COLUNA MOBILIDADE EM FOCO – TRAILCAR DESENVOLVE CABINE DUPLA COM TETO ALTO PARA O FORD CARGO MAXTON

por Blog do Caminhoneiro

FORD CARGO FENATRAN 2003O ano era 2003 (mês de outubro) e na 14º Fenatran a Ford se preparou para apresentar muitas novidades. Pra começar a montadora resolveu mostrar aos seus visitantes o novo conceito padronizado dos distribuidores exclusivos da Ford, reproduzindo em seu estande exatamente como deveria ser uma revenda (e algumas já estavam adaptadas para o novo padrão). As instalações previam plantão 24 horas, veículos oficina volante, sala de espera confortável e dormitório para hospedar o motorista que precisa pernoitar para esperar o caminhão que estava em manutenção. Naquele ano a Ford contava com 127 concessionárias, 51 exclusivas de caminhões. E o objetivo era até 2006 chegar a 100% da rede. Em outra parte do estande a montadora mostrou um de seus projetos sociais voltado aos caminhoneiros e público em geral.

Era o projeto “Sorrindo com a Ford”, em vigor desde o ano 2000, feito em parceria com o dentista paulista Cássio Melo. Tratava-se do Odontomóvel, montado num Carguinho 815, era equipado com carroceria tipo baú, escada de acesso e equipamentos completos de um consultório dentário. Em quatro anos o Odontomóvel rodou 110.000 km em 21 Estados e levou tratamento e informação a quase 10.000 pessoas. Mas as novidades da Ford para 2004, apresentadas na Fenatran, iam além. A transformação de um Cargo 2631 em cavalo mecânico para canaviais virou produto de linha. Antes era implementado por oficinas independentes. Outro veículo exposto foi um F-350 com cabine dupla para avaliar a opinião dos visitantes, principalmente de pessoas ligadas a construtoras e concessionárias de serviços públicos.

Também entre as novidades o Cargo 1722 Kolector, desenvolvido pra coleta de lixo, sendo equipado opcionalmente com transmissão automática Allison, controlada eletronicamente. Mas o veículo que mais chamou a atenção do público no estande da Ford era o Cargo 4331 MaxTon, com cabine de cor verde, spoiler, carenagem, rodoar, cabine dupla e teto semi-alto. Realmente não era um Cargo qualquer. Configurado como cavalo mecânico, chassi com configuração de rodas/tração tipo 4 x 2, o que o diferenciava dos demais irmãos pesados da Ford era justamente a cabine dupla e teto alto. Continuava não saindo de fábrica nesta configuração, mas uma empresa credenciada pela Ford, a Trailcar, fazia o serviço de alongamento da cabine.

E que podia ser equipada com suspensão a ar nos pontos de fixação ao chassi, bancos revestidos em couro, compartimentos para pertences diversos, colchão com espuma de alta densidade, beliche, climatizador de ar, DVD, entre outros itens de comodidade. E com um preço pra lá de camarada, R$ 9 mil. Um baita negócio. Um Cargo 4031 custava em 2004 R$ 136.124,00. O Cargo 4331 saia por R$ 142.913,00. Se equipados com a cabine dupla Trailcar os preços eram elevados para R$ 145.124,00 (Cargo 4031) e R$ 151.913,00 (Cargo 4331). O seu concorrente direto no mercado era o Volkswagen VW 18-310 Titan Tractor, cujo preço era de R$ 157.808,00.

Resumindo, um Ford Cargo 4331 MaxTon equipado com cabine dupla e teto semi-alto Trailcar custava R$ 5.895,00 menos do que o VW 18-310 com cabine simples, standard. E com o Cargo 4031 MaxTon se economizava R$ 12.684,00. Sem contar o conforto para o motorista, maior espaço interno, cama, beliche e vários outros itens de conveniência não encontrados no VW 18-310. O motor dos três era o mesmo, Cummins, 303 cv de potência máxima. Quanto a capacidade máxima de tração (CMT), no Cargo 4031 era de 40.000 kg, no Cargo 4331 chegava a 43.000 kg e no VW 18-310 de 43.600 kg. Mas o peso bruto total combinado legal (PBTC) do representante da Volkswagen era de 41.500 kg, exatamente o mesmo valor do Cargo 4331. A Ford oferecia um caminhão eficaz para tracionar carretas de três eixos, com a mesma capacidade de carga de caminhões da categoria dos extra-pesados da Scania, Volvo e Mercedes, mas por um preço de aquisição muito menor.

