A MENINA A BEIRA DA ESTRADA – SCANIA VABIS 111

por Blog do Caminhoneiro

scania 111s jacare

Scania Vabis cento e onze
Admirada, ainda hoje é.
Resistente como bronze,
carinhosamente chamada jacaré.

Cabine de cor vermelha
proporciona um belo tom.
Com carregamento de telha
ouvindo do motor o som.

Antônio era carreteiro
tinha vinte cinco anos de idade.
Fazendo transporte no Brasil inteiro,
levando o progresso de cidade em cidade.

Antônio tinha um apelido:
De Tonho era chamado.
Assim era conhecido
e já tinha se acostumado.

Carga de telhas de concreto
telhas de argila também levava.
Cortando aquele trecho reto,
uma bela canção cantarolava.

Seu cavalo mecânico trucado
com trinta toneladas na carreta.
Para grande centro era levado.
Bom dinheiro na ponta da caneta.

Passava em frente a um portão
de pequena propriedade rural.
Ali, menina sentada no chão,
enfeitava plantação de arrozal.

Muitas viagens de telhas levando,
Antônio ainda faria.
No mesmo lugar ali observando
aquela menina ele via.

Com o tempo, começou acenar
e a menina retribuía o aceno.
Havia uma rápida troca de olhar.
O caminhão distante parecia pequeno.

Tinha sempre a mesma visão,
quando passava naquele lugar.
Olhando pela janela do caminhão,
a menina para a estrada a acenar.

Certa noite Antônio dormia,
sonhou com a jovem do portão.
Quando acordou naquele dia
estava opressa sua respiração.

Passando ali, ele não resistiu
e parou próximo ao portão.
No mesmo lugar ali viu
a menina que olhava o caminhão.

A menina ficou de pé
e parecia um pouco assustada,
vendo a imponente Scania jacaré
ali no seu portão, parada.

Antônio com muita educação
cumprimentou aquela menina.
Ela olhava para ele e para o caminhão.
Era bela, delicada e pequenina.

Falou o nome estendendo a mão.
Ela disse chamar-se Maria.
Antônio olhou-a com admiração.
Conhecera a jovem á beira da via.

Naquela troca de olhares
sentiu algo no coração.
Conhecera tantos lugares
e ali descobrira o amor, a paixão.

Maria agora mais calma
olhava surpresa para Tonho.
Ele sentia uma paz na alma.
Ela era a mulher de seu sonho.

Ela convidou-o a entrar
e ele não se fez de rogado.
Agradeceu-a por convidar.
No sítio caminhava a seu lado.

Em uma casa bem humilde
na porta uma velha senhora.
Mãe da menina, senhora Matilde.
Olhava assustada naquela hora.

A menina falou docemente
que ele era um caminhoneiro.
Parou para conversar somente.
Cumprimentou-a como cavalheiro.

Disse que era imenso prazer
conhecê-la e á sua filha Maria
Parara apenas para ver
a menina á beira da rodovia.

A senhora ainda desconfiada
pensara ser assaltante talvez.
Antônio percebeu-a preocupada.
Tentou acalmá-la por sua vez.

Disse que teria de seguir viagem
e agradeceu a hospitalidade.
Aquele lugar, tinha linda paisagem.
Local bem isolado na verdade.

Toda a vez que ali passava
com a jovem parava para conversar.
Para ela um presente deixava.
Seguia para logo chegar.

Ele sentiu-se encantado.
A jovem também estava.
Sentava-se a seu lado
e com ela conversava.

Conheceu o pai de Maria
que no início ficou arredio.
Antônio de tudo fazia,
mostrando-se sempre gentil.

Pediu ao velho agricultor
para ver a jovem, permissão.
“Com todo respeito ao senhor
tenho para com ela boa intenção”.

Ele seria muito bem-vindo
se quisesse vir a seu lar.
Respeitar a jovem foi pedindo.
Antônio agradecia sem parar.

Não deixou mais aquele trajeto
para vê-la sempre que possível.
Levando telhas de concreto
no seu Scania de alto nível.

Passava por lá três vezes por semana.
Com ela já fazia mil planos.
Queria construir uma casa bacana
e casar com ela em poucos anos.

Uma noite dormiu muito mal.
Sono povoado de pesadelos.
Aquilo não era bom sinal.
Par de olhos verdes tinha de vê-los.

