Destrinchando os modais – parte 5: Transporte Dutoviário

por Blog do Caminhoneiro

Tubulações. Assim são conhecidas as estruturas que realizam o transporte dutoviário. Em continuação à série Os Modais de Transporte, falaremos sobre o transporte dutoviário: o início da aplicação, a tipificação dos dutos e os principais personagens envolvidos na história do modal. Como de costume, citaremos o período histórico que deu origem a esse modo de transporte, bem como os principais acontecimentos que moldaram o setor, além de apresentar a aplicação e utilização das dutovias no Brasil atual. Também demonstraremos a importância do petróleo para a movimentação do setor dutoviário, já que as primeiras tubulações objetivavam o transporte deste material. O embasamento histórico serve para mostrar ao leitor como e quando os países começaram a praticar o transporte pelos dutos.

História

O surgimento do transporte por dutos não tem data definida. Porém, estudos sobre o tema mostram que as civilizações antigas utilizavam materiais primitivos como modo de realizar a captação de água, através da formatação do material. Na China antiga, bambus eram moldados para captar a água dos rios e córregos de modo a abastecer as residências dos cidadãos. Já no Egito, o material modelado para atuar na captação de água era a cerâmica. Há relatos de civilizações posteriores, como gregos, romanos e astecas, os quais também implementaram sistemas de captação de água para abastecimento de suas cidades. Fato é que, desde muito cedo o homem observou a necessidade de transportar água a suas vilas e cidades e, tratando-se de um bem de origem líquida, não encontrou mão-de-obra servil para este trabalho através de animais, tendo de recorrer a outro modelo para realizar o abastecimento de acordo com sua necessidade.

A procura por dutovias foi instaurada majoritariamente nos últimos 200 anos. Devido ao aumento populacional, a necessidade de transportar materiais líquidos – em especial a água – fez com que a procura por meios mais dinâmicos para este modo de transporte ganhasse novos conceitos e patamares. Além disso, a emergente exploração e utilização do petróleo nos mais diversos seguimentos potencializou essa busca. Muitos dizem que foi o petróleo quem incitou os países a criar grandes redes de dutos.

Alguns historiadores acreditam que o petróleo foi descoberto por povos orientais nos primórdios da civilização, mas que, por insuficiência na exploração, manteve-se apenas como uma descoberta, sem essencial utilização aos povos antigos. Em 1859, o norte-americano Edwin Drake construiu uma torre de petróleo na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Segundo os relatos, quando a perfuração atingiu 23 metros de profundidade, o líquido jorrou abundante e incessantemente perante aqueles que o viam. O objetivo inicial era utilizá-lo como um meio de melhorar a iluminação precária existe à época.

O primeiro oleoduto de grande extensão foi construído nos Estados Unidos, no estado da Pensilvânia, em 1872, com o objetivo exclusivo de realizar um bom serviço de transporte de petróleo. Posteriormente, diversos países do mundo passaram a implementar esse modo de transporte, e, assim como os Estados Unidos, melhoraram consideravelmente a atuação em serviços de transporte de materiais líquidos.

A partir do final do século XIX, quando o petróleo foi “descoberto” como combustível fóssil – recebendo inicialmente o nome de “óleo de pedra” ou “ouro negro” –, tornou-se rapidamente o bem de maior procura pelas grandes potências mundiais. Com o surgimento dos veículos automotores, o “negócio” petróleo cresceu exponencialmente, erguendo companhias multimilionárias já nas primeiras décadas do século XX.

A primeira implantação de dutos no Brasil ocorreu em 1942, no estado da Bahia. A linha dutoviária tinha duas polegadas de diâmetro e 1 quilômetro de extensão, ligando a Refinaria Experimental de Aratu ao porto de Santa Luzia, recebendo exclusivamente petróleo. No âmbito nacional, o transporte dutoviário passou a ser mais utilizado a partir da década de 1950, quando as instalações deste modo passaram a receber parte dos investimentos nacionais em infraestrutura de transporte.

Em 1960 criou-se a OPEP (Organização dos países produtores de petróleo), entidade com sede em Viena, na Áustria, que era representada pelos cinco maiores produtores de petróleo no período: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela. O principal objetivo do órgão era atuar no controle estratégico de preços no comercio mundial de petróleo.

As tubulações de saneamento básico das cidades seguem um modelo de implementação semelhante ao das dutovias destinadas ao transporte de cargas.

Dias atuais

O órgão responsável pelo transporte dutoviário no Brasil é a ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre), incumbida pela operação organização e regulamentação desse modal de transporte. Segundo a agência, os principais produtos transportados pelo modal dutoviário no Brasil são: petróleo, óleo diesel, gasolina, etanol, GLP, querosene, nafta, minério de ferro, concentrado fosfático, sal-gema, gás natural, biocombustíveis, água, entre outros. A agência coloca o transporte dutoviário como o quarto modo de transporte mais utilizado no país, representando cerca de 4% de toda a matriz de transporte brasileira.

Segundo informação disponível no site Transporta Brasil, o país possuí atualmente 22 mil quilômetros de dutovias – devido a recente inauguração do gasoduto Rio de Janeiro-Belo Horizonte -, sendo atualmente o 16° país com maior malha dutoviária no mundo. Todavia, a boa colocação não remete números animadores, pois, devido a grande área territorial do país, o comparativo com outras nações emergentes e de densidade populacional semelhante mostram o quão longe o Brasil está de países tidos como grandes investidores em dutos. A Argentina, por exemplo, possui aproximadamente 38 mil quilômetros de dutovias, número que é bem superior ao Brasil quando considerado a área total dos países e a densidade demográfica de ambos. O maior complexo dutoviário do mundo está na União Europeia, com mais de 800 mil quilômetros de tubulações para o transporte dutoviário.

