DO FRACASSO À GLÓRIA

por Roberto Dias Alvares

No passado foi grande profissional.
Um caminhoneiro muito respeitado.
Agora, embriagado, passando mal.
Final do dia, na sarjeta abandonado.

Continuaria assim até morrer.
Certamente não viveria muito.
Todos os dias, caia de tanto beber.
Com ninguém tinha qualquer assunto.

No passado causou grave acidente.
Depois disso nunca mais dirigiu.
Respondeu processo em liberdade somente.
Contudo, a culpa que sentia o puniu.

Criança órfã, fruto de sua imprudência.
Provavelmente já se tornara uma adulta.
Nesses anos todos, prisioneiro da consciência.
Tirou duas vidas sua imprudente conduta.

O nome desse motorista era Leandro.
Quando mais jovem era audacioso.
Honesto, mas jeitão de malandro.
As vezes dirigia de modo perigoso.

Tinha ainda um único amigo.
Veio inúmeras vezes para ajudá-lo.
Estava pela culpa consumido.
Passou sobre um carro no embalo.

Esse amigo vinha a sua procura
Oferecendo a ele uma oportunidade.
Dirigir caminhão seria para ele uma cura.
Fazer transporte de uma a outra cidade.

Pela mulher foi abandonado.
Afinal só pensava em beber cachaça.
Um filho adulto já criado.
Não se deu conta, como o tempo passa.

Foi internado em coma alcoólica.
Ao acordar ficou envergonhado.
Sentia no estômago dor de cólica.
Seu fígado estava bem maltratado.

Tomou decisão de mudar de vida.
Certamente morreria, do contrário.
Parte de sua existência, perdida.
De agora em diante desafio era diário.

Largou a bebida, tomou remédio.
Em alguns meses se sentia melhor.
Lia muito para espantar o tédio.
Ficar ocioso seria muito pior.

Seu amigo tinha pequena empresa.
Cavalo mecânico FIAT duzentos e dez.
Para jovens motoristas, dirigi-lo, uma proeza.
Habilidade na troca de marchas e nos pés.

Assim que assumiu o comando do cavalo.
Mostrou que não perdera o traquejo.
Disse: pode deixar que vou guia-lo.
Voltar para a estrada, dele era o desejo.

Outros motoristas haviam tentado.
Não conseguiam tirá-lo do lugar.
Câmbio cruzado, era diferenciado.
Só motorista raiz o poria para rodar.

Semirreboque baú estava carregado.
O cavalo FIAT era um estradeiro bonito.
Cabine dupla, terceiro eixo e todo cromado.
Dirigiu-o com segurança como havia dito.

Após um ano de trabalho duro.
Para aquele homem era a redenção.
Dirigia durante o dia ou já escuro.
Se entendia bem com aquele caminhão.

Certo dia seu filho foi com ele na cabina.
Conversavam sobre vários assuntos.
Estrada envolta em densa neblina.
Perigos para motoristas eram muitos.

De repente em meio àquela névoa densa.
Um carro bateu na traseira de um caminhão.
Possibilidade de outros acidentes, ali era imensa.
Veículos às cegas uma grande confusão.

Leandro parou o bruto, ligou pisca-alerta.
Pediu a seu filho para a outros fazer sinal.
Socorrer alguém ferido era a decisão certa.
Aquele acidente não foi algo banal.

Leandro correu até o carro acidentado.
Destruída toda a parte frontal.
Uma jovem com o rosto ensanguentado.
Parecia que o acidente para ela fora fatal.

Leandro se aproximou e sentiu a respiração.
Ela ainda estava viva, mas inconsciente.
Início de incêndio, do carro seria a destruição.
Teria de agir, retirando-a imediatamente.

Puxou a porta do carro destruído.
Soltou o cinto de segurança.
Parte do carro, pelo fogo já consumido.
De salvá-la ainda tinha esperança.

Pegou-a no colo, carregou-a nos braços.
Afastou-se do carro consumido por chamas.
Andando com rapidez, ligeiros passos.
Pulando buracos, poças de lamas.

Quando estava a uma distância segura.
Diminuiu os passos, caminhando devagar.
A jovem tinha pele delicada e de grande alvura.
Na cama-leito do caminhão decidiu a ela levar.

O caminhoneiro cujo carro bateu atrás.
Usou para apagar o fogo, potente extintor.
Esperar o socorro não havia o que fazer mais.
A jovem acordou gemendo de dor.

A polícia rodoviária chegou em seguida.
Também uma ambulância com socorristas.
Leandro disse que a jovem estava com vida.
Da causa do acidente tinha algumas pistas.

