HISTÓRIA DA ESTRADA – DE CAMINHÃO EU CHEGO LÁ

Nos mais longínquos rincões.
Algumas casas, uma igreja.
Um campo de futebol, igual a tantas povoações.
Pessoas no bar bebem cerveja.
Lugares distantes onde faz curva o vento.
Muitas vezes uma estrada de terra batida.
O velho recorda o passado, o tempo passa lento.
Espera a morte pois já cansou da vida.
Meninos jogam bola na rua.
Sem medo, correm atrás da bola.
Brincam até o sol se pôr e surgir a lua.
De manhã cedinho vão para a escola.
Seja uma vila ou um pequeno povoado.
Tem pelo menos uma mercearia.
Ali as pessoas ainda compram fiado.
Tem de chegar de algum jeito a mercadoria.
A cada quinzena quebra-se a rotina.
Um ronco forte corta a estrada de terra.
Revoada de pássaros, som estridente de buzina.
Um monstro de aço vem descendo a serra.
Puxando um grande baú carregado.
Um cavalo mecânico da velha guarda.
Poderoso Fiat 190, para o transporte talhado.
Sua chegada é pontual e não tarda.
Quando o imenso colosso passa.
Estremece o chão da única rua do lugar.
Todos param o que estão fazendo na praça.
Para aquela imensa carreta admirar.
Essa carreta é o único elo.
Entre o vilarejo e a civilização.
No céu um brilhante sol amarelo.
Aquela carreta chama a atenção.
O motorista se chama Renato.
Nasceu lá naquele vilarejo.
Ao ver o Fiat, o comprou no ato.
Fazer transporte era seu desejo.
Não mora mais naquele lugar.
Mas não esquece onde nasceu.
Lá deixou pai e mãe, não deseja voltar.
Pelas estradas, muitas aventuras viveu.
O que o fez partir e não mais voltar.
Foi um amor que o deixou por outro.
A partir daí, para a estrada foi viajar.
Seu cavalo corria como jovial potro.
Cortou o Brasil de sul ao norte.
Foi do leste a oeste até na Argentina.
Cuidou do estradeiro não brincou com a sorte.
Tinha muito conforto dentro da cabina.
Quando cansou de rodar por esse mundo.
Começou a levar carga para sua terra de origem.
Após tantos anos, ao chegar, sentimento profundo.
Os olhos marejaram sentiu até vertigem.
Após todo esse tempo ninguém o reconheceu.
Apenas pai, mãe e irmãos o receberam com festa.
Reviu com saudosismo o lugar onde cresceu.
A casa humilde, quintal grande e a imensa floresta.
Nessa última viagem ao chegar a casa dos pais.
Estacionou o estradeiro foi o que ele fez.
Naquela casa simples sentia tanta calma e paz.
Contudo, ao entrar não foi o que aconteceu dessa vez.
Conversando com seus pais, sentada no sofá.
Estava aquela que o desprezou no passado.
Todos se levantaram, ela perguntou: “Como você está”?
Renato olhou para ela, ficou paralisado.
Após tantos anos, continuava tão linda.
Ele ficou parado, olhando para ela sem ter palavra.
Seu pai disse que ali ela era sempre bem-vinda.
Por ele não responder, sua mãe ficou brava.
Renato saiu do estado de letargia.
Disse que estava muito bem e perguntou dela.
Comentou que veio fazer entrega na mercearia.
Reparou que a mulher estava ainda mais bela.
Ela não estava mais casada.
Havia se separado havia alguns anos.
Se envolveu com a pessoa errada.
A vida tinha para ela outros planos.
Depois de tentar manter o casamento.
Viu que aquilo era tempo perdido.
Não valia a pena investir mais no relacionamento.
Aquele homem não servia para ser marido.
Voltou para a terra de seus pais.
Queria viver longe de tudo.
De volta ao vilarejo encontrou paz.
Virou professora, para isso tinha estudo.
Renato teve muitos relacionamentos.
Nenhum deles foi levado a sério.
Para ele era só aproveitar os momentos.
Amar quem o desprezou era um mistério.
Ela estava ali à sua frente.
A família toda reunida na sala.
Queria esconder que estava contente.
Controlava para não embargar a fala.
Passou a vir toda a semana ao lugar.
Para a família não arrumou desculpa.
Com a antiga paixão queria reatar.
O amor que sentia por ela era a culpa.
Ela também ficou estremecida.
Sabendo que Renato vinha ao vilarejo.
Foi assim que o tempo e a vida.
Atiçaram em ambos o desejo.
Renato continua sendo carreteiro.
Agora transporta os frutos que sua terra dá.
Leva até a grande cidade com seu estradeiro.
Volta para sua vila, pois sua felicidade lá está.
AUTOR – ROBERTO DIAS ALVARES
