Caminhoneiros corajosos e engenharia inteligente evitaram uma tragédia ainda maior em Chernobyl

por Blog do Caminhoneiro

Há 35 anos, no dia 25 de abril de 1986, durante testes de segurança mal executados, o reator número Quatro da Estação Nuclear de Chernobyl, na União Soviética, explodiu. O fato aconteceu bem próximo à cidade de Pripyat, que precisou ser evacuada às pressas e hoje em dia é uma cidade fantasma, assolada por níveis muito altos de radiação. Atualmente, o território pertence à Ucrânia.

Logo após o gravíssimo acidente, que espalhou uma nuvem de radiação por toda a Europa, havia a necessidade da contenção emergencial da radiação, para evitar que danos ainda maiores ocorressem e mais pessoas morressem.

Entre as centenas de trabalhadores envolvidos no serviço, algumas dezenas precisaram operar caminhões especiais em locais muito próximos ao reator, no transporte de materiais contaminados e concreto para isolamento do reator.

Em junho de 1986, portanto três meses após o acidente, o governo da URSS solicitou às montadora de caminhões da região a criação de um veículo que oferece segurança para os trabalhadores. A empresa escolhida foi a KrAZ, que desenvolveu um projeto inédito sobre a base do modelo 256B1, um caminhão robusto e confiável para diversas operações, especialmente como basculante, com capacidade de carga de 12 toneladas.

Para desenvolvimento do caminhão especial, a principal mudança ocorreu na cabine. A cabine original do modelo não tinha proteção nenhuma contra radiação, e os níveis próximos à usina eram altíssimos, podendo matar uma pessoa em pouco tempo.

O setor de engenharia da KrAZ desenvolveu uma cabine em aço, com 3mm de espessura, revestida com placas de chumbo e vidro especial, uma espécie de cápsula, para o motorista trabalhar dentro, recebendo o mínimo possível de radiação.

No chão, a cabine recebia 30 mm de chumbo, com 25 mm nas paredes e 12 mm no teto. As janelas eram feitas de um tipo de vidro especial, com 75 mm de espessura, que também resistia bem à radiação. Para vedar completamente a cabine, todos os cantos, como dos vidros, recebiam mais chumbo.

Após a montagem, todas as cápsulas eram testadas quanto à penetração de radiação, e podiam receber ainda mais chumbo para reforço. Com isso, o peso total de cada cabine era superior às 3 toneladas, exigindo que o chassi, suspensão e pneus do lado esquerdo do caminhão fossem reforçados.

Com a cabine quase hermeticamente fechada, havia um problema sério a respeito da entrada de ar para o motorista. Isso foi resolvido rapidamente com a instalação de um poderoso filtro de ar FWUA-100N, que suporta muito bem os efeitos da radiação.

Todos os comando para operação foram colocados dentro da cabine, e, no capô, eram posicionados diversos espelhos retrovisores, já que o motorista tinha uma visão muito ruim do que acontecia próximo ao veículo.

A construção do primeiro protótipo, testado por apenas 26 quilômetros, ficou pronto em 10 de julho de 1986. Até o dia 27 de julho, 18 caminhões especiais foram criados. Eles receberam a codificação KrAZ-256B1-030, e foram enviados de trem para Chernobyl em caráter emergencial.

Um momento extremamente delicado, a dedicação dos funcionários da KrAZ para montagem dos veículos especiais, trabalhando por até 24 horas sem descanso, foi homenageada com condecorações anos mais tarde.

Os caminhões foram operados praticamente sem descanso, por uma série de caminhoneiros corajosos e dedicados, até o final da construção do sarcófago, que isolou o reator, reduzindo a emissão de radiação para o ar.

Apesar dos dados da União Soviética dizerem que apenas 31 pessoas morreram em decorrência da radiação da usina, há relatos de milhares de pessoas que trabalharam desenvolveram doenças graves, como câncer, devido ao contato com substâncias contaminadas. Cerca de 600 mil pessoas trabalharam na descontaminação da região, e são relatadas 35 mil mortes que podem ter ligação com a radiação.

A história dos caminhões após a finalização das obras, assim como muita coisa à respeito do desastre de Chernobyl, permanecem ocultos devido às restrições impostas pelo regime socialista soviético.

Especula-se que os veículos usados, máquinas, caminhões, robôs e muitos outras coisas foram enterrados na região de Burakowka, próximo ao local da usina. Apesar disso, há quem diga que foram enviados novamente para a fábrica. Mas não há como saber exatamente.

Rafael Brusque – Blog do Caminhoneiro

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