ARTIGO – O frete que parece bom e dá prejuízo: a conta do quilômetro que falta na negociação

“Fechei um frete de doze mil.” Pouca frase anima tanto quem vive de caminhão. Só que doze mil é o que entra, não o que fica. Entre o valor do frete e o dinheiro que sobra no fim do mês existe uma conta que muito dono de caminhão não faz antes de aceitar a carga: quanto custa, de verdade, cada quilômetro que o caminhão roda.
Sem esse número, a negociação vira chute. Com ele, dá para saber em dois minutos se o frete paga a viagem, se só paga o diesel ou se vai tirar dinheiro do bolso.
O custo do quilômetro tem duas partes
A primeira parte é o que cresce quando o caminhão roda: diesel, Arla, pneus, manutenção. Quanto mais quilômetro, mais gasto. São os custos variáveis, e quase todo mundo lembra deles, porque saem do bolso na hora.
A segunda parte é o que corre mesmo com o caminhão parado no pátio: parcela do financiamento, seguro, IPVA, licenciamento, rastreador, salário e encargos do motorista e a depreciação, que é o valor que o caminhão perde a cada mês. São os custos fixos. Eles não aparecem na bomba de diesel, e por isso ficam de fora da conta com frequência.
O custo por quilômetro junta as duas partes: some tudo o que o caminhão gastou no mês e divida pelos quilômetros rodados no mês.
Um exemplo com números
Vamos a um exemplo. Os valores abaixo são ilustrativos. O que importa é a conta, e cada um deve colocar os números do próprio caminhão.
Uma carreta que roda 10.000 km por mês, faz 2,5 km por litro e paga o diesel a R$ 6,20:
Custos variáveis, por quilômetro:
- Diesel: R$ 6,20 ÷ 2,5 km/l = R$ 2,48
- Arla: R$ 0,07
- Pneus: R$ 0,20
- Manutenção: R$ 0,30
- Total: R$ 3,05 por km
Custos fixos, por mês:
- Parcela do caminhão: R$ 9.000
- Seguro: R$ 2.000
- IPVA, licenciamento e taxas, divididos por 12: R$ 700
- Rastreador: R$ 200
- Motorista, com encargos: R$ 6.500
- Depreciação: R$ 4.300
- Total: R$ 22.700 por mês, ou R$ 2,27 por km quando o caminhão roda 10.000 km
Somando as duas partes, esse caminhão custa R$ 5,32 por quilômetro. Esse é o número que precisa estar na cabeça na hora de negociar.
Pedágio fica de fora dessa conta de propósito, porque muda muito de uma rota para outra. Ele entra na conta de cada viagem, junto com o frete.
O caminhão parado também custa
Agora imagine que, no mês seguinte, o caminhão ficou uns dias na fila de descarga e rodou 8.000 km em vez de 10.000. O custo variável por quilômetro continua o mesmo. Mas os R$ 22.700 de custo fixo agora se dividem por menos quilômetros: passam de R$ 2,27 para R$ 2,84 por km. O custo total sobe para R$ 5,89 por quilômetro.
É por isso que dia parado pesa tanto. Parcela, seguro e salário não esperam o caminhão voltar a rodar. Cada dia sem rodar deixa todos os outros quilômetros do mês mais caros.
A volta vazia é onde o frete bom vira prejuízo
Com o custo por quilômetro em mãos, fica fácil ver a armadilha mais comum da estrada.
Um frete de R$ 12.000 para uma viagem de 1.500 km paga R$ 8,00 por quilômetro. Bem acima dos R$ 5,32 de custo. Parece ótimo.
Mas o caminhão precisa voltar. Se voltar vazio, ele roda 3.000 km para ganhar os mesmos R$ 12.000. Aí o frete paga R$ 4,00 por quilômetro rodado, abaixo do custo. A conta da viagem inteira fica assim:
- Frete: R$ 12.000
- Custo de 3.000 km a R$ 5,32: R$ 15.960
- Resultado: R$ 3.960 de prejuízo
O frete era bom. O que estragou a viagem foi a volta.
Por que um frete de retorno “barato” ainda compensa
Agora suponha que aparece uma carga de volta pagando R$ 5.000 pelos mesmos 1.500 km. São R$ 3,33 por quilômetro, abaixo dos R$ 5,32 de custo. Muita gente recusa por achar que “não paga”.
Só que o caminhão ia fazer esse caminho de qualquer jeito. Voltando vazio, ele gastaria os mesmos R$ 3,05 por km de diesel, pneu e manutenção, e os custos fixos correriam do mesmo jeito. O frete de retorno de R$ 3,33 por km cobre todo o custo variável da volta e ainda ajuda a pagar o fixo. A viagem inteira passa a ser assim:
- Fretes de ida e volta: R$ 17.000
- Custo de 3.000 km: R$ 15.960
- Resultado: R$ 1.040 de lucro
Um frete que, sozinho, parecia ruim transformou uma viagem de prejuízo em uma viagem que fecha no azul. O cuidado é não transformar exceção em regra: um caminhão que só roda com frete abaixo do custo cheio não fecha o mês.
Como usar isso na próxima negociação
- Calcule o custo por quilômetro do seu caminhão uma vez por mês. Diesel muda, rota muda, e o número muda junto.
- Divida o frete pelos quilômetros da viagem inteira, contando a volta. Se a volta for vazia, ela entra na conta.
- Compare os dois números. Se o frete por quilômetro da viagem inteira fica abaixo do custo por quilômetro, a viagem dá prejuízo, por mais bonito que seja o valor na nota.
- Para o frete de retorno, compare com o custo variável. Se ele paga mais do que diesel, Arla, pneu e manutenção, ele ajuda. Se paga menos, você está pagando para levar a carga.
- Anote os dias parados. Eles não aparecem em nenhum comprovante, mas deixam cada quilômetro do mês mais caro.
Quem faz essa conta antes de aceitar a carga para de perguntar “quanto o frete paga” e começa a perguntar “quanto essa viagem deixa”. É a pergunta que separa quem roda muito de quem roda com lucro.
ARTIGO DE Victor Campos, cofundador da Frotze, sistema de gestão financeira para quem tem de 1 a 20 caminhões. Trabalha com produto e design e escreve guias sobre custo e lucro de frota. As calculadoras grátis de custo por quilômetro, lucro por viagem e consumo estão em frotze.com.br/ferramentas. Contato: contato@frotze.com.br