Passando em frente ao portão
Maria não estava a beira da via.
Ele parou ali seu caminhão.
Logo na porta da casa batia.

Ninguém veio para atender.
Ouviu a voz de uma criança.
Dela queria então saber,
onde estava a menina de trança.

A menina ficara doente
e fora levada ao hospital.
Antônio ainda descrente
Não acreditava naquilo afinal.

Chegou á pequena cidade.
Até ao hospital se dirigiu.
Levava no peito a ansiedade.
Em uma cama, deitada ele a viu.

A jovem estava abatida
acometida por grave enfermidade.
Via escapando-lhe a vida.
Um milagre era a necessidade.

Seus pais entristecidos
ao lado da cama dela.
Sentiam-se perdidos
sem ter o que fazer por ela.

Antônio conversou com o médico
que disse-lhe ser doença rara.
Com relação a ela, estava cético.
A medicação era muito cara.

Perguntou onde acharia
para ela a medicação.
Foi até a escrivaninha.
Fez importante ligação.

No Instituto Oswaldo Cruz
desenvolvido inovador remédio.
No fim do túnel a única luz
estava guardada naquele prédio.

Antônio pediu um grande favor:
Mantivesse ela viva até ele voltar.
Faria todo o possível o doutor.
Tudo que fosse necessário iria tentar.

Deixou o reboque no posto de gasolina.
Com o Scania Vabis correu alucinado.
Tentaria tudo para salvar a menina.
Acelerou sem dó seu cavalo trucado.

Dirigiu toda a noite e todo o dia.
para chegar á São Paulo, capital.
Logo ao Osvaldo Cruz chegaria,
para conseguir o remédio afinal.

Quando chegou ao instituto
procurando pelo medicamento.
Consegui-lo logo, seu intuito.
A atendente pediu um momento.

Logo conversava com o diretor.
Estava pronto a pagar o preço.
Precisava salvar seu amor.
Aquela por quem tinha apreço.

Usou todo o dinheiro guardado,
economias de anos a fio.
Mas o remédio seria bem usado.
O tempo era escasso, sentiu.

Em pequena caixa de isopor
preenchida com muito gelo.
Levaria remédio ao seu amor,
com cuidado e muito zelo.

Andando com giro elevado
mantendo alta a rotação.
Seu Scania Vabis trucado
rasgava aquele rincão.

O desespero daquele rapaz
fazia-o andar mais depressa.
E se chegasse tarde demais?
O destino não pregaria essa peça.

Quando chegou á pequena cidade,
olhos vermelhos, rosto cansado.
Desceu do bruto sem dificuldade
e adentrou o hospital angustiado.

Correu e do quarto abriu a porta.
Pais da moça estavam tristonhos.
Pensou se ela estaria morta.
Isso seria o fim de seus sonhos.

Ela estava muito fraca.
Dormia desde sua partida.
Sentou-se a seu lado na maca.
Tinha uma aparência sofrida.

O médico estava reticente
se administraria a medicação.
Ela estava fraca e doente.
Poderia morrer após a injeção.

Mas se não fosse medicada
morreria do mesmo jeito.
Pelos pais foi autorizada
na moça deitada no leito.

O remédio administrado,
restava agora a espera.
Antônio ficou a seu lado.
Enfrentaria essa quimera.

Após duas noites e dois dias
Maria acordou com olhar sereno.
Era uma daquelas manhãs frias,
mas o dia teria clima ameno.

Olhou a seu redor
e para Antônio falou:
“Agora me sinto melhor”!
“O remédio me curou”.

Os pais chegaram nesse instante.
e demonstraram imensa alegria.
De sua mãe, sorriso radiante.
Seu pai, em completa euforia.

De todos o mais contente,
Antônio o rapaz apaixonado.
Sua amada recuperou-se felizmente.
Ele estaria todo tempo a seu lado.

Decorreram três meses,
um casal subia ao altar.
Um “Sim” repetido várias vezes
Antônio e Maria acabavam de se casar.

A Scania Vabis levava na cabina
Um casal feliz que viajaria.
Antônio e sua linda menina,
aquela á beira da rodovia.

O Scania Vabis não puxava
nenhum carregamento pesado.
Latas vazias pelo chão arrastava.
Ali ia casal recém-casado.

Não eram toneladas de carga.
Apenas um agradável peso.
Aquela situação amarga,
deixara o amor de ambos aceso.

Roberto Dias Alvares

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