Por que a falta de caminhoneiros assola países como Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido?

Nas últimas semanas, a falta de motoristas profissionais devidamente habilitados para dirigirem caminhões no Reino Unido virou destaque em todo o mundo, devido à falta de itens básicos em supermercados e também à falta de combustíveis nos postos, que acabaram quase que instantaneamente após as entregas pararem por falta de motoristas. O mesmo aconteceu recentemente nos Estados Unidos, com filas de navios esperando para carregar e descarregar em portos devido à falta de caminhões.

O problema não é novo, e, apesar do destaque, não acontece só nos Estados Unidos e Reino Unido. Alemanha, Espanha, Japão e diversos outros países estão no topo dessa lista, quando o assunto é falta de caminhoneiros.

Mas o que causa o problema?

Diferente de sua era de ouro, a profissão de motorista de caminhão, principalmente em rotas de longas distâncias, é considerada muito dura, com diversos desafios a serem enfrentados pelos profissionais das estradas, todos os dias, sem descanso.

O primeiro deles é o tipo de trabalho. O caminhoneiro passa a maior parte do tempo na estrada, e, algumas vezes, precisa até passar suas folgas semanais no caminhão, longe de casa, da família e dos amigos. Esse tempo longe de casa acaba dificultando os vínculos familiares, com os filhos principalmente, e é comum os caminhoneiros contarem histórias sobre perderem aniversários, datas comemorativas e até mesmo o nascimento dos próprios filhos, por estarem longe demais e não conseguirem chegar a tempo.

Outro problema é o tempo que se passa ao volante. Apesar de todos os países mais desenvolvidos terem legislações específicas para regular a jornada dos caminhoneiros, o tempo que se passa na direção do caminhão, sentado em uma mesma posição e realizando tarefas extremamente repetitivas é bastante alto. Outro ponto é que muitas vezes as jornadas de trabalho não são regradas, e os caminhoneiros podem rodar durante o dia e a noite, em horários alternados, sem hora certa para parar, comer, descansar.

Dormindo mal

E o descanso geralmente é ruim. As cabines não oferecem um nível de conforto satisfatório para que o caminhoneiro tenha uma boa noite de sono, de forma tranquila e silenciosa, que garanta a plena recuperação do estado físico e mental para a jornada no dia seguinte. Muitos caminhoneiros apresentam distúrbios do sono, o que causa sonolência excessiva durante o dia, e reduz o nível de atenção durante a condução do caminhão.

Comer bem também é um desafio. Se o motorista tem uma rotina de entregas com pouco tempo para as refeições, não consegue preparar a própria comida, e acaba se alimentando mal, com comidas ruins ou lanches rápidos, e muitas vezes come enquanto dirige, para não atrasar aquela entrega que não pode chegar depois do horário estipulado, mesmo que a legislação seja específica sobre as pausas para descanso durante a jornada.

Saúde comprometida

Essa rotina de trabalhar muito, dormir mal e se alimentar de forma inadequada é muito prejudicial à saúde dos caminhoneiros, que podem apresentar uma série de problemas de saúde, como pressão alta, problemas de coração, obesidade, entre outros.

Pesquisas mostram que até 30% dos profissionais do volante apresentam alguns tipo de problema de saúde, relacionados à profissão e ao sedentarismo, além de outros problemas, relacionados ao tabagismo e até ao uso de substâncias ilícitas, que são usadas como estimulantes.

Falta de infraestrutura

As estradas trazem também uma série de dificuldades, com rodovias mal projetadas para a circulação de caminhões pesados, buracos, falta de terceiras-faixas, de trechos duplicados e de acostamentos, além de poucos locais adequados para parar o caminhão em caso de necessidade. O caminhoneiro também está sujeito a um grande nível de estresse pela própria segurança ao volante, devido às atitudes de muitos motoristas imprudentes nas estradas de todo o país.

Excesso de leis

O legislação, em muitos casos, é considerada excessiva pelos caminhoneiros, devido ao alto número de exigências, certificados de cursos, e renovação constante de documento para poderem trabalhar, além de regras específicas sobre a jornada não considerarem problemas das estradas, como a falta de locais seguros para parar à noite, ou a dificuldade de terminar uma viagem em casa, às vezes, por poucos quilômetros, já que a legislação não permite que o caminhoneiro continue dirigindo até chegar em casa, em viagens que, muitas vezes, não duraria uma hora.