Outra agência correlacionada com o transporte dutoviário é a ANP (Agência nacional do petróleo, gás natural e biocombustíveis), cuja incumbência é devido a locomoção desses produtos e de seus derivados. Segundo a agência, em 2019, o Brasil aumentou a produção de petróleo em 7,78%, quando comparado a 2018, o que gerou o recorde histórico de 1,018 bilhão de barris produzidos. Segundo o mesmo levantamento, a produção de gás natural também melhorou significativamente em relação a 2018, totalizando 44,724 bilhões de metros cúbicos produzidos, um aumento de 9,46%. A agência destaca ainda que grande parte da produção de petróleo no país se deve a reserva do Pré-Sal.

O gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol) é uma dutovia de transporte de gás natural que interliga os dois países; da cidade de Santa Cruz de La Sierra, na província de mesmo na Bolívia até a cidade de Canoas, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul; atravessando, portanto, cinco estados brasileiros: Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catariana e Rio Grande do Sul. São 3.150 quilômetros de extensão, dos quais 2.593 estão em solo brasileiro. A dutovia passa por aproximadamente 4 mil propriedades particulares e por mais de 130 territórios municipais. A dutovia começou a ser construída em 1997, mas sua utilização se deu apenas em 2010. O então presidente Fernando Henrique Cardoso foi um dos principais responsáveis pelas etapas inaugurais do projeto. A Gasbol é hoje a maior dutovia em atividade na América Latina.

Vale destacar também outras importantes dutovias utilizadas para o transporte de materiais em território nacional, são elas: oleoduto São Sebastião-Paulínia-Brasília, gasoduto Urucu-Coari-Manaus, gasoduto Guamaré-Pecém, gasoduto Sudeste-Nordeste, gasoduto Alagoas-Pernambuco, mineroduto Minas-Rio e mineroduto Paragominas-Barcarena.

Entre os países de maior área territorial do mundo, o que mais utiliza o modal dutoviário é o Canadá, com aproximadamente 40% de toda sua matriz de transporte. Os Estados Unidos vêm em seguida, com 22% da utilização total sendo feita por tubulações. Na realização do transporte de materiais líquidos, a Rússia é campeã em transporte por dutos para escoamento, já que o país é o maior produtor de petróleo do mundo. Uma das maiores empresas do planeta, e a maior no seguimento de gás natural do mundo é a russa Gazprom, grande utilizadora das dutovias russas. Esta empresa também possui destaque no ramo petroleiro, sendo considerada uma das cinco maiores corporações do mundo.

Os principais tipos de dutovias são: instalações subterrâneas; instalações sobre a terra, chamadas de aparente ou terrestre; instalações aéreas, que são as que ficam em grandes alturas interligando pontos específicos e instalações submersas ou submarinas.

A atuação do transporte dutoviário é dividida da seguinte forma:

Oleoduto: É a rede de tubulação utilizada para transportar petróleo e derivados líquidos de petróleo, hidrocarboneto e biocombustíveis. Os materiais são movimentados através de um sistema de bombeamento por pressão.

Gasoduto: É a rede de tubulação utilizada no transporte de gás natural. O gás é transportado através do aumento da pressão, de modo a “empurrar” o elemento para o ponto onde haja menor pressão. Há estações locais que retiram o gás dos dutos para utilização em determinada região ou estado.

Mineroduto: É a rede de tubulação responsável por transportar minérios pelas dutovias. Interligam, geralmente, minas e portos, com o objetivo de fazer o escoamento de produtos para exportação. Também é utilizado no transporte de água entre estações.

Poliduto: É a rede de tubulação utilizada no transporte de líquidos em geral, sendo alguns do ramo alimentício, como água, vinho, cerveja e outros.

Vantagens e desvantagens do modal dutoviário

As principais vantagens do modal dutoviário são: baixo custo operacional, grande volume de carga transportada, indicado para grandes distâncias, segurança do material transportado, facilidade no processo de carga e descarga, indicado para o transporte de produtos perigosos, não necessita de embalagens, não emite poluição ambiental e sua realização é inexaurível. O fato de os dutos não precisarem da mão-de-obra cotidiana do ser humano, ou seja, um motorista, um maquinista ou um piloto, por exemplo, a jornada de trabalho das tubulações são constantes; vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano.

As principais desvantagens do modal dutoviário são: alto investimento inicial para implementação, pouca flexibilidade no transporte devido as instalações fixas dos dutos, roteirização de acordo com a rede de dutos disponível, quantidade limitada de mercadorias a serem transportadas e desastre ambiental. Acidentes ambientais envolvendo dutos são, geralmente, catastróficos, pois contaminam o ambiente do acontecimento, seja a água ou a terra, causando danos imensuráveis àquela região.

Podemos dizer que, as dutovias servem como importante modo de transporte para um país, pois atuam de forma diferenciada no setor de transporte de cargas. Investimentos neste setor certamente trarão bons frutos ao país, já que temos bom espaço físico para implantação de redes e considerável potencial econômico para melhorar a matriz de transporte brasileira, o que sem dúvidas elevaria o poderio econômico da nação.

Curiosidades

  •  Segundo a CNT, a vazão média de um bombeio de GLP recebida nos dutos da Liquigás e de 150 toneladas por hora ou 3.600 toneladas por dia. Seriam necessários 144 caminhões para substituir esses dutos;
  • O transporte por dutos é considerado o mais seguro entre os modais de transporte;
  • A Transpetro, subsidiária da Petrobrás, é a maior operadora de dutos do país, com aproximadamente 14 mil quilômetros controlados;
  • As tubulações subterrâneas responsáveis pelo saneamento básico das cidades, não são contabilizadas na quantidade total de dutovias existentes no Brasil.

Evandro Nazares

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