J. Pedro Corrêa – Correr menos para viver mais

Eis aí um jogo estranho: o vencedor nem sempre sai ganhando, mas quando perde, pode perder tudo, até a vida: o excesso de velocidade, que continua sendo um dos maiores desafios do trânsito em todos os tempos. Desde o sempre ele tem sido o vilão do trânsito pelas perdas que provoca e pelas dores que deixa na sociedade. Já se tentou de (quase)tudo para coibir o excesso de velocidade, mas, aparentemente nada consegue tirar o ímpeto dos que o apreciam ou mesmo que, praticando, não se dão conta de que estão colocando suas vidas em risco e principalmente as dos demais usuários do trânsito. Todas essas tentativas frustradas de enfrentamento mostram apenas que aprendemos muitas formas de como a coisa não funciona. Significa, outrossim, que teremos de tentar outras maneiras ainda não aplicadas.

Recebi hoje, sexta-feira, 28/10 um relatório do Conselho Europeu de Segurança no Transporte (ETSC) com um resumo das respostas sobre as propostas do Conselho para a redução da velocidade nos países membros. A maioria dos países aprova as propostas, outros as julgam interessantes e oportunas e vão submetê-las a discussões internas e há ainda os que acham desnecessário mexer na legislação porque suas estradas são suficiente seguras, caso da Alemanha.

Sempre há ganhos nestes movimentos em favor da segurança, notadamente quando membros se dispõem a discutir o tema de forma mais profunda com suas lideranças políticas que precisam ser convencidas da importância das medidas sugeridas.

No caso da proposta atual do ETSC, seu objetivo maior é a redução das fatalidades no trânsito dos países membros, mas o “gancho”, como se diz no jargão jornalístico, foi a economia. Bruxelas, onde fica o ETSC, mostrou que a guerra na Ucrânia está provocando um arrepio de medo na Europa Central pelo risco de escassez de energia e uma redução de velocidade no trânsito (menor consumo de combustível) pode ajudar os países membros a diminuir a dependência do gás russo, ameaçado de corte. Um belo argumento, oportunamente levantado para convencer todos os europeus a colaborar um pouco com a economia indispensável.

Por outro lado, a Europa se prepara para começar outra experiência importante que pode ser decisiva no controle da velocidade: um equipamento chamado ISA – Assistência Inteligente de Velocidade. A ISA impede que o automóvel ultrapasse a velocidade da via, mesmo que o motorista pressione o acelerador. Pode, contudo, ser desativado a qualquer momento pelo condutor. O sistema se alimenta de informações de navegação e leitura de placas de trânsito para definir o limite de velocidade. Ao detectar que o motorista está acelerando mais que o permitido, o sistema o alerta até corrigir a velocidade de quatro formas diferentes: alerta sonoro ou/e visual, emissão de vibrações no volante, alteração da sensibilidade do acelerador ou até mesmo redução autônoma da velocidade do veículo.

O Conselho Europeu de Segurança dos Transportes afirma que “se a velocidade for reduzida em apenas 1%, já seria possível diminuir 4% das mortes no trânsito em toda União Europeia”, só para dar ideia do quanto os países podem ganhar com a utilização da ISA.

Tive oportunidade de dirigir um carro adaptado com a ISA, na Suécia, bem no início dos testes, há cerca de 20 anos. É uma sensação estranha de pressionar o acelerador e perceber que ele se torna mais pesado e não aceita o seu comando. Os cientistas suecos da Universidade de Lund já estavam entusiasmados com a novidade que passa a ser obrigatória em todos os carros produzidos a partir do meio deste ano na Europa. Nova Iorque, por sua vez, está aprovando uma lei para tornar o sistema ISA obrigatório a partir de janeiro do próximo ano. Se grandes cidades seguirem o mesmo caminho de Nova Iorque não tenho dúvidas de que cedo boa parte do mundo também fará uso do sistema.

No Brasil ainda não temos nenhum tipo de dispositivo nesta área, mas isto será inevitável e por isto devemos nos preparar para saudar sua chegada. Adoraria ver uma grande campanha de informação pública mostrando à sociedade os benefícios da ISA, já provado através dos inúmeros testes desenvolvidos em vários países.

Obviamente haverá resistência por parte de uma minoria que não quer interromper seu prazer de dirigir acima dos limites ou que pode alegar mais custos para se opor. Para enfrentar estes contrários, teremos de prover informações abundantes e consistentes a legisladores, lideranças, meios de comunicação e à sociedade em geral. O ideal seria que instituições ligadas a segurança no trânsito preparassem um arsenal de argumentos sólidos a serem usados no início dos testes da ISA por aqui para que não corramos o risco de perder mais uma batalha vital para o futuro da segurança no trânsito no Brasil.

Estejamos, pois, atentos pois está chegando a hora de provar que, correr menos, pode significar viver mais.

J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
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