Tempo de espera

O caminhoneiro é pago para dirigir, e muitas vezes recebe premiações pela quantidade de quilômetros rodados no final do mês. Porém, muitos dias durante cada mês são perdidos enquanto os caminhões precisam ficar parados em locais de carga e descarga, problema geralmente causado por um mal gerenciamento logístico das empresas embarcadoras, além de problemas de documentação das cargas ou apenas porque o recebedor quer usar o caminhão como um armazém.

Risco de vida

Dados de pesquisas com profissionais de vários setores também mostram que os motoristas de caminhão estão entre os profissionais que mais morrem em decorrência da profissão, em acidentes, muitas vezes causados por problemas nas rodovias ou excesso de tempo ao volante, além de crimes, como o roubo de cargas, onde motoristas acabam reféns de quadrilhas e podem acabar sendo assassinados pelos criminosos.

A falta de segurança, com roubos e furtos de caminhões, cargas e até peças dos veículos é outro ponto que impacta diretamente a vida do caminhoneiro. Devido ao fato de dirigirem por todo lugar, em trechos de rodovias muitas vezes sem nenhum policiamento, os caminhoneiros se tornam presas fáceis nas mãos da bandidagem, o que os mantém com um nível de preocupação constante pela própria segurança.

Salário baixo

Mas um dos pontos principais para a falta de motoristas em todo o mundo são os salários. Apesar de muitas empresas mundo a fora anunciarem grandes altas nos salários dos caminhoneiros, além de bonificações e premiações por desempenho, o salário total pago para eles ainda acaba sendo menor do que em outras profissões, apesar da grande lista de problemas citados, entre outros mais, e os custos para viver na estrada.

Geralmente, apesar de receberem valores de diárias para se manterem na estrada, o valor não é suficiente, o que exige que o caminhoneiro gaste do próprio bolso para conseguir se manter trabalhando, reduzindo o salário que efetivamente sobra no final do mês.

Problema que se agrava

A falta de caminhoneiros não é um problema localizado em grandes economias, como EUA, Reino Unido e outros. O Brasil também começa a enfrentar essa realidade. Dados do Instituto Paulista do Transporte de Carga (IPTC) mostram que a maioria das empresas de transporte de São Paulo já tem vagas em aberto que não conseguem preencher.

O estudo do IPTC mostra que 81% das empresas já percebe essa falta crítica de profissionais, e ressalta que 34% delas enfrentam grande rotatividade de motoristas. A pesquisa também mostra que as frotas de 38% das empresas tem caminhões parados por falta de caminhoneiros.

E a pandemia piorou o problema. Apesar de muitos profissionais terem sido demitidos das empresas, em todo o mundo, no inicio da pandemia de Covid-19, incluindo os caminhoneiros, após a retomada do crescimento das economias mundiais, a recontratação de profissionais não encontrou os trabalhadores dispostos a voltarem aos mesmos empregos.

Para se ter uma ideia, em abril de 2020, nos Estados Unidos, cerca de 80 mil caminhoneiros foram demitidos. A maioria encontrou outras ocupações e não retornou para o trabalho ao volante de caminhões, o que potencializou o problema da falta de motoristas.

Soluções só a longo prazo

O Reino Unido, que estão no centro do problema atualmente, está tentando uma série de alternativas para se livrar do problema, como a importação de profissionais de outros países da Europa. O problema é que, quando um país contrata profissionais de outro país, começam a faltar profissionais no segundo país. Isso já acontece, por exemplo, na Romênia, que era tradicionalmente exportadora de mão de obra para outros países, e agora enfrenta problemas localmente.

Outras medidas, como aumento dos salários, redução da idade mínima para dirigir caminhões e outras que podem ser tentados não conseguem acabar com a falta de caminhoneiros de uma vez, apenas gradualmente, o que não é suficiente, visto que as economias crescem, e cada vez mais caminhões são necessários para transportar diariamente bilhões de itens em todo o mundo, e mais caminhões precisam ser dirigidos por mais caminhoneiros.

Em todos os cenários, a falta de caminhoneiros não é um problema fácil de resolver, e deve durar ainda por muitos anos.

Rafael Brusque – Blog do Caminhoneiro

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