O filho de Leandro aproximou-se dali.
Ajudou a por a jovem na ambulância.
A neblina ainda cobria tudo ali.
Podia ser vista a longa distância.

O veículo partiu em alta velocidade.
Leandro e o filho contaram o acontecido.
Ocorreu batida na traseira na verdade.
O controle do carro, ela deve ter perdido.

Após serem liberados pelos policiais.
Leandro e seu filho seguiram viagem.
Sentiu orgulho de seu pai o rapaz.
Leandro mostrou ser homem de coragem.

Dirigiu quatrocentos quilômetros naquele dia.
Entregou a carga e já carregou para retornar.
Cidade onde jovem estava internada, passaria.
Iriam ao hospital e a ela tentariam visitar.

Chegaram e perguntaram na recepção.
A jovem não recebeu visita de nenhum familiar.
Leandro sentiu por ela compaixão.
Pediu para com a jovem falar.

Ao adentrar o quarto onde ela estava.
Filho de Leandro sentiu apertado o coração.
Rosto lindo, na testa curativo se destacava.
Ambos pediram licença, para entrar permissão.

A jovem perguntou quem eles eram.
Leandro contou tudo que aconteceu.
Ela ficou feliz porque eles vieram.
Graças a eles, ela sobreviveu.

O rapaz disse ser seu pai o responsável.
Por tê-la salvado da morte no acidente.
Leandro teve ato de coragem admirável.
Pensou em resgata-la do perigo somente.

O rapaz estava, por ela encantado.
Ela estava feliz sem saber o motivo.
Ele se sentia, de paixão enebriado.
De amor por ela estava cativo.

Partiram mas antes de irem embora.
Convidaram-na para ir visita-los.
Ela aceitou o convite na mesma hora.
Disse que em breve iria reencontra-los.

A partir dessa visita a jovem e o rapaz.
Se encontravam com bastante frequência.
Longe um do outro não conseguiam ficar mais.
Esperar o fim de semana ele não tinha paciência.

Certo dia ela contou sua história.
Perdeu seus pais em um acidente.
Criada por estranhos, infância inglória.
Graças a um motorista imprudente.

Mas agora recebia sua recompensa.
Um homem apaixonado e sua família.
Sua alegria ali era grande, imensa.
Leandro e esposa a tinham como filha.

O filho de Leandro, soube do segredo.
Descobriu que fora seu pai o culpado.
De perder o amor da jovem teve medo.
Pois dela, ele já era o namorado.

Filho de Leandro se chamava João.
Contaria a seu pai, era o melhor a fazer.
Ao saber, Leandro sentiu golpe no coração.
Confessar o que fez, faria sua culpa reaparecer.

Enquanto viajava em seu caminhão.
Cruzando marchas, em pensamentos envolto.
Sentia a tristeza por sua irresponsável ação.
Longo declive, desceu com o caminhão solto.

Quando tentou frear, não teve jeito.
Como segurar naquela velocidade?
Os freios desgastados com defeito.
Foi um crime e não uma fatalidade.

Voltou de seus devaneios.
Tinha de se concentrar na estrada.
Pensou em contar e em todos os meios.
Certamente ela não o perdoaria por nada.

Depois de retornar ao seu lar querido.
Ao lado do filho, com a jovem conversou.
Mostrou o quanto estava arrependido.
E que daquele crime ele sempre se culpou.

A jovem cujo nome era Beatriz.
Apegara-se à Deus pela religião.
Com o filho de Leandro estava feliz.
Estava muito apaixonada pelo João.

A jovem que sentia-se em paz.
Chorou, pois a alma estava ferida.
Aquele homem que matou seus pais.
Também foi quem salvou sua vida.

Em meio a tamanha contradição.
Em que estavam seus sentimentos.
Chorou também seu amado João.
Aqueles foram emocionantes momentos.

Por perdoar Leandro, ela optou.
De nada adiantaria guardar rancor.
Entre lágrimas, um ao outro abraçou.
Aliviaram os corações daquela dor.

João e Beatriz se casaram.
Viveram uma vida abençoada.
Leandro e a esposa reataram.
Pai e filho trabalhavam na estrada.

Aquele cavalo mecânico conseguiram comprar.
Passaram de empregado a patrão.
Adquiriram outro caminhão para o filho trabalhar.
Leandro de Fiat e um Scania para o João.

Em cada volta e a cada meandro.
Chega ao fim essa história.
Superou as dificuldades o Leandro.
Foi do fracasso para a glória.

Roberto Dias Alvares

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1 comentário

Roberto Dias Alvares 28/02/2022 - 10:18

História que mostra que lutar e sair das dificuldades é possível.

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