J. Pedro Corrêa – A primeira

Você conhece alguma cidade brasileira que esteja “fechando para o automóvel”? Uma reportagem da BBC Brasil destes dias destacou quatro grandes cidades no exterior que estão grandemente motivadas a tirar espaço dos carros e colocá-los à disposição de pedestres, ciclistas e da melhor qualidade de vida da sociedade.

Chama a atenção que ainda não tenhamos qualquer cidade do país anunciando ruidosamente ser a primeira a “entrar no clube” pois não há dúvidas de que muitas outras seguirão o mesmo caminho. É a nova tendência na vida urbana das grandes cidades.

É claro que a matéria da BBC se referia a apenas quatro grandes metrópoles, mas esta experiência já está em plena operação pelo mundo afora há algum tempo. Me lembro de ter conhecido experiências iniciais de Copenhague já em 2006. Mas, o que significa, realmente entrar nesta nova onda que parece ter boas chances de progredir?

Estas cidades fecharam áreas centrais para os automóveis, criaram ruas exclusivas para pedestres e transformaram estacionamentos em pequenas praças ou restaurantes temporários. Muitas ampliaram suas redes de ciclovias, convertendo ruas que antes estavam cheias de carros em espaços para pedalar e caminhar. Há ainda as que estão endurecendo a fiscalização em relação à proteção ambiental. Na época, isto tudo trouxe bons resultados para todos no combate à Covid: estudos demonstraram que a pandemia se espalhava com menos velocidade nas áreas abertas, reformadas.

As cidades mencionadas na reportagem da BBC foram Paris, na França, Bogotá, na Colômbia, Milão, na Itália e São Francisco, na Califórnia, Estados Unidos. Tenho acompanhado outros exemplos como Copenhague, na Dinamarca, Sidney, na Austrália, fazendo verdadeiras proezas urbanas para elevar a qualidade de vida de seus habitantes. Ainda que não tenham “declarado guerra” aos automóveis, fizeram clara opção para dificultar sua circulação nos centros urbanos em benefício dos mais vulneráveis.

Atualmente, o Brasil vive momento especial, testemunhando desafios interessantes na sua paisagem urbana, apesar das turbulências observadas nas áreas social e econômica, para citar duas importantes. Muitas cidades têm mostrado grandes progressos no desenvolvimento urbano, acompanhando tendência já praticada em várias cidades importantes, notadamente no primeiro mundo, mas não só nele: Bogotá, capital da Colômbia, por exemplo é uma boa exceção, destacando-se pelos milagres processados no transporte de massa bem como pelos avanços da ciclomobilidade, entre outros.

As ruas de pedestres – os calçadões – são uma realidade no Brasil desde os anos 1970 quando o então prefeito Jaime Lerner inaugurou a Rua das Flores, em Curitiba para desespero inicial dos comerciantes, mas depois transformado em alívio, graças à notável aceitação por parte da população da capital paranaense.

As grandes batalhas enfrentadas, há anos, pelos cicloativistas começam a mostrar resultados concretos e, em alguns casos, surpreendentes pela adesão da sociedade à bicicleta não apenas como modo de lazer, mas como meio de transporte, fenômeno potencializado com o advento da pandemia depois de 2020.

A pandemia, foi, na verdade a grande impulsionadora deste movimento que se torna a cada dia mais robusto não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Os benefícios à saúde e à qualidade de vida das cidades conseguiram falar mais alto e serem ouvidos pelas lideranças nacionais e regionais. No seu rastro, as preocupações com o meio ambiente ocupam a agenda cotidiana da sociedade mundial e ela parece ocupar lugar de destaque por aqui também, ainda que não se possa comemorar como uma conquista já consumada, mas a caminho.

O fechamento de certas áreas das cidades para os carros e o consequente convite à sociedade para ocupá-las a pé ou de bicicleta parece ser uma consequência natural. Agora depende da coragem, da criatividade dos prefeitos e das autoridades regionais, de dar andamento ao processo. Não será preciso demonizar os carros, mas ser intransigente na defesa das pessoas. A (qualidade de) vida está em primeiro lugar.

É claro que esta batalha não está vencida ainda. Faltam outras conquistas importantes, difíceis, complexas, pela frente, como a melhoria dos serviços de transportes de massa, verdadeiro calcanhar de Aquiles das cidades brasileiras. Não podemos esquecer, claro, da segurança no trânsito como fator essencial para sacramentar outra grande vitória brasileira. É claro que se tivermos firmeza no avanço da restrição de áreas para carros em benefícios de pedestres e ciclistas e somarmos progressos firmes na proteção do meio ambiente, isto também provocará avanços no combate aos sinistros de trânsito.

Importante lembrar: não basta apenas torcer para que isto aconteça: temos de estar vigilantes aos temas e prontos para agir junto às lideranças políticas e sociais cobrando delas as respostas concretas.

J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
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