HISTÓRIA DA ESTRADA – CAMINHONEIRO DESOLADO

por Blog do Caminhoneiro

Ele amava tanto aquela menina.
Eram amigos, mas para ele era amor.
A imagem dela ia com ele na cabina.
Seu coração apertado de dor.

Aos seus olhos ela era perfeita.
Ela o queria como amigo somente.
Em seu coração ela era a eleita.
Um homem sabe o que o coração sente.

A bordo de seu potente caminhão.
Não era uma máquina qualquer.
Iveco, tanta potência, ele o tinha na mão.
Mas o coração pertencia àquela mulher.

Quando chegava de viagem.
Convidava a menina para sair.
De se declarar tivera coragem.
Com ele, a jovem não quis ir.

Ela não tinha namorado.
Seus relacionamentos não deram certo.
Ele a ouvia, o coração desconsolado.
Sentia-se bem estando por perto.

Amava a vida na estrada.
Dirigir, para ele, era tudo de bom.
sua carreta cortava a madrugada.
Ouvia o motor, gostoso som.

Por mais que demonstrasse carinho.
Ela só o queria como amigo.
Na cabine do Iveco, viajava sozinho.
Por ela não temia qualquer perigo.

A menina arrumou namorado.
Via-se que não a levaria a sério.
O rapaz tinha um jeito folgado.
Relacionamento para ela, deletério.

Ele se aproveitava dela.
Tipo do homem que só apronta.
Quando saía para jantar com ela.
Era a menina que pagava a conta.

O carreteiro sofria vendo o que acontecia.
Sabia que não daria certo, ela pagava pra ver.
Tudo aconteceu em um certo dia.
Situação triste fez o interesseiro desaparecer.

Certo dia, a menina linda adoeceu.
Para ele isso foi grande tormento.
Cirrose, em seu exame apareceu.
Para ambos, grande foi o sofrimento.

Ela precisaria de um transplante.
Dependeria da morte de uma pessoa.
Aquele homem, apaixonado viajante.
Preocupado e a preocupação não era a toa.

O namorado nem deu satisfação.
Não ficaria com uma mulher doente.
Só queria festa e muita diversão.
viver momentos bons somente.

O carreteiro levou-a ao médico.
Não era nada bom o prognóstico.
O doutor estava bastante cético.
Morreria em meses era o diagnóstico.

A menina entrou em desespero.
Afinal, tinha tanta vida pela frente.
Ele tinha de fazer algo e ligeiro.
Levava algo no coração e na mente.

Conversou com o médico, foi sincero.
Queria ser para ela o doador .
Implorou, disse ao médico: “Eu quero”.
Faço isso como ato supremo de amor.

O médico disse que não poderia fazer.
Para salvar uma doente, mataria um são.
Não permitiria a ele morrer para ela viver.
A resposta do profissional era não.

O rapaz insistiu, família não tinha
Se morresse ninguém reclamaria.
Dou para ela a vida minha.
Tanta devoção, o médico não entendia.

O médico era grande especialista.
Tirar dele todo o fígado não podia.
Cirurgia inédita nunca antes vista.
Nesse transplante ele tentaria.

Fizeram teste de compatibilidade.
Com medicamentos, não teria rejeição.
Demonstrou com isso sua felicidade.
Garantia de sucesso não havia não.

A menina, internada no hospital.
Crítica era sua situação.
Para ela, a cirurgia poderia ser fatal.
Mas o transplante era a única solução.

O rapaz pediu ao médico segredo.
Não queria que a menina soubesse.
Ele fazia isso sem sentir medo.
Mas faria por ela o que pudesse.

O rapaz a visitou no seu leito.
Disse que ela receberia transplante.
A menina sorriu, rosto perfeito.
Diante dela, ele estava radiante.

Ela perguntou quem era o doador.
O rapaz disfarçou, disse não saber.
Ele a olhava com tanto carinho e amor.
Sem medo da morte, para ela viver.

Ao centro cirúrgico foram levados.
Lado a lado mas não se viam.
Ambos estavam anestesiados.
O procedimento logo iniciariam.

