O exame toxicológico e a punição aos bons profissionais

O exame toxicológico passou a ser obrigatório em março de 2016 para todos os motoristas profissionais, ou seja, aqueles habilitados com a carteira de motorista nas categorias C, D e E, que permite a direção de caminhões, ônibus e carretas. O exame chegou custando cerca de R$ 300, ou até mais, e atualmente pode ser encontrado na faixa dos R$ 150, desembolsados pelos motoristas em cada renovação da CNH e também a cada 2,5 anos.

A ideia do exame é boa: Retirar das estradas aqueles motoristas que fazem uso de uma série de drogas, que podem comprometer a capacidade de guiar um veículo pesado, evitando graves acidentes.

Estimativas apontam que mais de 3,6 milhões de motoristas profissionais rebaixaram a categoria de sua CNH ou deixaram de obter o documento, desde que o exame passou a ser obrigatório, o que mostraria um alto índice de consumo de drogas nas estradas do Brasil.

Apesar desses números, considerados alarmantes, o que pode ter acontecido é justamente o oposto. Milhares de motoristas profissionais aposentados, que tem a CNH profissional mas estão em outras profissões e outras pessoas habilitadas profissionalmente, decidiram pelo rebaixamento da categoria de suas carteiras; e muitas pessoas que tinham interesse em ter o documento podem ter desistido de obtê-lo, devido ao aumento dos custos e burocracia.

E não há um amplo estudo sobre esse movimento nos últimos anos. O que se diz é apenas que essa desistência de 3,6 milhões de motoristas seria por usarem drogas, o que não se pode afirmar tão categoricamente assim. Apenas em conversa com motoristas aposentados, já se pode notar que eles rebaixaram a CNH apenas para evitar terem que pagar o exame, já que não desempenham mais a função de motorista.

E muitos caminhoneiros usuários de rebites e outras drogas seguem nas estradas. Isso pode ser comprovado com certa facilidade, apenas verificando a quantidade de apreensões de “drogas para consumo” em caminhões em todo o Brasil, realizadas pelas policias rodoviárias federal e estaduais. Ou seja, mesmo com a exigência do exame, muitos motoristas seguem impunes, dirigindo alienados, e arriscando a própria vida e a de terceiros pelas estradas.

Seguir dirigindo sendo usuário de drogas não é muito difícil. Basta achar quem entenda do famoso “jeitinho”. Grupos bem organizados, com pessoas dentro dos Detrans, de clínicas e de autoescolas, realizam exames toxicológicos falsos, mediante o pagamento de valores extras na hora da solicitação do exame.

Para isso, é feita a coleta de pelos ou unhas de outras pessoas, que não usam drogas, e os maus profissionais seguem nas estradas, passando por cima da burocracia que afeta verdadeiramente quem trabalha corretamente.

Enquanto isso, o bom profissional segue sendo punido, pagando uma taxa que não precisaria pagar, por nunca ter feito uso de droga nenhuma para trabalhar em seu caminhão. Esse profissional vai pelo caminho certo, mas acaba pagando uma multa pelos maus profissionais.

Além do exame toxicológico tradicional, realizado com pelos e unhas, o exame também deveria ser realizado nas estradas, por exemplo, com coleta de urina. Esses exames aleatórios poderiam tirar da estrada quem realmente é o mau profissional. E os caminhoneiros flagrados com posse de drogas também deveriam perder a CNH automaticamente.

Outra solicitação dos bons motoristas é a ampliação da faixa dos exames, exigida exclusivamente para os motoristas profissionais nos dias atuais. Eles pedem que o exame seja realizado também em quem tenha a CNH A e B, que permite a condução de motos e automóveis, pois não é só o motorista que está em um caminhão que se sujeita ao uso de drogas.

E vale lembrar que o motorista que usa drogas, muitas vezes, o faz porque quer. A grande maioria dos motoristas de caminhões do país nunca usou nenhuma droga para poder entregar suas cargas, mesmo realizando os mesmos tipos de transportes que quem usa drogas faz.

Nesse sentido, o que você acha que deveria ser feito?

Rafael Brusque – Blog do Caminhoneiro

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