Após anos sem modelos europeus, transportadores russos destacam atributos de caminhões chineses

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No cenário em transformação do transporte rodoviário russo, após o início da invasão do país ao território da Ucrânia, os caminhões chineses emergiram como protagonistas em um mercado que viu a saída de marcas europeias tradicionais. Um recente relatório da Agência Nacional de Informação Industrial (NAPI) aponta que os custos operacionais desses veículos subiram entre 4,2% e 5,6% em 2025, com o Sitrak C7H, um dos mais vendidos atualmente por lá, custando 38,36 rublos por quilômetro (R$ 2,46 por km rodado).

Apesar disso, o preço médio do veículo caiu 4,9%, para 8,76 milhões de rublos (R$ 560,7 mil), tornando-o uma opção atraente para os transportadores russos.

A empresa Intra Logistics, que opera dezenas de caminhões chineses ao lado de modelos europeus mais antigos, revela os pontos fortes e fracos desses gigantes asiáticos, com foco no Sitrak, o cavalo mecânico mais popular da Rússia, rivalizando apenas com caminhões Kamaz, produzidos atualmente em pequeno número no território russo, por conta das sanções ocidentais.

Com mais de 15 anos no mercado de fretes, a Intra Logistics, especializada em cargas diversas e entregas postais, já foi fiel aos tratores MAN TGS e TGX. As mudanças no mercado forçaram uma diversificação, e hoje a frota da empresa conta com 100 caminhões pesados, que inclui 32 Sitrak C7H, 14 FAW J7 e oito Foton Auman EST-A.

Essa transição reflete não apenas uma adaptação às realidades do mercado, mas também uma aposta na promessa de confiabilidade dos fabricantes chineses, que estão ganhando terreno onde gigantes europeus antes dominavam.

Em outubro de 2022, a Intra Logistics adquiriu seu primeiro Sitrak C7H 480, que já acumula impressionantes 790.000 quilômetros. Este marco sinaliza a entrada dos caminhões chineses em uma frota antes dominada por modelos alemães, desafiando preconceitos iniciais.

Motoristas como Roman Mikhalin não escondem o entusiasmo pelo Sitrak. Comparando-o a um MAN TGX de 2018, ele elogia os faróis mais eficientes, a ergonomia do assento para passar o dia trabalhando e o refrigerador integrado, ideal para viagens longas. A cabine, com isolamento térmico de segunda geração introduzido em 2025, e um aquecedor de estacionamento confiável, enfrentam com sucesso os rigores do inverno russo.

A Visão do CEO Maxim Kozin, diretor da Intra Logistics, inicialmente duvidava da longevidade do Sitrak, prevendo uma vida útil de apenas 500.000 quilômetros. Três anos depois, sua perspectiva mudou: ele agora acredita que esses caminhões podem ultrapassar a marca de um milhão de quilômetros. “O trem de força é confiável”, afirma Kozin, destacando que manutenção regular e cuidados básicos garantem produtividade similar a modelos europeus.

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No entanto, ele aponta desafios como diversos casos de ferrugem em cabines e desgaste interno após longos períodos, evidenciando que o tempo, mais que a quilometragem, é o verdadeiro teste.

O coração do Sitrak, um motor diesel de 12,6 litros baseado no MAN D26, entrega 480 cavalos e 2.300 Nm de torque, com intervalos de manutenção de 50.000 quilômetros. Eduard Khmelev, chefe de mecânica da empresa, enfatiza a importância de filtros originais, lubrificação regular e ajustes de válvulas, já que o intervalo de serviço é mais curto que o dos europeus. O limitador de velocidade a 90 km/h é rigorosamente respeitado, garantindo a durabilidade do motor, que se prova um pilar de confiança nos caminhões chineses.

Equipado com a transmissão ZF Traxon de origem chinesa, com 12 velocidades, o Sitrak oferece trocas de marchas suaves em condições russas, mas não está imune a problemas. Falhas como garfos de transmissão defeituosos exigiram reparos ainda em garantia, embora o suporte do revendedor tenha sido eficiente.

Mesmo fora da garantia, a Intra Logistics opta por serviços autorizados, mostrando confiança na rede de pós-venda. A transmissão é um destaque, mas sua manutenção é crucial para evitar contratempos.

Manter um Sitrak custa cerca de 57.000 rublos por serviço (R$ 3,7 mil), excluindo ajustes extras, enquanto lonas de freio duram até 300.000 quilômetros, com custo de 8.000 rublos por eixo (R$ 512). A Intra Logistics adota uma abordagem proativa, mantendo um estoque interno de peças e trocando filtros com mais frequência do que o recomendado, adaptando-se às condições extremas das rotas russas. Substituições como a junta do eixo cardã e a bomba d’água são normais após três anos, alinhando-se às expectativas para caminhões pesados.

Os maiores problemas

Apesar da robustez mecânica, os sistemas elétricos do Sitrak são uma fraqueza, especialmente em modelos mais antigos. Problemas com fiação exposta à umidade afetam iluminação e controles do motor e transmissão, embora melhorias em 2025 tenham reforçado a vedação dos chicotes e conectores elétricos.

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Comparado ao Foton Auman, que sofre com suspensão frágil e erros frequentes no ABS/EBS, o Sitrak é mais fácil de reparar, com a rede de pós-venda da Sinotrak Rus, representante na região recebendo elogios. Ainda assim, a eletrônica segue como um ponto de atenção para os proprietários.

Os custos operacionais do Sitrak são competitivos, a 1,6 rublos (R$ 0,10) por quilômetro após 600.000 quilômetros, contra 1,8 (R$ 0,12) para o FAW J6 e 3,0 (R$ 0,19) para o Foton Auman.

O consumo de combustível, de 27–28 litros por 100 quilômetros, aumenta para 30 em condições adversas, um pouco acima dos europeus. Apesar disso, o Sitrak e o FAW superam expectativas, com o último ligeiramente mais confiável devido a menos problemas elétricos.

A crescente demanda por caminhões chineses usados sinaliza uma mudança de percepção: de questionáveis, eles se tornaram opções sólidas, prontas para enfrentar o futuro do transporte russo.

Rafael Brusque - Blog do Caminhoneiro

Nascido e criado na margem de uma importante rodovia paranaense, apaixonado por caminhões e por tudo movido a diesel.

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