O VW 18-310 era equipado com suspensão traseira com bolsões de ar a partir de 2003 e ar condicionado de série, enquanto os Cargo tinham suspensão traseira mais dura, molas semi-elípticas e parabólicas. A cabine dupla Trailcar começou nos Cargo 4031 e 4331, mas a partir de 2005 foi estendida para os semi-pesados Cargo 2421 e 2422. Vemos ainda nos dias de hoje muitos Ford Cargo desta época com cabine dupla, equipamento que confere conforto superior aos motoristas nas viagens de médias e longas distâncias. Um Cargo 4331 MaxTon ano 2004 com cabine leito e teto alto está cotado em R$ 60.000,00 no site Mercado Livre.

Isso significa que ele desvalorizou R$ 91.913,00 em 11 anos, média anual de R$ 8.355,73, 153,19%. Já o seu concorrente direto da época, VW 18-310 Titan Tractor ano 2004, a gente encontra no mesmo site pelo preço de R$ 55.000,00, desvalorização de R$ 102.808,00, R$ 9.346,18/ano, 186,93%. Em suma, na média, o VW 18-310 desvalorizou 22,02% a mais. Entregou neste período conforto inferior, maior insatisfação dos motoristas com a cabine apertada e pouco confortável, e ainda perdeu maior valor de mercado. Com um Cargo 4331 com cabine Trailcar o proprietário ganhou neste período maior comodidade nas viagens, R$990,45/ano, R$ 10.894,95 em 11 anos a mais do que ganhou um proprietário do VW 18-310 entre o que pagou e o que vale o seu caminhão agora.

E quem era a Trailcar? Ela foi fundada por Walter Schumacher na cidade de Joinville (SC) na primeira metade dos anos 70 e operou até 2008 fabricando veículos para camping, cabines duplas e veículos especiais. Começou em 1970 com um trailer pra uso pessoal do fundador e não mais parou, passando a aceitar encomendas de terceiros. Ganhou notoriedade ao montar trailers sobre o chassi do Mercedes-Benz L-608D, utilizando componentes do micro-ônibus Marcopolo Júnior. Nos anos 80 a Trailcar evoluiu para estrutura tubular integral e frente e traseira moldadas em plástico reforçado com fibra de vidro e design próprio, se estendendo a produção de unidades menores a partir de vans e sobre pick-ups.

Todos os veículos lançados pela Trailcar eram batizados com nomes começados pela letra “C”, Corsair, Confort, Commander, Concorde. Uma característica peculiar era o bom acabamento, o nível de equipamentos e a customização ao gosto do cliente. Dentre os itens disponíveis havia refrigerador duplex, fogão de quatro bocas, depurador de ar, microondas, sanitário importado com ducha separada, instalação de gás, instalação hidráulica com aquecedor central de água, torneiras monocomando, tanque de água potável, ar condicionado central com ar quente e frio, teto solar, janelas com cortinas, persianas e telas anti-insetos, rádio, TV, escada retrátil na porta de entrada e bagageiros dimensionados conforme o pedido, inclusive com espaço para motocicletas e até automóveis. Todas as funções podiam ser controladas através de painel eletrônico. A Trailcar também adaptava ônibus novos ou usados para campismo, realizando modificações nas laterais, elevação do teto, substituição de frente e instalação de bagageiros, dotando-os de completo equipamento interno.

Além dos equipamentos para campismo, a empresa produziu furgões para usos especiais (escritórios, fiscalização, oficinas) e a linha Paramedicar (unidades de resgate, ambulâncias, serviço médico e odontológico), instalada em vans ou em carrocerias de construção própria – as únicas do país com estilo pessoal –, além de efetuar transformação em cabines de caminhões e picapes. Eram grandes as variantes possíveis, sempre de plástico reforçado com fibra de vidro, desde o modelo simplificado Slim, para a linha Ford (extensão aposta à cabine original, sem soldas e em poucas horas), até alongamentos, cabines-leito e cabines-duplas para caminhões, com duas ou quatro portas. Depois de produzir mais de 500 veículos, a empresa cessou as atividades em 2008.

Texto/matéria: Carlos Alberto Ribeiro

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