Uma operação diferenciada – Como é a vida como motorista de Mini Cegonha nos Estados Unidos

por Blog do Caminhoneiro

O setor de transportes nos Estados Unidos é enorme, e bastante diversificado. São cerca de 23 milhões de caminhões atravessando o país em todas as direções, todo dia. De uns anos para cá, uma operação bastante diferenciada começou a se popularizar no país. O transporte de cargas em veículos menores, geralmente picapes com capacidade de até 6 toneladas, engatadas em implementos de dois eixos, que são acoplados por uma quinta-roda dentro da caçamba ou sobre o chassi.

Para conhecer um pouco mais desse sistema de transporte tão peculiar, o Blog do Caminhoneiro conversou com o caminhoneiro Fernando Alves, que é brasileiro e sócio de uma transportadora com dois conjuntos transportadores de veículos, que são rebocados por caminhonetes Ram 3500.

Ele vive atualmente na cidade de Fort Meyers, no estado da Flórida, mas nasceu em São João do Oriente, em Minas Gerais. Como o pai já vivia nos Estados Unidos há algum tempo, e por gostar muito do país, Fernando decidiu se mudar definitivamente, vivendo nos EUA há 23 anos.

“O que eu mais gostei aqui, relacionado ao trabalho, foi na área de transportes. Não foi nem por causa do dinheiro. Dá dinheiro, mas eu gosto muito de viajar. Tenho oportunidade de conhecer os estados do país, viajar para tudo quanto é lado, conhecer lugares diferente, pessoas diferentes… Para mim isso é uma terapia. Amo demais”, disse Fernando.

A operação com transporte foi iniciada no final de 2018, e, apesar de parar durante a pandemia, voltou a trabalhar, e segue firme e forte nas estradas dos EUA, não tendo lugar perto nem longe, como disse ele, que aceita qualquer frete, desde que pague bem.

A empresa operada por Fernando, chamada de S&G America Transport inc., foi criada em sociedade com o seu sogro, Ronaldo, que vive em Massachusetts, e é de São Paulo. Ronaldo realiza o trabalho administrativo da empresa, além de realizar o cuidado com os veículos, enquanto Fernando trabalha no volante. Atualmente são duas picapes, transportando veículos, sendo uma Ram 3500 fabricada em 2019 e outra em 2020. A primeira está com um motorista contratado, e a segunda é dirigida por Fernando. A carreta engatada na picape tem 52 pés de comprimento, ou 15,8 metros.

A operação é chamada de Car Hauling, ou mini cegonha, como foi apelidada por Fernando. Para esse tipo de transporte, não é necessária a carteira de motorista profissional, CDL, bastando ser habilitado como motorista de automóvel. Por viagem, são transportados três veículos. Com outros tipos de implementos, como pranchas, é possível transportar uma grande variedade de cargas.

Por lei, o transporte é limitado ao peso bruto total de 26 mil libras, cerca de 11.700 kg, sendo que, vazio, o conjunto de Fernando tem um peso de 16 mil libras, cerca de 7.250 kg, podendo transportar 10 mil libras de carga, ou 4.500 quilos. Isso garante o transporte de três carros de porte médio sem ultrapassar o limite estabelecido.

Além de oferecer um bom rendimento financeiro, a operação também permite que praticamente qualquer um possa trabalhar com esse tipo de veículo. Isso incluí também residentes sem documentos, que conseguem, em alguns estados, obter a carteira de motorista para automóvel, podendo trabalhar com esse tipo de operação ou mesmo caminhões médios, com até 26 mil libras de peso total.

Outra vantagem é o custo reduzido da operação, graças a menor custo de manutenção e de combustível, com uma média na casa de 4,46 km/l (10,5 milhas por galão) ou até mais. De acordo com Fernando, no final das contas, o lucro é praticamente o mesmo de quem opera uma carreta de grande porte.

“A despesa de uma caminhonete e de um trailer nesse porte é bem menor que de um caminhão”, disse ele.

