Como as mudanças no mercado de pagamentos impactam diretamente a vida dos caminhoneiros

por Blog do Caminhoneiro

O mercado de transporte rodoviário de cargas é um dos mais importantes em um país continental como o Brasil, que tem sua matriz de logística majoritariamente apoiada neste modelo. Cerca de 65% das cargas transportadas aqui são via transporte rodoviário.

Com um volume de R$ 400 bilhões de reais e representando 5% do PIB em 2019, fica claro entender o motivo do governo atuar há 20 anos no processo de regulamentação deste mercado, incluindo a formalização dos pagamentos de frete e pedágio. De pano de fundo a regulamentação, existem diversos fatores que afetam diretamente o ecossistema rodoviário, como a comprovação de renda para caminhoneiros autônomos exigida para acesso a crédito, por exemplo. Outros benefícios que fazem com que a formalização seja de fato benéfica são a garantia de pagamento e recebimento aos players da cadeia e a segurança envolvida.

Porém, até o presente momento, uma fatia bem pequena foi formalizada. Estima-se que 20% dos pagamentos envolvidos no transporte rodoviário esteja dentro da legalidade e isso acontece por diversos fatores. Um deles é a cultura enraizada de motoristas e postos que ainda utilizam a Carta Frete, que existe há mais de 60 anos e funciona como um “vale”, um papel que o caminhoneiro recebe como forma de pagamento para ser trocado durante a viagem por dinheiro e que na maioria das vezes é depreciado nos postos.

Nos últimos anos, o mercado e o governo têm se movimentado com um forte apelo à democratização das operações financeiras e algumas ações que estão em curso serão as que irão aproximar os motoristas do processo de ruptura e bancarização, buscando a regulação de forma orgânica, já que irão gerar benefícios reais e tangíveis. Vale destacar que no Brasil ainda temos 45 milhões de pessoas desbancarizadas, movimentando mais de R$ 800 bilhões por ano.

Uma das mais recentes e talvez a principal ação seja o Pagamento Instantâneo, ou PIX, como está sendo chamado. Anunciada pelo Banco Central em 2019, essa modalidade de pagamento permitirá transações entre duas pessoas, sejam elas físicas e/ou jurídicas, em tempo real, 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem a obrigatoriedade de envolvimento dos grandes operadores do mercado, muito conhecidos e pouco flexíveis, como os bancos e adquirentes.

Com isso, será possível abrir um caminho para que instituições menores que atuem com processos digitalizados tenham a oportunidade de deixar a operação mais barata para todos os envolvidos. Além disso, o Banco Central, órgão regulador dos pagamentos instantâneos, estima um custo verdadeiramente baixo por transação, algo próximo a R$ 0,10. A expectativa é que o PIX gere grande impacto em transações como as de TED/DOC, reduzindo consideravelmente seus custos e, principalmente, funcionando 24 horas por dia, como também nas operações de compras em estabelecimentos que poderão ser feitas via QR Code ou Token, através do celular e sem as tradicionais “maquininhas”, cartões e contas em bancos.

Essa evolução também vai ajudar o mercado de pagamentos de frete rodoviário para motoristas autônomos e, em especial, no consumo do diesel, que representa até 50% do valor do frete. Essa será a maior oportunidade de aumento nos lucros mensais dos motoristas, que giram em torno de R$ 3.500. Atualmente, o preço do diesel ainda varia muito entre os meios de pagamento de frete e, muitas vezes, com taxas abusivas e o prazo de pagamento longo, o valor do diesel não se torna mais vantajoso do que a Carta Frete, criando uma fuga da formalização por razões econômicas.

Essa incerteza presente no mercado impacta na velocidade e consistência da mudança cultural e serve como uma barreira ainda que indireta para que os motoristas encontrem a proposta de valor necessária para a mudança de comportamento. Uma vez existindo garantias suficientes de uma redução nos custos, os motoristas irão se engajar para que os pagadores de frete se adequem a essa mudança.

Para os postos, a margem do diesel gira em torno de 8% e as adquirentes e meios de pagamento podem chegar a cobrar no pacote cerca de 3,5% sobre o valor transacionado, fazendo com que elas se tornem “acionistas minoritários” destes estabelecimentos, com quase 50% das receitas sobre o diesel. Esta margem normalmente é repassada fazendo com que os preços do diesel aumentem consideravelmente ao consumidor.

Considerando a aplicação dos Pagamentos Instantâneos no processo de compra de diesel nos postos, poderíamos supor que, ao invés do motorista pagar o litro do diesel com um acréscimo de 3,5%, ele pagaria poucos centavos por transação. Fazendo um cálculo rápido: um motorista autônomo chega a faturar R$ 25 mil por mês em fretes, consumindo R$ 12.500,00 em diesel. A economia mensal dos motoristas com diesel aumentará seu lucro em até 11% ou quase R$ 400,00. Incluindo a economia com transferências bancárias e manutenção de conta o acréscimo no lucro chegaria a 15%.

Se analisarmos este incremento, fica claro o aumento da capacidade de consumo e isso fará os motoristas se esforçarem para receber os fretes pelos meios regulados. Vale destacar que, de acordo com a Confederação Nacional de Transportes, 67% dos motoristas autônomos não tiram férias e 30% ficam mais de 20 dias por mês fora de casa. Diante dessas condições, esse acréscimo financeiro poderia garantir um mês de descanso ou uma jornada de trabalho menor ao longo do ano para os caminhoneiros. E não estamos falando apenas de melhorar a jornada de trabalho. Estamos falando de uma melhoria que impacta diretamente na saúde da categoria.

A mudança no modelo de pagamento também ajudará na inclusão digital, já que essas aplicações são feitas basicamente por um cadastro via celular. Com isso, os motoristas terão melhor acesso a diversos serviços que até então estavam distantes, como os financeiros e de saúde. O lançamento do PIX está previsto para novembro deste ano. O mercado está ansioso pelas mudanças e agora resta esperar para ver.

Artigo de Rafael Fridman, Head de Produtos de Pagamentos da Sotran Logística, uma das maiores transportadoras de cargas do Brasil. O executivo possui vasta experiência em meios de pagamento, tendo liderado a unidade de negócios voltada para caminhoneiros e transportadores na Repom e atuado como gerente da operação de logística aérea e marítima na Presscargo. Graduado em Administração de Empresas pela PUC São Paulo e possui MBA em Gestão Estratégica de Serviços pela Fundação Getúlio Vargas.

Foto Adobe Stock

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1 comentário

Jose roberto 10/07/2020 - 07:35

De todos os cartoes que tenho pra receber o frete, O REPON e o pior deles. Se um executivo da repon esta por traz disso e sinal que noa ” caminhoneiros ” estamos ferrados. Caminhao sustenta muitos aproveitadores como as administradoras de cartoes. Teria que ser direto, contratante pra contratado, acabar com os aproveitadores. Mas comoba maioria das transportadoras pertencem a politicos, como fazer a lavagem de dinheiro senao por esse meio?

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