Entrevista com Fernando Pitanga Rode, o Melhor Motorista de Caminhão do Brasil 2010

Sem influências na família, Fernando começou a trabalhar com caminhão em uma empresa onde era pintor, depois passou para uma empresa de bebidas, onde passou a dirigir carretas. Nas primeiras viagens mas longas, Fernando disse que foi muito complicado, até aprender os trajetos, principalmente em São Paulo, que eram regiões que ele não conhecia, e que teve muita ajuda de outros motoristas pelo rádio PX para aprender como chegar em cada lugar. Para pegar experiência, sempre seguiu conselhos de pessoas mais velhas, mas nunca viajou com ninguém com mais experiência.
Viajando com mais frequência entre Camaçari-BA e o interior de São Paulo, sempre com produtos químicos, Fernando nos contou uma história que ocorreu no final do ano passado (2013), e que lhe marcou muito. Em Ibó-PE, numa estrada reta com pista boa, um motorista de um carro de passeio cochilou ao volante e saiu da pista, onde acabou capotando. Duas crianças, por estarem sem cinto, foram arremessadas para fora do veículo, e os outros ocupantes ficaram presos às ferragens. Uma das crianças conseguiu voltar até a margem da pista, e chamava os motoristas a pararem para auxiliar, porém ninguém parava, por medo de assalto. Avisado pelo rádio sobre tal situação, Fernando parou o caminhão sobre a pista, e foi ver o que havia acontecido. Pelo modo como a criança falava, pedindo socorro, Fernando viu que não poderia ser assalto. Ao ver a situação, ele se sentiu muito impotente, por não conseguir ajudar a família presa no carro. Depois de muitas horas tentando ajuda, uma ambulância se deslocou de outra cidade, sem equipamentos, contando apenas com o motorista e uma auxiliar de enfermagem, sem preparo para resgates. Com auxílio de outros motoristas, os ocupantes foram retirados do carro e levados à um posto de saúde da região. “Aquilo ali foi muito difícil para mim, a pior situação que passei, foi a mais marcante, por ser no fim de ano e envolveu criança”, finalizou Fernando.
Quanto à alimentação, Fernando diz que não pode perder tempo, por isso prefere parar em locais conhecidos, e em horário mais cedo do que o normal, para evitar comer alimentos que ficam tempo demais depois de preparados. Também faz alguns lanches mais leves no caminhão, para economizar e ter um pouco mais de qualidade de vida na estrada.
Com obrigação de controle de jornada imposta pela empresa na qual é agregado, Fernando diz que faz parada regulares e com bastante tempo para descanso, e que roda sempre entre as 6 horas da manhã e as 10 horas da noite, com paradas para alimentação e descanso durante a jornada.
Quanto a segurança, Fernando falou que há diferenças na ação dos bandidos nas regiões do Brasil. No sudeste o caminhão é roubado, mas no nordeste o mais comum é o roubo de pneus, onde o caminhão é “sequestrado” e todos os pneus são retirados. Fernando também diz evitar situações que possam por em risco as viagens.
Ficando em média duas semanas fora de casa, Fernando diz que a saudade aperta muito, mas que hoje é mais controlado. Casado e pai de dois filhos, diz que é necessário o sacrifício, para conseguir alcançar os objetivos. Mas que faz falta a presença dos filhos, para passear e vivenciar o crescimento deles.
Outro ponto abordado foi o uso de drogas ao volante, onde Fernando disse que hoje esse é um problema muito escancarado, e que hoje os motoristas usam muitas drogas pesadas, e que ainda fazem comentários no PX, falando em códigos que estão usando entorpecentes, e há tanto tempo sem dormir, etc. O problema é agravado por empresas que contratam os caminhoneiros e oferecem prêmios para entrega da mercadoria em menor tempo. “O frete é 5 mil, se você chegar até tal hora é 6 mil. É um horário que é impossível cumprir se o cara seguir as normas. Só que o cara cheira um pó e aguenta dois dias sem parar”, completa Fernando. Outro ponto comentado por Fernando é a falta de seriedade ao volante, onde muitos caminhoneiros abusam na estrada, colocando outros motoristas em risco. Ele também fala da falta de empenho para conscientização dos motoristas, com campanhas e exames para coibir o uso de drogas ao volante.
Quanto a solidariedade entre os caminhoneiro, Fernando disse que existe, mas que é dividido pela categoria do caminhão que o motorista dirige. “Se eu precisar, um verdureiro ou cegonheiro não vai parar, mesmo sendo caminhoneiro igual a mim.”
Perguntado sobre a Polícia Rodoviária Federal, Fernando disse que no geral eles são educados e atendem bem o caminhoneiro, mas que as vezes não atendem as ocorrências mais simples, como acidentes sem vítimas, e que só tem fiscalizado os caminhões depois de alguma denúncia, alegando falta de efetivo.
A falta de linha de crédito é considerado o principal problema para melhorar na profissão, de acordo com Fernando, que diz que hoje tem uma renda boa, mas que os banco querem muitas garantias para liberar um financiamento, além da burocracia em excesso. As condições para grandes empresas são diferenciadas, como carência, valor dos empréstimos e quantidade de parcelas, o que gera um concorrência desleal, onde o autônomo deixa de crescer e acaba ficando para trás.

Sobre a competição Melhor Motorista de Caminhão do Brasil, da Scania, Fernando disse que a primeira vez que participou foi em 2008, e que conheceu ela em uma conversa em uma concessionária, onde foi fazer a revisão de um caminhão, e que foi conversar com o consultor técnico da Scania para ganhar um chaveiro. Depois de um questionário, foi para Vitória da Conquista, onde participou da fase regional, e teve uma boa colocação, mas não passou de fase. Em 2010, desempregado, Fernando se inscreveu novamente, e para a etapa regional ele foi de carona, onde o pessoal da Scania auxiliou muito, com hospedagem e translado, e onde Fernando se classificou em primeiro lugar para a final.

Porém o que faz a diferença é a experiência de vida, e o controle emocional, onde o motorista pode errar em algo que faz todos os dias, pela pressão da prova. Enquanto avançava os níveis, Fernando ficava surpreso consigo mesmo, e ainda auxiliava os colegas, com dicas sobre os percursos e os caminhões.
Na última prova, o motorista que estava na frente acabou derrubando todos os pinos, e Fernando que estava em segundo lugar acabou vencendo a prova pelo descuido desse outro motorista. “Eu não esperava ser campeão, e o que me ajudou muito foi o controle emocional, e acredito que todos os 30 que estavam lá são iguaizinhos, com o mesmo nível profissional, e que se fossem fazer a prova novamente ninguém iria tirar a mesma colocação”, finalizou.

Não participaria novamente. Essa é a frase que Fernando disse, quando perguntado sobre uma possível participação em uma futura edição do MMCB da Scania. Somente iria para acompanhar e auxiliar os competidores, pois hoje ele já teve muito benefícios com a participação, e que quer que outros motoristas, assim como ele, tenham os benefícios de participar de uma competição dessas.
Um dica que Fernando dá para quem quer começar na profissão de caminhoneiro, é o conhecimento, para aprender a usar novas tecnologias, saber operar os caminhões, e até ler o manual do caminhão, ajuda muito, além de cursos, mesmo que no período de férias, que é um investimento para o caminhoneiro.
Fernando Pitanga foi entrevistado pelo Blog do Caminhoneiro por telefone, em 22 de janeiro.