Um dos principais custos do transporte nos Estados Unidos, depois do diesel, é a manutenção. Devido à escassez de mão de obra, o trabalho nas oficinas é caro, e quanto maior o veículo, mais caro fica o serviço.

O custo de compra de um conjunto do tipo também não é tão alto, sendo de cerca de US$ 80 mil, com mais ou menos US$ 55 mil a US$ 60 mil da picape e o restante para aquisição do implemento. O valor de um caminhão novo, como o Freightliner Cascadia, por exemplo, modelo mais vendido dos EUA, fica entre US$ 150 mil a US$ 180 mil, dependendo dos opcionais, sem contar o implemento.

Esse tipo de operação também oferece um grande ganho logístico ao país. Devido à alta disponibilidade de cargas e poucos caminhões para transportar, os Estados Unidos enfrenta uma grande falta de motoristas profissionais habilitados com a CDL. Com esse transporte com veículos menores, que também tem menos exigências que as operações com veículos grandes, a roda da economia gira, e estabilizando um pouco os preços dos fretes.

Como muitas vezes os transportadores com veículos grandes recusam-se a transportar um veículo que esteja muito distante, esse trabalho fica com os motoristas de mini cegonhas, que podem rodar mais, já que o custo é menor. Fernando atende diversas operações, como transporte de veículos novos, usados, batidos, para exportação, e também modelos usados para outros estados, quando os proprietários se mudam de endereço.

Por ser uma picape cabine dupla, o banco traseiro foi removido, e no local foi instalada uma cama de caminhão. De acordo com Fernando, o veículo oferece um bom conforto para dormir, e diz que sente até falta de dormir na caminhonete quando está em casa. Eventualmente, quando a viagem é muito longa, também pode dormir em um hotel.

“Eu amo meu trabalho, sou apaixonado no meu trabalho. Se eu pudesse, já teria começado nesse ramo”, completou ele, afirmando que o trabalho é mais tranquilo e lucrativo que outras áreas em que já trabalhou, como a construção.

“Trabalhar na mini cegonha para mim é uma diversão. Eu sempre tô pegando um carro diferente, carro esportivo, carros velhos, que quando não estão funcionando, para mim é uma terapia, porque a gente tem que pensar muito, para conseguir colocar aquele carro, para descer o carro no local da entrega. As vezes dá estresse. Mas é um estresse que depois dá orgulho, por ter conseguido fazer”, completa.

Apesar de ser uma operação mais tranquila que com carretas grandes, Fernando diz que não tem mais caminhonetes porque não consegue contratar motoristas.

“Hoje, se eu tivesse motoristas para trabalhar para mim, a gente teria mais de duas caminhonetes, muito mais. Mas é muito difícil achar um motorista que queira realmente pegar a estrada e rodar, sem ter dia para chegar em casa”, destaca ele.

Outra vantagem que Fernando destaca é sobre os pagamentos. Muitos proprietários já realizam o pagamento no ato da entrega do carro. Outros pagam em poucos dias. Isso garante que o trabalhador sempre tenha dinheiro no bolso.

“As vezes, quando a gente fala que trabalha com transporte nos Estados Unidos, a pessoa já imagina aqueles caminhõeszões, grandes, mas não. A gente trabalha somente com a caminhonete, e faz o mesmo lucro que uma pessoa que trabalha com um caminhão grande. Os lucros são praticamente iguais”, finaliza Fernando.

Fernando mantém um canal no Youtube, chamado de Youtuber na Gringa, onde posta vídeos toda semana, destacando as idas e vindas que faz nos Estados Unidos. Atualmente são quase 12 mil inscritos, com mais de 620 mil visualizações nos vídeos postados.

Para se inscrever no canal, clique no link
https://www.youtube.com/channel/UCTnZhndF0ZViZpeAEUP-3Jw/

Rafael Brusque – Blog do Caminhoneiro

CLIQUE AQUI PARA PARTICIPAR DO NOSSO CANAL DO TELEGRAM