ela todo o respeito.
Sozinho muito tempo tinha vivido.
Eram casados de direito
mas nunca foram mulher e marido.

O bom homem foi digno.
Ela o respeitou e foi respeitada.
Tinha a honra como signo.
Por outros homens foi cobiçada.

Agora que estava doente
ela retribuía a generosidade.
A seu lado, mulher decente.
Deu-lhe momentos de felicidade.

Eu contei a Rosalita
de todas as minhas andanças.
Disse que ela estava tão bonita.
Lembrei quando éramos crianças.

Após tanto tempo passado
e tudo que passei na vida.
Ao dizer que não tinha casado
vi em seu rosto alegria contida.

Ela ainda me amava.
Em seus olhos, pude ver.
Eu também nela pensava.
Mas entre nós nada podia haver.

Ficaria ao lado do marido.
Tinha ciência desse fato.
Mas a ela fiz um pedido:
Se poderia manter contato.

Ela disse que não ligaria
e que eu também não ligasse.
Ao lado do marido ficaria
e honraria o seu enlace.

A seu caráter fiz elogio.
Ela era mulher admirável.
Do pagamento confirmou envio.
Partir naquela hora o mais viável.

No caminhão DAF dei partida
levando grande carga de feno.
Eu seguiria com minha vida,
mas o coração sentia-se pequeno.

Além da carga que puxava
a lembrança era grande peso.
No coração agora levava
sentimento de amor aceso.

Sem dormir a noite inteira
pensando em Rosalita.
O DAF, máquina estradeira,
puxa a carga e não faz fita.

Segui em minhas viagens
mas tinha sempre em mente
rodando por tantas paragens
aquela mulher somente.

Não liguei para Rosalita.
Acatei o que me disse.
Imaginei que estaria aflita
e ligar para ela seria canalhice.

Viajando por todo o Brasil
cumprindo minha obrigação.
Do cavalo DAF não judio.
Valente e forte caminhão.

Dirigindo para longínquo lugar
recebi uma ligação.
Não reconheci número do celular.
Ao atender, senti grande emoção.

Rosalita do outro lado da linha
falava com voz doce e mansa.
Ficara viúva e sozinha,
Pôs-se a chorar tal qual criança.

Seu marido faleceu.
pouco depois de me ver.
A seu lado permaneceu.
Nada mais pode fazer.

Aquele homem tinha lhe dito
que ela buscasse a felicidade.
Na hora da morte, gesto bonito.
Ultimo ato de generosidade.

Respeitou período de viuvez
e já havia sido assediada.
Mantivera-se honrada outra vez.
Agora se sentia desamparada.

Estava bem financeiramente.
O marido cuidara de seu futuro.
Mas a perda fora realmente,
para ela um golpe muito duro.

Pedi uns dias ao patrão
para cuidar da vida particular.
Ele entendeu a situação.
Disse que ia me liberar.

Com o cavalo desengatado
parti rumo ao interior.
Na fazenda cheguei emocionado.
Iria rever meu grande amor.

Conversamos e nos entendemos.
Mantivemos a discrição.
Um para o outro nascemos.
Estávamos entregues á paixão.

Queria provar a ela
que estava bem intencionado.
Rosalita muito bela.
Eu estava encantado.

Um ano se passou assim.
Estou a bordo do potente caminhão.
No banco do carona, junto a mim,
Está Rosalita minha paixão.

A bordo do cavalo trucado
puxando carga por todo País.
O amor vai ao meu lado.
Hoje sou bem mais feliz.

Roberto Dias Alvares

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Um comentário em “DO CAMPO PARA O TRECHO – DAF XF 105 6×4

  • 25/05/2019 em 22:10
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    Uma hisória de volta ao passado e de reencontro com um amor, tudo a bordo do DAF 6×4

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