J. Pedro Corrêa – Desatenção lamentável

por Blog do Caminhoneiro

A prefeitura de Curitiba anunciou semana passada a formalização de convênio de cooperação com Miami, na Flórida, dentro do projeto de “Cidades-Irmãs”. Miami passa a ser a 16ª “irmã” de Curitiba no mundo e a 4ª nos Estados Unidos. Este tipo de convênio de cooperação serve para aproximar cidades de países diferentes em áreas como turismo, cultura, negócios, cooperação técnica, tecnologia, transporte, educação, segurança pública, etc.

O conceito de cidade-irmã foi criado em 1947 nos Estados Unidos para fomentar amizade, paz e cooperação entre diferentes culturas após a Segunda Guerra Mundial, mas a partir de 1990 passou a ser uma cooperação estratégica, principalmente nos negócios e na troca de experiências. Entre as cidades norte americanas esta cooperação é bastante intensa existindo mesmo instituições que se ocupam unicamente do tema, como a National League of Cities e a Sister Cities International, esta concentrada na cooperação com outros países.

Fui pesquisar na Internet e confirmei o que já sabia: é expressivo o número de cidades de médio e grande portes do Brasil que possuem convênios dentro do conceito de cidades-irmãs com municipalidades de todos os continentes. A maioria absoluta das cidades que pesquisei não dá detalhes de cobertura de seus convênios mas todas fazem alarde quando da assinatura do convênio.

Perguntei à Rosangela Battistella, Superintendente de Trânsito de Curitiba, se a área dela, de trânsito e de mobilidade, haviam sido incluídas no acordo formalizado com Miami e percebi que não. Numa checagem por telefone que fiz com outras prefeituras brasileiras, senti que não há informações sobre como estes projetos são acompanhados. Gostaria muito de conhecer o resultado concreto desta experiência pois ela pode se revelar muito promissora para a área de segurança no trânsito.

É claro que as prefeituras que buscam estes convênios estão atrás de negócios e promoção. Trânsito e mobilidade não passam pela cabeça dos responsáveis. Ora, há muitas oportunidades no campo do trânsito a ser explorado pelas nossas cidades, tão necessitadas de suporte e de cooperação. Vejamos:

Desde há alguns anos a segurança no trânsito e a mobilidade estão na pauta das principais cidades do planeta por razões de saúde, segurança, economia e meio ambiente, principalmente. A primeira e a segunda década mundial de trânsito, da ONU e OMS, estão aí, escancarando, incentivando as melhores práticas para reduzir as perdas no trânsito. Nunca se falou tanto ultimamente de sustentabilidade, cidades inteligentes, desenvolvimento urbano, só para dar alguns exemplos de temas que nossas cidades podem estar desperdiçando ao não se aproveitarem dos convênios das cidades-irmãs.

Assim, aproveito para incentivar as prefeituras brasileiras que já têm acordos de cooperação com cidades de outros países que procurem saber o que estas “irmãs estrangeiras” têm feito na área do trânsito e mobilidade e como podem trocar informações e experiências. É possível que os acordos assinados entre as cidades não especifiquem a segurança no trânsito mas isto não significa que não possam adicioná-la. A grande vantagem é que este tipo de relacionamento fica restrito às cidades-irmãs, não envolvendo o Governo Federal ou o Ministério de Relações Exteriores, o que criaria bem mais burocracia e poderia até inviabilizar os acordos.

Vou dar um exemplo de cooperação entre cidades que vi pessoalmente na Europa: numa das últimas vezes que estive na Suécia e na Alemanha, constatei o desenvolvimento do Walking School Bus, “ônibus escolar a  pé”, experiência que existe há mais de 60 anos no mundo e que tem se espalhado de país em país. Em francês, é chamado de Pedibus, uma forma de conduzir estudantes à escola em que, ao invés de utilizarem ônibus, van ou carro dos pais, vão em grupo, a pé, sempre com um adulto à frente, guiando a turma, e outro, atrás de todos, monitorando. Normalmente são crianças que moram numa mesma rua e que, em determinado horário, se reúnem para irem à escola acompanhados por dois adultos, geralmente pais.  O objetivo é o encorajamento da atividade física pelas crianças, desenvolver habilidades para andarem com segurança nas ruas, melhor conhecimento da comunidade, incentivo a andar a pé, redução de tráfego de veículos e combate à obesidade infantil entre outros. Há muita coisa na Internet sobre o assunto: Walking School Bus http://www.walkingschoolbus.org, em inglês e https://artigos.wiki/blog/de/Pedibus, em português.

Buscar novas maneiras de enfrentar os crescentes problemas de trânsito e de mobilidade é vital para que as cidades tenham chances de oferecer melhor qualidade de vida à população. Quem sabe se, embutidos nos projetos de cidades-irmãs, não hajam experiências de boas práticas que possam ser repassadas às nossas cidades a baixo custo ou, eventualmente, de graça?

Minha sugestão: contatar o setor da prefeitura da sua cidade que formalizou estes acordos de cooperação internacional, checar a lista de cidades-irmãs e procurar saber o que elas têm de experiências bem sucedidas na área de segurança no trânsito e importar boas práticas, dentro do convênio. Isto pode fazer toda a diferença entre a estagnação e o sucesso. É simples, fácil e estimulante! Bola para a frente!

J. Pedro Corrêa – Consultor em programas de segurança no trânsito
jpedro@jpccommunication.com.br

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