Durou muitas horas a cirurgia.
vinte por cento do órgão lhe restou.
O médico não imaginava que resistiria.
Aquele homem era forte e aguentou.

As próximas horas seriam decisivas.
Os dois, na UTI inspiravam cuidados.
Luta para manter duas pessoas vivas.
Médicos e enfermeiros engajados.

Ela começou a se recuperar.
Corpo aceitou bem fígado doado.
O coração do rapaz chegou a parar.
Com dificuldade foi ressuscitado.

Os dias foram passando.
A menina ficando cada vez melhor.
Enquanto ela ia se recuperando.
O rapaz ficava muito pior.

Outra parada cardiorrespiratória.
Os médicos conseguiam reverter.
Ato de amor, teria final trágico a história.
Para salvá-la, talvez ele iria morrer.

Quando ela enfim acordou.
Na UTI, olhou de lado.
Viu aquele que sempre a ajudou.
Mas, porque estava ali internado?

Quando a enfermeira veio até ela.
Atordoada pelo sono perguntou.
Porque seu amigo estava ali ao lado dela?
A enfermeira, sem saber do segredo falou.

O rapaz que estava a seu lado.
Doara quase todo o fígado para ela.
A menina com o coração emocionado.
Não compreendia atitude tão singela.

Seus olhos deixaram escorrer lágrimas.
Não dera valor a quem tanto a amava.
Se não sobrevivesse, maior das lástimas.
Ele era o homem da sua vida, agora enxergava.

Ele lutava pela vida bravamente.
O pequeno pedaço de órgão aguentando.
Tomava soro e injetáveis somente.
O tempo a seu favor, ia passando.

Ela saiu da UTI finalmente.
Levada ao quarto, boa evolução.
O carreteiro sobrevivia somente.
Aguentou firme o coração.

Após um mês da cirurgia.
Ele foi também levado ao apartamento.
Para a equipe médica, um grande dia.
Aquele era um vitorioso momento.

A menina teve ótima recuperação.
Ele saíra da Unidade de Terapia Intensiva.
Momento de alegria e grande emoção.
Por causa dele, ela estava viva.

Mesmo andando com dificuldade.
A menina quis visitá-lo em seu leito.
Ao vê-la qual não foi sua felicidade.
Sentiu o coração bater forte no peito.

Ela lhe perguntou porque fizera aquilo.
Doou quase todo o fígado para ela.
O rapaz a olhou, semblante tranquilo.
Disse que quem ama, pelo seu amor zela.

Dando um suspiro profundo.
Como se ela já não soubesse.
Disse que não viveria em um mundo
Em que ela não estivesse.

Entre lágrimas ela lhe respondeu.
Vou te dar um grande motivo para viver.
Meu coração é todinho seu.
Casar-me com você vou querer.

Após meses internados no hospital.
No mesmo dia, receberam alta.
A recuperação de ambos, sem igual.
Um do outro sentiram falta.

Ela na casa de seus pais.
Ele em casa na recuperação.
O coração do rapaz, feliz demais.
Seu fígado em lenta regeneração.

Quando sentiu-se bem para sair.
Foi visitar aquela a quem amava tanto.
Feliz por seu Iveco novamente dirigir.
Tornara alegria a tristeza e o pranto.

Dirigia feliz como um menino.
Desceu do cavalo emocionado.
Recebeu duro golpe do destino.
Na casa dela, viu o ex-namorado.

Um nos braços do outro, que cena.
Cruel golpe recebeu nesse momento.
Ela olhou para ele, parecia sentir pena.
Por ato de amor, não teve arrependimento.

Fez o que fez e faria novamente.
Virou as costas e foi embora.
Adentrou seu Iveco, caminhão potente.
Partiria naquela mesma hora.

Ela veio até a porta com o namorado.
A certa distância, a carreta já ia.
O que prometera em ato desesperado.
De dar seu coração a ele, não cumpriria.

A bordo do Iveco, semblante triste.
Com o coração sofrendo ele partia.
Ele pensava que se a felicidade existe.
Certamente para ele, algum dia ela sorriria.

Roberto Dias Alvares

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